Opinião

A arte miraculosa dos curadores

A Bienal de Arte de Veneza de 2019 vai ter como tema os “tempos interessantes” – os nossos, evidentemente, aqueles em que vivemos. Numa conferência de imprensa, o curador, Ralph Rugoff, falou da arte como “função social”, apontou formas de “comunicação” da arte na época das “fake news” e ainda colocou esta hipótese: “Perhaps art can be a kind of guide for how to live and think in ‘interesting times’”. Uma hipótese que investe tanta esperança na arte e lhe confere uma função tão elevada, útil e sedutora só podia ser colocada por um curador. Digamos, sem exagero, que ele está a “especular”, isto é, a exercer o pensamento especulativo (neste contexto, esta palavra poderia ter outro significado?), respondendo assim às exigências pensantes do métier. O seu trabalho – a sua missão – consiste assim numa operação complicada de transmutação, um milagre que será colectivamente confirmado pelos protocolos da credulidade instaurados como regra nos modos de difusão e recepção da arte contemporânea: as obras de arte escolhidas pelo curador para serem exibidas em Veneza de 11 de Maio a 24 de Novembro de 2019 serão “sobre” qualquer coisa. E essa “qualquer coisa” é os nossos “tempos interessantes”. Podia ser “sobre” os imigrantes e os refugiados, “sobre “grupos marginalizados, “sobre” a emancipação dos povos, “sobre” os problemas ambientais – temas muito contemporâneos que a arte “sobre” dos curadores já “abordou” em muitas exposições e bienais. Evidentemente, perante temas tão grandiosos e urgentes, todos nós, que nos preocupamos com o curso do mundo e com as suas misérias e injustiças, não podemos fazer outra coisa senão inclinarmo-nos perante um arte tão empenhada, tão “sobre” aquilo que nos preocupa, tão mergulhada nas coisas do mundo. Mas, uma vez superada esta condição de reféns em que nos coloca esta operação curatorial-especulativa que prescreve uma arte “sobre” (tão cheia de intenções moralistas, políticas, conteudísticas e temáticas que parece ela que quer ser tudo menos arte, para atrair espectadores incautos e filisteus cultos), é a nossa vez de “especular”. Para o fazer, nem é preciso grandes elaborações teóricas, basta desembaraçarmo-nos dos feitiços da epidemia curatorial e, com base em princípios fundamentais da estética e da filosofia da arte, fazer algumas perguntas, como se fôssemos uns cépticos troublemakers: mas a arte é “sobre” alguma coisa? Uma obra de arte responde assim tão facilmente a injunções temáticas? Que operação teve o curador de efectuar para que uma obra de arte seja posta ao serviço da engrenagem monolítica, autoritária, an-artística e ilegítima que ele pôs a funcionar, em total autonomia (essa mesma autonomia que ele nega às obras que selecciona)? E ao colocarmos estas perguntas já estamos a desconfiar que o curador, tal como muitos outros antes dele, simultâneos dele e depois dele, que bienaliza artisticamente em Veneza os “tempos interessantes” e monta a “kind of guide” para os percorrermos, procede a uma enorme instrumentalização e alienação do trabalho dos artistas, pondo-o a falar ruidosamente “sobre” alguma coisa extra-artística, ao serviço da “reportagem universal” ao gosto dos filisteus e para a glória eterna do sistema da arte contemporânea. “Sistema da arte contemporânea”? A designação pode parecer especulativa (também ela!), inadequada ou até sem referência, como o unicórnio. Mas quando ouvimos um curador apresentar as suas “teses” para a construção de uma bienal “sobre” os “tempos interessantes” apetece dizer que vimos claramente visto o “sistema da arte contemporânea”. E que as suas figuras tutelares são os curadores.