Opinião

Vamos falar de saúde mental?

Parte do problema deve-se também ao tabu que envolve as perturbações mentais. Muitos não estão ainda sensibilizados para estas questões, outros têm vergonha de admitir, outros tratam com indiferença.

Recentemente, têm-se sucedido as histórias de suicídio de celebridades, como a designer Kate Spade e o chef Anthony Bourdain. A última abalou tudo e todos, que olhavam com alguma cobiça para a vida irreverente e independente do chef e viajante norte-americano. Afinal quem não quereria ter como profissão viajar pelo mundo, conhecer lugares e pessoas diferentes, experimentar a gastronomia de todos os cantos do mundo? Para surpresa de muitos, e ainda sem se saber as razões para tal decisão, Bourdain suicidou-se no passado mês de Junho.

Estes casos mediáticos devem lembrar-nos que cerca de 800 mil pessoas se suicidam todos os anos no mundo, o que equivale a um suicídio a cada 40 segundos. Já para não falar das várias tentativas de suicídio, das quais não conhecemos o volume e os detalhes. Dados da Organização Mundial de Saúde dizem-nos ainda que, em termos globais, o suicídio é a segunda causa de more entre as pessoas com 15 a 29 anos.

Parece consensual, que independentemente da localização geográfica para onde olhamos, a faixa etária de jovens adolescentes e jovens adultos (15 a 29 anos) é bastante frágil a perturbações mentais. Este é exatamente o tema do fenómeno televisivo Por Treze Razões  (“13 Reasons Why”) baseado no livro de 2007 de Jay Asher e adaptado por Brian Yorkev para a Netflix. A série televisiva aborda o suicídio de uma jovem aluna do ensino secundário e todas as razões que a levaram até essa decisão. A série norte-americana, aclamada pela crítica e adorada pelos fãs, não se foca apenas no suicídio, alerta-nos para outras perturbações mentais igualmente importantes como a ansiedade, a depressão ou a bipolaridade. A série ainda retrata um conjunto de experiências pelos quais os jovens passam como o bullying ou a pressão do mundo virtual.  

O que é afinal a saúde mental? A saúde mental diz respeito ao bem-estar emocional, psicológico e social. Afeta como pensamos, agimos e sentimos no dia-a-dia. E é importante em todas as fases das nossas vidas, desde a infância até à velhice. Na verdade, todos nós somos suscetíveis de passar por algum tipo de perturbação mental em qualquer momento das nossas vidas. Embora o suicídio seja um indicador de (falta de) saúde mental, existem muitas outras perturbações mentais a ter em conta. A verdade é que muitas vezes a discussão apenas se centra nos números alarmantes dos suicídios. E claro que é importante olhar para estas estatísticas e aprofundar mais o problema, mas na minha opinião esta discussão deve ser reorientada para um problema muito mais amplo que constitui as diversas perturbações mentais existentes e a saúde mental em geral.

Olhemos então para alguns indicadores de (falta) saúde mental no plano europeu e norte-americano e por fim para a realidade portuguesa.

Nos Estados Unidos da América (EUA) o problema tem vindo a agravar-se. Aproximadamente 1 em cada 5 adultos vive com perturbações mentais (44,7 milhões em 2016). Segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, ocorreram quase 45 mil suicídios em 2016, mais do dobro do número de homicídios no país. 

Este é também um problema bem conhecido dos europeus: 9 dos 10 países com a maior taxa de suicídios no mundo fica no espaço europeu. De facto, 27% da população adulta (18-65) já experienciou pelo menos uma perturbação mental no passado ano. Contudo, prevalência de perturbações mentais é frequentemente apontada em grupos sociais frágeis como os sem-abrigo, os reclusos e os jovens institucionalizados.

  A nível europeu, as estatísticas demonstram, por exemplo, que 1 em cada 5 adolescentes é afetado por pelo menos um problema de ordem psicológica. Em Portugal e de acordo com os estudos epidemiológicos, a prevalência de perturbações psiquiátricas na população infantil e juvenil é cerca de 20-30%. Mas se considerarmos outros problemas de saúde mental que, sendo de menor gravidade, também requerem algum tipo tratamento, a prevalência é ainda maior.

O último retrato feito em 2017 pela Direção-Geral de Saúde sobre a saúde mental dos portugueses indica que o registo de utentes com perturbações mentais nos cuida­dos de saúde primários tem vindo a aumentar desde 2011, no que diz respeito às perturbações de ansiedade, às per­turbações depressivas e às demências.

É por isso necessário avaliar tecnicamente os recursos existentes na área da saúde mental, definir planos de ação e políticas públicas endereçadas para a prevenção e combate das perturbações mentais. E questionarmos qual o papel e responsabilidade das escolas nesta questão? Dos pais? Da sociedade em geral? Das instituições políticas? O que se pode fazer em termos legislativos? Na verdade, o que podemos todos nós fazer?

Embora a saúde mental esteja lentamente a entrar na agenda do debate público, até por força dos frequentes suicídios mediáticos que nos obrigam a olhar para o problema, não se vislumbra ainda uma integração significativa deste problema na agenda política. Na atual legislatura, foram apenas quatro as iniciativas legislativas que deram entrada no parlamento sobre o tema da saúde mental. PCP, PAN, PSD e CDS apresentaram projetos de resolução que pediam ao governo que olhasse para questões como o cyberbullying (CDS),  o reforço das respostas do sistema nacional de saúde para a Saúde Mental (PCP e PSD) e a promoção da melhoria das condições de saúde mental, em ambiente laboral, nas Forças e Serviços de Segurança (PAN).

A falta de interesse dos grupos parlamentares neste tema colide com as conhecidas limitações do sistema de saúde mental português. O Plano Nacional de Saúde Mental de 2017 escrutinou o sistema de saúde mental português e identificou as várias limitações que o sistema apresenta. Destas, destacamos por exemplo a falta de acesso a serviços especializados, a falta de recursos e a prevenção insuficiente e em termos do consumo de medicamente, o aumento da Dose Diária Definida (DDD), em todos os grupos farma­cológicos, entre 2012 e 2016.

Parte do problema deve-se também ao tabu que envolve as perturbações mentais. Muitos não estão ainda sensibilizados para estas questões, outros têm vergonha de admitir, outros tratam com indiferença. É por isso necessário que não só os organismos com poder decisório atuem nestas matérias, mas também que todos nós, independentemente dos nossos conhecimentos mais ou menos técnicos na área, possamos alterar o atual paradigma. Podemos começar por estar atentos ao que se passa à nossa volta, podemos discutir, refletir e simplesmente falar destas questões com os amigos, família e colegas. E assim desmistificar, aos poucos, este tabu na sociedade portuguesa.

O Institute of Public Policy (IPP) é um think tank académico, independente e apartidário. As opiniões aqui expressas vinculam somente os autores e não refletem necessariamente as posições do IPP, da Universidade de Lisboa ou de qualquer outra instituição.