Mais jovem e com menos poder de compra. Assim é quem vive nas ilhas

Nos Açores, há quatro vezes mais pessoas a receber o RSI do que no resto do país. A Pordata reuniu 100 indicadores sobre as ilhas que são “portas para explorar cada uma das regiões”.

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Paulo Pimenta

É nas ilhas que vivem os portugueses mais jovens. Ali, há menos poder de compra, o abandono escolar é mais precoce, a distribuição da população pelo território é desigual e em algumas ilhas nem sequer há um hospital. Os hotéis vão-se multiplicando, bem como os turistas. As conclusões são traçadas num retrato dos Açores e da Madeira que a Pordata, um projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), apresenta hoje.

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É nas ilhas que vivem os portugueses mais jovens. Ali, há menos poder de compra, o abandono escolar é mais precoce, a distribuição da população pelo território é desigual e em algumas ilhas nem sequer há um hospital. Os hotéis vão-se multiplicando, bem como os turistas. As conclusões são traçadas num retrato dos Açores e da Madeira que a Pordata, um projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), apresenta hoje.

Os dados não são novos, mas foram agregados para que se possa olhar numa “óptica evolutiva” para os dois arquipélagos e compará-los com o continente, diz ao PÚBLICO Maria João Valente Rosa, directora da Pordata. Só que além das diferenças ante o resto do país, o retrato agora traçado mostra que os insulares lidam ainda com profundas diferenças nos seus territórios. 

Nos Açores, o aspecto mais marcante é a discrepância no número de beneficiários do rendimento social de inserção (RSI) em comparação com os outros territórios. São quatro vezes mais. “Não podemos ficar descansados quando olhamos para os níveis de pobreza nos Açores. São muito marcantes”, nota Maria João Valente Rosa. Se se olhar, por exemplo, para o número de beneficiários do RSI, percebemos que por cada 100 pessoas com 15 ou mais anos, nos Açores, 12 têm este apoio. Segundo dados de 2016, a média do país situa-se nos 3,2%. Na Madeira, o número não se afasta da tendência nacional (2,9%).

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A explicação para este fenómeno não é “simples”, reconhece Fernando Diogo, sociólogo e professor na Universidade dos Açores.

Em primeiro lugar, nota o professor, que também é membro da Comissão Científica da Estratégia Regional da Luta contra a Pobreza, uma parte da explicação para estes números prende-se com o facto de a taxa de pobreza no arquipélago ser “superior” à média nacional. 

Depois, “a diferença entre o beneficiário potencial e o beneficiário real é muito pequena”, diz o sociólogo. Isso quer dizer que praticamente todas as pessoas que estão em condição de receber o RSI recebem-no efectivamente.
Esta situação verifica-se em particular na ilha de São Miguel, já que 76% das pessoas que beneficiam do RSI, nos Açores, vivem na ilha, avança Maria João Valente Rosa.

E é a própria configuração geográfica do arquipélago que obriga a que esta rede funcione melhor. “É preciso ter serviços nas nove ilhas. No continente, não é bem assim.” Segundo diz Fernando Diogo, a população mais vulnerável à pobreza em Portugal são as crianças e os jovens. Sendo os Açores a região mais jovem do país, as famílias com crianças serão “mais vulneráveis” à pobreza, o que se reflecte no RSI. A par disso, continua o investigador, a região com maior percentagem de famílias numerosas do país é a Região Autónoma dos Açores, o que pode explicar “um maior nível de pobreza” e um maior número de beneficiários do RSI.

Mas se é verdade que os Açores têm a maior percentagem de beneficiários do RSI do país, a realidade é que recebem “a prestação mais baixa por pessoa”. Isto, porque funciona como um “complemento” ao próprio salário.

Esta realidade também se manifesta nos números do poder de compra. Só no Funchal e Ponta Delgada é que os números são superiores à média nacional.

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Educação

Para a directora da Pordata, “a educação e a pobreza andam, de algum modo, de mãos dadas” – sobretudo quando os números indicam que, nos Açores, um em cada quatro jovens dos 18 aos 24 anos (27,8%) já não está a estudar e não tem o ensino secundário completo. A Madeira segue a mesma tendência (23,2%, segundo dados de 2016). Em ambos os casos, a taxa de abandono escolar precoce é cerca do dobro da média nacional, que se situa nos 13%.

A maioria da população das ilhas com 15 ou mais anos, e à semelhança do que acontece do continente, não tem mais do que o 9.º ano de escolaridade. Na Madeira, são 65%. Nos Açores, são sete em cada dez. A média nacional está nos 61%.  

A baixa escolaridade da população activa tende a reflectir-se em ordenados mais baixos, nota o sociólogo Fernando Diogo. Os salários dos homens açorianos, por exemplo, “têm um nível idêntico aos ordenados das mulheres para o conjunto do país”, diz. Ou seja, são mais baixos em relação aos salários dos homens no continente. 

Até há pouco tempo, nota o investigador, “boa parte das famílias açorianas tinha em casa apenas um ordenado, o do homem”, dado que no contexto nacional “os Açores são a região que se destaca por ter a taxa de actividade feminina mais baixa”.   

Isto tem consequências na pobreza e nos beneficiários de RSI. “Durante muito tempo, as famílias açorianas não tiveram este segundo ordenado”, diz Fernando Diogo. Tal significa que, sem “rede de segurança”, estariam em maior risco de cair numa situação de carência.

Demografia

A população nas ilhas ainda é a mais jovem do país. Ainda assim, os dados mostram que quem lá vive, à semelhança do resto do país, está a envelhecer. Nos Açores, há 84 idosos para 100 jovens (dados de 2016), quando, em 2011, eram cerca de 60. Na Madeira, em 2011, contavam-se pouco mais de 60 idosos para 100 jovens. Hoje, são 108.

No que toca ao envelhecimento, “se olharmos para dentro dos Açores, os contrastes são grandes, o que também se aplica à Madeira”, garante Maria João Valente Rosa. No caso dos Açores, São Miguel é a ilha mais jovem – são 64 idosos para 100 jovens. Já nas Flores, a mais envelhecida, para dez jovens contam-se 15 idosos. “Todos os territórios estão a envelhecer – no entanto, os Açores continuam a ser a região menos envelhecida do país”, adianta a responsável pela Pordata. No caso da Madeira, São Vicente, no Norte da ilha, é o município mais envelhecido, com duas vezes mais idosos. Já Câmara de Lobos, é o mais jovem.

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Na Madeira e nos Açores, a percentagem de casamentos não católicos é ligeiramente superior à média nacional, um dado que Maria João Valente Rosa considera “surpreendente”, em particular porque eram muito poucos na década de 1960. “Hoje o cenário é totalmente oposto.”

Saúde

Também ao nível da saúde as diferenças no território são evidentes. Maria João Valente Rosa destaca um aspecto: “Os oito hospitais que existem nos Açores estão apenas em três ilhas: São Miguel, Terceira e Faial. No grupo ocidental, das Flores e do Corvo, não há nenhum.” Na Madeira, os nove hospitais estão no Funchal.

Por outro lado, há muito menos habitantes por médico (são menos metade do que em 2001). 

Turismo

Só o Algarve é que ultrapassa as ilhas no número de dormidas de turistas por habitante. A Madeira vem em segundo lugar, tendo recebido, em 2016, 3102 turistas por cada 100 habitantes. 

Nos Açores, dormiram no arquipélago 659 pessoas por cada 100 residentes, sendo São Miguel e o Faial as ilhas com mais dormidas.Nos últimos anos, o número de estabelecimentos hoteleiros quadruplicou na Madeira  e duplicou nos Açores.

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