Opinião

Pioras lentas

Nos últimos meses, nos temas mais importantes, quantas vezes o Governo garantiu a aprovação das suas iniciativas com o apoio da direita?

1. Quando olho para esse fenómeno político recente que se convencionou designar por “geringonça”, recordo-me sempre de uma história contada por uma das figuras políticas mais extraordinárias – no duplo sentido de extravagante e notável – que conheci, José Luís Nunes. Numa ocasião, a propósito de um assunto que não recordo, José Luís Nunes invocou a resposta que uma sua tia dava a respeito da evolução do estado de saúde de uma irmã atormentada por uma doença incurável; dizia a tia em questão: “As coisas vão andando, as pioras são lentas.” A metáfora aplicar-se-ia então a uma determinada fase da vida do país ou até, mais particularmente, da vida do Partido Socialista. Atrevo-me a adivinhar qual seria a posição de José Luís Nunes sobre a presente solução parlamentar, mas por óbvio pudor abstenho-me de explicitar. Limito-me a recorrer à sua inteligentíssima apreciação.

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Há, de facto, muitas situações na política e na vida em que as pioras são lentas. Haverá casos em que se poderá valorizar a lentidão da pioria, haverá outros em que se deverá privilegiar a inelutabilidade da mesma. Creio que no caso da “geringonça” deverá prevalecer o segundo ponto de vista. Desde o início que se percebeu que esta solução governativa e parlamentar se baseava num entendimento com perímetro muito limitado e como tal com um horizonte temporal pouco ambicioso. Uma análise atenta do conteúdo exacto dos acordos subjacentes a esta fórmula governativo-parlamentar permite-nos concluir de imediato que o que fica fora da área de consenso é muito mais vasto e relevante do que tudo quanto pode ser incluído no interior dessa zona de consenso. O que já então ? isto é, na ocasião da celebração do acordo ? se poderia perceber no plano puramente conceptual, foi-se tornando progressivamente evidente no domínio da prática política quotidiana.

Haverá melhor expressão dessa dissensão do que aquela que nesta semana se verificou no Parlamento em torno de questões relacionadas com a legislação laboral? Desde o primeiro momento que se sabia que o PS e os seus actuais parceiros parlamentares mantinham divergências irredutíveis em assuntos tão importantes como a política europeia, as questões externas e diversíssimos e determinantes assuntos no domínio económico-financeiro. Convenhamos que já não era pouco. O que provavelmente os espíritos mais propensos a celebrar os méritos deste suposto acordo histórico não ousariam sequer admitir é que tais diferenças de opinião também se manifestassem no âmbito da legislação laboral. A verdade é que também nessa esfera as posições do Governo e do Partido Socialista só conseguem alcançar sustentação parlamentar se beneficiarem do apoio do PSD. Façamos um pequeno exercício objectivo: nos últimos meses, nos temas verdadeiramente importantes, quantas vezes o governo garantiu a aprovação das suas iniciativas com o apoio da tão denegrida direita e quantas vezes o alcançou com o contributo dos seus denominados parceiros parlamentares? Essa é que é a questão essencial.

Apesar de eu estar convencido que por razões de puro calculismo político o próximo Orçamento do Estado ainda será aprovado com os votos dos partidos à esquerda do PS, o que constitui cada vez mais uma evidência é que já entramos num período que poderemos designar como “pós-geringonça”. Na verdade, já ninguém parece acreditar na viabilidade dessa solução, em particular aqueles que se empenham em declarar-lhe um amor inusitado. Sejamos claros: depois de tudo o que aconteceu nos últimos meses é impossível, a quem quer que seja, apresentar esta solução política como um projecto susceptível de gerar o mais pequeno entusiasmo em relação ao futuro. Quando Augusto Santos Silva, segunda figura do Governo e um homem especialmente credível no espaço do centro-esquerda, disse o que disse na semana passada, ficou bem claro que não é possível conceber um discurso político assente na expectativa da manutenção do presente modelo de governação. Dizem-nos que ele foi desautorizado por António Costa, mas ninguém se atreve a dizer que ele foi desautorizado pela realidade. E há uma coisa que eu estou em condições de garantir: António Costa é demasiado inteligente para ignorar essa coisa que alguns desmerecem e que se chama precisamente realidade.

2. Por inesperado que seja, e até face ao que escrevi anteriormente, tenho a melhor das opiniões dos deputados comunistas e bloquistas que conheci ao longo da vida. Foi por isso com enorme tristeza que soube da morte de João Semedo. Travámos conhecimento em 1989, quando ele era ainda um importante dirigente do Partido Comunista no Porto, reencontrei-o no desempenho das funções de administrador do Hospital Joaquim Urbano, mas conheci-o verdadeiramente na condição de deputado do Bloco de Esquerda. Era uma personalidade admirável, pela inteligência, pela cultura, pela inesgotável disponibilidade para conversar com quem dele divergia. João Semedo integrava um escol de homens capazes de compreender a dimensão conjectural de qualquer doutrina ou orientação filosófica ou política. Era, por isso mesmo, um homem aberto ao diálogo sem que tal significasse uma diluição das suas próprias convicções. Com a sua morte desapareceu uma das vozes mais inteligentes da nossa vida pública. Para além disso, num país em que tudo e todos tendem a resvalar para Lisboa, a velha capital do Império, ele fez o percurso exactamente contrário. Nascido e crescido em Lisboa, João Semedo tornou-se um dos grandes cidadãos do Porto. A cidade tem o dever de o homenagear. Se há portuenses especiais, João Semedo foi um deles. O Porto para ele não foi o resultado de uma necessidade biológica, mas a consequência de uma opção existencial.