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O seu anti-monumento, com dez metros de altura, construído com cubos feitos com lâmpadas de tipo industrial, à beira Tejo rui gaudêncio

A Arte segundo Pedro Cabrita Reis

Depois do Porto, a Colecção Cabrita Reis, adquirida em 2015 pela Fundação EDP, mostra-se agora em Lisboa, juntamente com um monumento concebido pelo artista coleccionador para o campus da Fundação EDP. Ou anti-monumento: é o único nas duas margens do rio que não opõe qualquer barreira à contemplação da paisagem.

O monumento chama-se Central Tejo, num evidente jogo de palavras entre o edifício onde a Fundação EDP se instala, uma antiga central eléctrica com esse nome, e a disposição no pontão sobre o rio fronteiro a esse edifício. Trata-se de uma estrutura com dez metros de altura, construída com cubos feitos com lâmpadas de tipo industrial, muito habituais em trabalhos de grandes dimensões de Pedro Cabrita Reis. É ainda uma peça vazada, arejada, por onde podemos perceber a vista da margem sul, com outras estruturas também em altura que fazem frente a esta: os silos da Trafaria, o Cristo-Rei, os pilares da ponte. Ou o seu inverso, para quem se aproxime de Lisboa: o monumento ecléctico aos Descobrimentos, a própria Torre de Belém.

O artista conta-nos que quis fazer um “lugar de luz sobre o rio.” Este rio, que dá a sua identidade a Lisboa e a quem os lisboetas durante décadas foram virando as costas, merecia esta luz que é também transparente. Agora, acrescenta Pedro Cabrita Reis, nos últimos vinte anos, “vamo-nos virando mais para o rio. Mas as coisas demoram muito tempo a mudar.”

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Tudo se passa aqui como se Cabrita Reis tivesse querido jogar com as referências históricas, historicistas, utilitárias e fabris que vão marcando o percurso da margem ribeirinha do Tejo na zona de Lisboa. Como qualquer escultura deste tipo, esta privilegia a altura, mas uma altura que é transparente. E, em vez do peso dos materiais tradicionais usados noutros locais, serve-se de esquadrias em alumínio, lâmpadas, cabos. De certa maneira, este é um anti-monumento, algo que nega a vocação celebratória, durável e eterna de todos os outros monumentos que foram sendo construídos na margem de Lisboa. Cabrita Reis mostra-nos como essa mesma qualidade o faz crescer, parecer maior do que os dez metros de altura que efectivamente possui. É o único monumento nas duas margens do rio que não opõe qualquer barreira à contemplação da paisagem.

A inauguração deste Central Tejo coincidiu também com a apresentação em Lisboa do núcleo de obras de artistas portugueses reunidas por Cabrita Reis entre 1995 e 2005, adquirida pela Fundação EDP em 1995, e que entre Fevereiro e Maio esteve em exposição na Galeria Municipal do Porto. As obras que estão nas Centrais 1 e 2 do edifício do MAAT são quase as mesmas que estiveram na capital nortenha. A substituição mais importante é a da peça de João Pedro Vale, um Barco Negro de 2004, agora trocado por Português Suave, uma réplica em grande escala do Palácio Nacional da Pena feita em maços de cigarros Português Suave. Este é também o nome jocoso dado a um estilo arquitectónico passadista e decorado que se opôs e se opõe em Portugal à radicalidade modernista nesta disciplina artística. João Pedro Vale, que na altura desconstruía com a escultura a simbologia estado-novista da identidade portuguesa, conseguia com esta obra uma das melhores versões deste conceito.

Um gosto autoral

Pedro Cabrita Reis é artista, um dos mais importantes artistas portugueses contemporâneos. Faz parte de um muito restrito grupo de autores que se conseguiram internacionalizar, e que possuem visibilidade além-fronteiras sem terem já que necessitar de apresentar provas do seu trabalho. A colecção que constituiu a partir de 1995, e que fechou por vontade própria dez anos mais tarde, tem a sua raiz profunda num olhar estético, num gosto autoral sobre o trabalho dos outros que é também aquele que exerce quando cria. A sua colecção integra cerca de 400 obras, em compras que se foram fazendo sistematicamente no trabalho de outros artistas amigos e conhecidos, tantas vezes ainda no atelier ou mesmo em projecto. É sabido o prestígio de que sempre gozou junto das gerações mais novas, a quem com frequência dava trabalho e ensinava no seu atelier. “Não imagina a quantidade de pedidos que ainda recebo hoje. Vêm, pregam uns pregos, ajudam-me uns dias, e vão aprendendo umas coisas”, conta-nos. Muitos desses jovens têm trabalhos nesta exposição, e mesmo excelentes trabalhos, como é o caso de uma escultura elegante, aérea, citando o modernismo mas ultrapassando-o na pobreza e no cromatismo dos materiais, de João Ferro Martins, que começou como assistente de Cabrita e hoje é artista de direito próprio.

