Ilustração

Tóssan: rir a sério da vida

O designer e ilustrador Tóssan chamava-se, a sério, António Fernando dos Santos. Uma personagem que ia muito para além do artista talentoso e bem-humorado. Só queria ser quem era. Conseguiu. Os seus trabalhos podem ser vistos em Setúbal, até 30 de Junho.
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Sapo. Um dos animais do bestiário Lógica Zoológica, que publicou no jornal humorístico Bisnau Tóssan

A sua vida durou 73 anos (1918-1991), mas a obra perdurará por muitos mais, mesmo que não lhe tenha sido dada ainda a visibilidade merecida. Por estes dias, Tóssan ocupa a Galeria Municipal do 11, na Festa da Ilustração de Setúbal. Uma delícia.

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“Eu não estava de todo preparado para a complexidade e para a riqueza das memórias que o Tóssan ainda tem hoje”, disse, durante a inauguração, Jorge Silva, comissário da exposição A Vida É Engraçada, mas Eu Levo-a a Sério. Acrescentou que o que ali apresentava era “um pequeno ensaio” do que gostaria de ter feito. E até confessou, com delicadeza e graça, que tinha vontade de que todos os visitantes desaparecessem dali, para poder desfrutar do que reunira.

Logo à entrada, a atenção vai para um macaco pendurado, uma reprodução, em recorte, da imagem da capa do livro Animais, Esses Desconhecidos, de 1965. Apetece ficar.

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Macaco (in Animais Esses Desconhecidos) Tóssan

As diferentes facetas e artes de Tóssan estão espelhadas numa exposição que reúne imagens publicadas em crónicas na imprensa, retratos, anúncios, ilustrações para histórias infantis, textos, caricaturas, livros. Tudo trabalhado com minúcia e polvilhado com sátira. É difícil não sorrir ao olhar para as paredes da galeria.

“Tóssan era o humorista total, o poeta do absurdo, o declamador de memória prodigiosa, o incrível conviva que reinava em jantares e festas, desfiando ininterruptamente histórias fantásticas que muitas vezes eram apenas episódios da sua vida real, o eterno apaixonado pela infância, que brindava as crianças, que não teve, com jogos desenhados e papéis recortados”, pode ler-se no catálogo da mostra.

Alguns dos trabalhos remetem-nos para a infância, como testemunhou José Teófilo Duarte, designer e director do projecto É Preciso Fazer Um Desenho? “Quando estava a ajudar a montar a exposição e toquei em originais de O Velho, o Rapaz e o Burro, não pude deixar de me emocionar”, contou também na inauguração, um pouco antes de ser exibido um filme de Tóssan, com Tóssan e… uma gravata.

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Cão Pêndio. Ilustração da colecção de trocadilhos à volta da sílaba "cão". Editada em 1959 pela Portugália e em 2015 pela Bruaá Tóssan

Foi uma exibição pública inédita de um pequeno filme mudo e a preto e branco que só a família e os amigos do autor conheciam. Nele, Tóssan digladia-se com uma gravata. Esta começa por fugir a ser aprisionada no seu pescoço, escondendo-se em vários recantos e obrigando-o a percorrer a casa à sua procura. Mais tarde, o protagonista finge desinteressar-se dela, numa espécie de amuo, até que a gravata volta a insinuar-se e a aproximar-se. Um divertido jogo de sedução e rendição que acaba com um nó de gravata feliz, mas irreverente até ao fim.

“Tóssan era o vulcão explosivo que contagiava tudo o que tocava. Foi assim no Teatro Lethes em Faro, no TEUC em Coimbra, na Embaixada do Brasil, no Diário de Lisboa e na editora Terra Livre. Escrevia para a gaveta, em centenas de papéis rabiscados com ideias, esboços e poemas completos, de um nonsense e humor irresistíveis, a dar um sentido à vida, que Tóssan acreditava absurda.” Mais palavras de Jorge Silva, que acredita que “Tóssan merecia mais, precisa de mais”.

Lembrou que o centenário do seu nascimento termina em Maio de 2019, informou que esta exposição viajará para Espinho em Setembro e afirmou: “Apetece-me dizer que a última palavra sobre Tóssan ainda não foi escrita, ainda não foi impressa.”

Não será esta, mas fica o contributo — sério, mas não fúnebre.

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