Europa

Merkel e Orbán discordam sobre a "humanidade" da Europa

Chanceler alemã sublinha que ao falar-se de migrantes são precisos "valores" porque "são pessoas que vêm até nós". Orbán responde que ao não deixar passar milhares de refugiados para a Alemanha, a Hungria está a mostrar "solidariedade".
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FILIP SINGER/EPA

Enquanto em Berlim a chanceler alemã dizia ao primeiro-ministro húngaro que ao falar de políticas de migração e asilo se estão a discutir vidas de pessoas e um valor fundamental europeu, a “humanidade”, o seu ministro do Interior estava em Viena onde junto do chanceler austríaco anunciou planos para conversações com Itália destinadas a “fechar” a rota Sul de migração. 

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Merkel recebeu Viktor Orbán após dias em que a questão da imigração e asilo esteve no topo da agenda política alemã devido ao conflito com o líder bávaro e ministro do Interior Horst Seehofer (os dois chegaram a um acordo na noite de segunda para terça-feira).

Na conferência de imprensa conjunta, os líderes da Alemanha e Hungria concordaram em discordar. Merkel sublinhou que são valores que estão em causa: “Nunca iremos esquecer que esta é uma questão de pessoas, pessoas que vêm até nós, e que isso tem a ver com a mensagem básica da União Europeia: humanidade”, declarou a chanceler. “Acredito que a humanidade é a alma da Europa", disse. “A Europa não pode simplesmente distanciar-se dos que precisam e sofrem.”  

Orbán, que tem seguido uma política ferozmente anti-refugiados (por exemplo, o seu Governo criminalizou a ajuda a refugiados), disse que a Hungria se sente lesada ao ser acusada de falta de solidariedade, já que fez um grande esforço para proteger a fronteira Sul da União Europeia. Se não o fizesse, disse Orbán, todos os dias entrariam entre quatro a cinco mil pessoas que iriam em direcção à Alemanha. “A Hungria tira assim um enorme peso dos ombros à Alemanha”, disse. “Isto também é solidariedade.”

Enquanto isso, em Viena, o ministro alemão do Interior, Horst Seehofer, reunia-se com o chanceler austríaco para falar dos planos de ter três centros de trânsito na fronteira com a Áustria para requerentes de asilo que cheguem ali mas se tenham registado noutros países, parte do plano que acordou com Merkel. Os dois concordaram que estes requerentes de asilo seriam enviados para o país onde fizeram o primeiro registo (como ditam as regras europeias, que não têm sido sempre seguidas pois põem pressão acrescida nos países de entrada) e não para a Áustria.

Como poderia a Alemanha assegurar que as pessoas retornam a esses pontos?, perguntaram jornalistas. Seehofer admitiu que a questão era demasiado complexa e que Merkel teria de negociar com os líderes de Itália e Grécia. 

Enquanto Seehofer estava em Viena, na Alemanha as primeiras sondagens pós-acordo confirmam o que muitos jornalistas vinham a comentar: que a discussão deixou os dois líderes, e os seus partidos, a CDU e o seu partido-gémeo na Baviera, a CSU, feridos.

Uma sondagem da estação de televisão pública ZDF mostrava que ainda assim uma maioria diz que Seehofer saiu mais enfraquecido do que Merkel (46% Seehofer, Merkel 39%). Pior para o bávaro, a maioria dos inquiridos na sondagem dizem que ele não deveria continuar no cargo de ministro do Interior: 69% são de opinião de que deveria demitir-se – uma maioria mesmo na Baviera, onde 59% têm esta opinião.

A discussão começou com uma exigência de Seehofer evitar chegadas de pessoas que já tinham requerido asilo noutros países à Alemanha e o acordo centrou-se na fronteira da Baviera com a Áustria. Mas ainda esta quinta-feira o jornal Rheinische Post citava dados da polícia mostrando que 73% das entradas irregulares no país em 2018 não ocorrem na fronteira com a Áustria na Baviera, mas sim através de outras fronteiras e nos aeroportos e portos alemães.