De certo modo, Cabrita Reis revelou possuir desde cedo um ascendente inegável sobre as gerações mais novas. E no entanto, no começo da década de 90 já se sabia que seria um dos artistas mais importantes da geração precedente, a mesma que voltara a olhar com interesse para a história e para o museu depois da radicalidade das últimas linguagens modernistas dos anos 70. Em 95, quando começa a coleccionar, pressente nos artistas por quem se interessa uma ânsia de regulação ética do meio artístico que não sentia existir na altura em Portugal. O que estes produziam não encontrava eco nem no gosto nem nas preferências dos líderes de opinião da altura, galeristas ou críticos. Pedro Cabrita Reis abre as portas aos mais novos, ouve-lhes as queixas e os projectos de vida, ajuda-os a sobreviver numa Lisboa e num Porto ainda parcos de espaços de exposição e de coleccionadores que ajudassem os artistas a serem artistas. Ao percorrermos Germinal, o nome que os curadores, Pedro Gadanho e Ana Anacleto, deram à exposição (por analogia com o romance do mesmo nome de Zola, que narra a tomada de consciência política numa sociedade operária), é a esse universo que voltamos, um universo que interroga o mundo através de quatro núcleos definidos pelos curadores: “O predomínio da tecnologia”, “O sujeito em fractura”, “A herança das imagens” e “Ao encontro do outro”.

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A colecção que Cabrita Reis constituiu a partir de 1995 tem a sua raiz num gosto autoral sobre o trabalho dos outros que é também o que exerce quando cria rui gaudêncio

Ana Anacleto, no ensaio de contextualização que escreveu para a exposição, relata bem este contexto cultural e sociológico que se vivia na altura, e estabelece interessantes paralelismos com a música rock – que alguns dos artistas que aqui expõem, como João Paulo Feliciano, por exemplo, também praticavam. É surpreendente como certas obras se tornaram icónicas e representativas do trabalho dos artistas que as fizeram, como a Swinging Electric Chair, do mesmo João Paulo Feliciano, de 94, ou La Stupenda, uma instalação de Vasco Araújo de 2001, ou o Olho Mágico de Miguel Palma, de 93, os Impulsos e Hesitações de Noé Sendas (1997-1998), uma das melhores obras deste artista. Há artistas que deixaram de trabalhar – “a vida é mesmo assim”, diz o coleccionador -, outros que escolheram outras vias, como o ensino ou a curadoria – este é o caso de Paulo Mendes, por exemplo, representado com duas obras importantes na época em que foram criadas: A Escolha do Crítico, de 1993, resultado de um pedido feito a vários críticos de arte então activos para abrirem as portas das suas bibliotecas; e uma Répétition avant le crime (troisième version) travail en cours, datada 1996 / 2018, cena de violência feita com brinquedos do comércio.

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Contudo, o mais interessante da exposição é poder ver a raiz da linguagem de tantos artistas que aqui começavam a trabalhar. Joana Vasconcelos, por exemplo, está representada com uma Pop Luz de 1995 que, sem dúvida alguma, já contém em escala reduzida todos os elementos da sua escultura actual. Brighenti, Rosa Carvalho, Gil Heitor Cortesão, Jorge Queiroz, Rui Toscano já fundamentavam a sua obra nas questões que hoje em dia mantêm em aberto, e isto independentemente do medium que tenham escolhido para trabalhar. Notáveis também são as soluções inventivas pontualmente encontradas para trabalhar as tecnologias de som e imagem que então se difundiam no comércio: Carlos Roque e Rui Calçada Bastos não podem deixar de ser mencionados neste contexto.

Ora, se pensamos nas soluções individuais que cada um encontra para a prática artística, temos também que pensar na questão principal que une todas elas. E esta é a questão que o coleccionador faz a si próprio, que mais não é do que a pergunta de base sobre aquilo que um artista é.

Voltemos a Pedro Cabrita Reis. Diz-nos ele que sempre teve uma atitude política na vida. Muito novo, por alturas do 25 de Abril, essa atitude materializava-se no activismo. Em 1977 mudou, e voltou para o atelier fazer “aquilo que o Cabrita Reis devia fazer como política: arte.” Por isso, toda a arte é política. Toda a arte pode ser ética ou não ética, independentemente da forma e da técnica que a materializam. E a política, como coisa da pólis, da cidade, implica a existência de uma comunidade. Cabrita Reis deu visibilidade a essa comunidade, e foi ela, antes dos coleccionadores e dos museus, que decidiu que o que fazia era arte. Esta colecção não representa uma época, ou uma geração, e muito menos um grupo ou uma tendência. Não é a arte dos anos 90. É alguma da arte que se fez entre 1995 e 2005. E de que Pedro Cabrita Reis gostou, comprou e coleccionou.