Até quando vão as ilhas ser um exemplo de juventude?

Açores e Madeira já não são as “ilhas fecundas” que foram todo o século XX, mas continuam ter os concelhos mais jovens do país. No Dia Mundial da Juventude, olhamos para arquipélagos. E procuramos explicações.

Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

Na Ribeira Grande, por cada cem pessoas em idade activa (entre os 15 e 64 anos), quase um quarto tem menos de 25 anos. E este continua a ser o concelho do país onde nascem mais bebés por mil habitantes. É um dos poucos exemplos que restam das “ilhas fecundas” que os Açores e Madeira foram no século XX.

Apesar de a maioria dos concelhos seguir uma direcção inversa à Ribeira Grande, vendo diminuir o número de nascimentos a cada ano, os arquipélagos ainda se mantêm no pódio, com os concelhos mais jovens do país: oito dos dez municípios com maior peso da população activa jovem ficam aqui. São eles Ribeira Grande (Açores), Câmara de Lobos (Madeira), Vila Franca do Campo (Açores), Lagoa (Açores), Ponta do Sol (Madeira), Vila do Porto (Açores), Povoação (Açores), Ribeira Brava (Madeira).

Os dados fazem parte do Retrato dos Jovens divulgado pela Pordata em Maio, com base em estatísticas de 2015. No Dia Mundial da Juventude, que hoje se assinala, fomos procurar explicações para o que se passa nas ilhas, num país que, em geral, caminha para o envelhecimento: o número de jovens dos 15 aos 24 anos cai há duas décadas, consequência da diminuição da natalidade principiada nos anos 1970. E para encontrar explicações é preciso olhar para o momento em que estes jovens dos Açores e da Madeira nasceram: entre 1993 e 2002.

A demógrafa Gilberta Rocha, coordenadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores, começa por sublinhar a natalidade “bastante elevada” no arquipélago, que se manteve durante o século XX, e até aos últimos anos, acima da média nacional. “Os arquipélagos sempre foram as ilhas fecundas do país, tendo por isso os concelhos mais jovens. Até aos anos 80 eram relativamente semelhantes ao Norte”, no continente.

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Na década de 1980, foi nos Açores que nasceram mais bebés por cada mil habitantes (20,4), muito acima da média nacional (15,5). A Madeira vinha logo a seguir, empatada com a região norte, com um rácio de 17,5 bebés por cada mil residentes. Em meados dos anos 1990, o número recuou em ambas as regiões autónomas, mantendo-se ainda assim acima da média.

“Modernidade tardia”

Enquanto o resto do país via reduzir vertiginosamente o número de filhos por casal e aumentar a idade em que as mulheres eram mães, os Açores mantinham-se “uma ilha de fecundidade”, caracteriza Maria Filomena Mendes, socióloga e presidente da Associação Portuguesa de Demografia. A diferença chegou a ser de dois anos: no resto do país, em 1992, era-se mãe em média aos 25 anos; no arquipélago, a média ficava nos 23,3 anos. Eram pais mais jovens com tendência para terem mais filhos. Em 2013 ainda havia uma diferença de três anos a separar os açorianos da média nacional na hora de se casarem.

Gilberta Rocha fala de “uma modernidade tardia” nas ilhas. “Quase até aos últimos anos do século XX, [os Açores] tiveram uma diferença temporal dos fenómenos sociais, designadamente na natalidade, de quase dez anos.”

Até 1994, as gerações renovavam-se. As açorianas em idade fértil tinham, em média, mais de 2,1 filhos — o mínimo necessário para garantir que a geração que nasce substitui a que morre, o que já não acontecia a nível nacional desde o final dos anos 1980, quando a média descera abruptamente para 1,62 filhos. “Só mesmo no período da crise é que nos aproximámos muito” da realidade continental, diz Gilberta Rocha. De facto, o número médio de filhos por mulher em idade fértil está abaixo da média nacional desde 2008 na Madeira e desde 2015 nos Açores. Uma queda tardia e muito rápida — a Madeira recuou 39,5% no índice de fecundidade entre 2001 e 2013, nota Maria Filomena Mendes.

