O brilho orquestral de Sérgio Godinho

Sérgio Godinho nunca fizera um concerto com orquestra sinfónica. Estreou-se agora, com a Metropolitana de Lisboa, em quatro sessões no São Luiz e com arranjos de Filipe Raposo. Um encontro feliz, com um resultado inesquecível.

Fotogaleria

Têm sido enriquecedoras as experiências, no São Luiz, envolvendo vozes distintas da canção popular e a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Os exemplos de Ricardo Ribeiro (com Rabih Abou-Khalil, em 2016) e de Camané (com Filipe Raposo nos arranjos e a direcção musical, em 2017) bastariam para atestar o êxito de tais experiências, que ocorreram a convite da programação do teatro. Pois em 2018 esse convite foi endereçado a Sérgio Godinho, que, ele próprio o disse, nunca fizera um concerto com uma orquestra sinfónica. Já o São Luiz lhe é familiar há décadas, pois ali actuou por diversas vezes e em diferentes formatos, desde o primeiro canto livre em 1974, findo o exílio, e da canção ao teatro.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Têm sido enriquecedoras as experiências, no São Luiz, envolvendo vozes distintas da canção popular e a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Os exemplos de Ricardo Ribeiro (com Rabih Abou-Khalil, em 2016) e de Camané (com Filipe Raposo nos arranjos e a direcção musical, em 2017) bastariam para atestar o êxito de tais experiências, que ocorreram a convite da programação do teatro. Pois em 2018 esse convite foi endereçado a Sérgio Godinho, que, ele próprio o disse, nunca fizera um concerto com uma orquestra sinfónica. Já o São Luiz lhe é familiar há décadas, pois ali actuou por diversas vezes e em diferentes formatos, desde o primeiro canto livre em 1974, findo o exílio, e da canção ao teatro.

Foi, mais uma vez, um triunfo. E para isso contribuíram os imaginativos e inteligentes arranjos do pianista Filipe Raposo, que já acompanhou Sérgio noutros projectos (como os concertos a piano e voz) e aqui logrou um resultado surpreendente, pela forma como tirou partido das secções da orquestra (dos naipes de cordas e sopros às percussões), combinando comedimento e brilho, num todo notável. As 21 canções escolhidas, que no programa de sala surgiram por ordem alfabética, não pelo alinhamento, tiveram assim um tratamento de luxo, cumprindo-se o que Rui Campos Leitão (musicólogo, da OML) escreveu no programa: “desafiar a sonoridade da orquestra para dialogar com a diversidade estilística das canções”. E isso levou a reinvenções, em matéria de arranjos, mas também a reencontros, com a orquestra a surgir, com imponente naturalidade, aliada a temas “de sempre”, dando-lhes nova ênfase.

O arranque fez-se com dois temas de Nação Valente, o novo disco, provando a sua justa popularidade: Noite e dia (letra de Sérgio e música de Filipe Raposo, talvez para sublinhar esta nova aventura a dois) e Grão da mesma mó; e prosseguiu com uma revisão criteriosa de várias épocas: O velho samurai, Bomba-relógio, Dias úteis, A deusa do amor, O homem fantasma. A voz de Sérgio, em muito boa forma na interpretação e na abordagem e clareza das palavras, não esteve apenas acompanhada nestes espectáculos (quatro noites no palco principal do São Luiz, de 5 a 8 de Julho) pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Cesário Costa; também contou com Filipe Raposo, ao piano, e com os músicos de Os Assessores, a sua banda habitual. Por isso, houve temas só com orquestra, outros com orquestra e piano, outros ainda só com a banda, ou só voz e piano (como o dilacerado Fotos do fogo) ou, e muitos casos, todos em conjunto. Mas essa gestão de instrumentos teve o mérito de avivar as canções, não as submergindo em efeitos supérfluos. O elixir da eterna juventude, por exemplo, foi só voz e banda, tal como Liberdade, enquanto o belo Endechas a bárbara escrava, poema de Camões musicado por José Afonso, emocionou com piano e orquestra.

Fotos do fogo fez a transição das memórias da guerra (uma qualquer guerra, mas podia ter sido a de África) para a juvenil “sede de ter mundo” de Mariana Pais, com música de José Mário Branco. Lisboa que amanhece (orquestra e banda), Dancemos no mundo e Bem-vindo sr. Presidente (estes só com banda), antecederam, oscilando entre uma melancolia doce e a ironia clara, nova incursão no novo disco, agora com Tipo contrafacção, só com orquestra e sem a banda, numa versão superlativa. Com um brilhozinho nos olhos, a piano e orquestra, e depois Só neste país, com a participação de todos os músicos (piano, orquestra, banda), encerraram o concerto com uma tempestade de aplausos.

Faltavam os extras. Que não tardaram: A noite passada, Coro das velhas e O primeiro dia, este a piano e orquestra, numa versão soberba e deveras emocionante. Esgotada a lista, Sérgio e os músicos (todos, mais uma vez) regressaram a Grão da mesma mó, de novo a recordar que Sérgio tem no seu novo disco, Nação Valente, um trabalho a merecer todas as atenções. Para um “estreante” em orquestra sinfónica, como Sérgio confessou ser, não podia ter corrido melhor. E a noite a que se refere este texto, a de sábado, foi musicalmente inesquecível. Seria muito bom se dela houvesse registo fonográfico.