Pesca e pobreza

Sociólogos como José António Cardoso, professor da Universidade da Madeira, estabelecem uma relação entre pobreza, défices na área da educação e da saúde e “famílias onde o controlo da natalidade é baixo”. O número de filhos também “tinha no passado uma importância social grande”, acrescenta Maria Filomena Mendes. Uma importância “tendencialmente associada à actividade piscatória”, diz Gilberta Rocha. Daí a lista ser encabeçada pelo concelho da Ribeira Grande e logo a seguir vir Lagoa, na ilha açoriana de São Miguel.

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Já a diminuição recente da natalidade foi antecedida pela queda particularmente acentuada das taxas de pobreza nas regiões autónomas, como nota a publicação Portugal, Um País Desigual, da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O desenvolvimento do turismo nos anos recentes na Madeira deu um impulso ao emprego — ainda assim, a taxa de desemprego na região era no ano passado a mais alta do país, 12,9% (quando a média nacional era de 11,1%). Pior ainda para os jovens: 37,4%.

O desafio do emprego

Maria Filomena Mendes alerta para o risco de saída dos jovens trabalhadores destes territórios mais isolados, se estes não souberem diversificar e adequar os postos de trabalho. “Porque [os jovens] estudaram, qualificaram-se e procuram emprego e remuneração de acordo com as suas expectativas. Se não o encontram, saem.” Um problema que parece estar a recuperar, nota a socióloga, depois dos anos “absurdos” de 2012 a 2014 em que metade dos jovens madeirenses até aos 25 anos estava desempregada.

O desfasamento entre as qualificações dos jovens e as necessidades do mercado é um problema reconhecido pela Associação de Jovens Empresários Madeirenses. Nuno Agostinho, o seu presidente, acredita na necessidade de as faculdades terem uma relação mais directa com o mercado regional e as empresas.

Num arquipélago em que, diz, o “governo é visto como o maior criador de emprego”, espera uma mudança de paradigma para reduzir os números dos que não têm trabalho: “Os jovens devem identificar as necessidades do mercado, ser empreendedores e assumir riscos.” Espera das empresas “atenção aos talentos e apoio à criatividade”.

Já Maria Filomena Mendes apoia a intervenção política. A necessidade de criar empregos estáveis e fomentar o “rendimento seguro” deve nortear as políticas públicas destes territórios, diz. Pede menos medidas a prazo, de forma “transmitir segurança no futuro”. “É isso que estes jovens precisam.”

A história das ilhas jovens pode acabar em breve. Os Açores e, principalmente, a Madeira tiveram uma redução “muito brusca da natalidade no período da crise económica e financeira dos últimos anos, por isso, daqui a algum tempo, vamos ver na pirâmide de idades que nos falta lá população jovem”, traça Maria Filomena Mendes.

A ilha do Corvo (460 habitantes) é um caso ilustrativo dessa rapidez. Em 2012, tinha um índice de fecundidade muito superior à média nacional. Nesse ano era o local do país onde, em média, uma mulher tinha mais filhos: 2,77, quando a média nacional era de 1,28. Quatro anos depois, registou-se um índice de fecundidade de zero, segundo dados da Pordata.

42% dos jovens em 5,5% do país

Se os concelhos mais jovens, em termos de peso da população entre os 15 e os 24 anos na população activa, ficam essencialmente nas ilhas, em termos absolutos é no continente que há mais gente nova.

Os dados de 2015 apontam para uma concentração de jovens nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, como nota Maria João Rosa, demógrafa e directora da Pordata. Nestas áreas (que são apenas 5,5% da superfície do país), concentram-se 42% dos jovens entre os 15 e os 24 anos que existem no país.

E, no entanto, em termos relativos, estes concelhos podem ser dos mais envelhecidos do país. De facto, Lisboa é o terceiro município onde os jovens pesam menos no conjunto da população activa, lembra a demógrafa. Em cada 100 pessoas em idade activa, 13 são jovens. E são mais os jovens "mais velhos" em comparação com mais novos, o que retrata, diz, um país a envelhecer pela base.