Costa “capitalizou” com a geringonça e a esquerda não gostou

Marisa Matias, do BE, criticou um “discurso muito auto-centrado” e Carlos Gonçalves, do PCP, sublinhou que "os avanços e conquistas não se devem tanto ao PS, mas muito mais à luta dos trabalhadores".

Foto
Rui Gaudêncio

Foi um pré-aviso do que pode ser o tempo que falta até às eleições. No discurso de encerramento do congresso socialista, António Costa desfilou medidas e sucessos como se fossem resultado exclusivo da política do partido sem referências ou elogios ao PCP, PEV e BE. E os partidos de esquerda acusaram o toque.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Foi um pré-aviso do que pode ser o tempo que falta até às eleições. No discurso de encerramento do congresso socialista, António Costa desfilou medidas e sucessos como se fossem resultado exclusivo da política do partido sem referências ou elogios ao PCP, PEV e BE. E os partidos de esquerda acusaram o toque.

Quem verbalizou o desagrado com a atitude do primeiro-ministro pela “capitalização” do sucesso do Governo foi Marisa Matias, a eurodeputada representante do BE no conclave socialista: “É verdade que muitas daquelas que foram conquistas recentes na sociedade portuguesa e que resultaram dos acordos com os partidos à esquerda foram capitalizadas pelo PS como se fossem medidas do PS", disse em conversa com os jornalistas.

Entre as medidas de que Costa se “apropriou” como suas e que o BE não gostou está, por exemplo, o aumento das pensões ou de outras que “não estavam integradas no programa eleitoral inicial do PS”. De forma subtil, a bloquista foi deixando ver ao PS que o parceiro gostava de ter visto “coisas mais concretas” em vez de um “discurso muito autocentrado”.

O PCP usaria palavras mais duras, criticando os socialistas por continuarem “amarrados” às restrições impostas pela União Europeia, e mostrando que a apropriação do sucesso por Costa não passou despercebida aos representantes da Soeiro Pereira Gomes. Os “avanços e conquistas não se devem tanto ao PS, mas muito mais à luta dos trabalhadores e do povo e, seguramente, à intervenção e à proposta do PCP”, disse Carlos Gonçalves do comité central do partido.

Na visão dos comunistas, o lado positivo do que aconteceu deve-se ao facto de o PS não ter tido maioria absoluta. E questiona: “O PS, com maioria absoluta, estará disponível, de facto e não na propaganda, para discutir com o PCP coisas sérias”?

Estas palavras do comunista Carlos Gonçalves foram tiradas a papel químico do que no dia anterior Jerónimo de Sousa havia dito em Montemor-o-Novo, onde acusou Costa de ter cumprido a “quadratura do círculo” à custa dos trabalhadores. O secretário-geral do PCP reconheceu que muitas das medidas aprovadas “foram arrancadas a muito custo” e “não existiriam se não fosse o PCP”. “Fosse outro o resultado das eleições e fosse possível a formação de um governo maioritário do PS, fosse outra a correlação de forças na Assembleia da República, e muitos dos avanços não veriam a luz do dia”, disse no sábado.

Os Verdes foram mais comedidos na reacção ao congresso socialista. José Luís Ferreira considerou o discurso como “interessante”, mas espera agora que “haja uma perfeita sintonia entre as posições que o PS assume na Assembleia da República e aquilo que foi aqui dito”.

Os dois partidos dizem estar “disponíveis” para conversar com o PS, sem grandes definições à partida que não seja a clarificação de como vai o executivo compatibilizar a necessidade de mais investimento com as regras da União Europeia. O PCP pede que seja para falar de “coisas sérias” e não “secundárias”, porque isso seria dar o sinal de que os socialistas continuam a querer manter o caminho. Apesar de o PCP ter notado que em assuntos estruturais o Governo tem optado por falar com o PSD.

As eleições legislativas estão a ano e meio de distância e, na última reunião magna do PS até lá, Costa preferiu ficar no meio termo entre esquerda e direita, sem puxar pela “coligação” de governo que tem tantas vezes elogiado. A mensagem foi recebida, resta saber o que será devolvido na volta do correio até outubro de 2019.

A direita na Disneylândia

À direita houve sintonia em criticar a “fantasia” do discurso de Costa, mas divergência na forma de o tratar. O CDS foi mais agressivo, o PSD mais contido. Nuno Morais Sarmento começou por mostrar respeito pelos socialistas, para depois dizer que Costa reafirmou a sua viragem à esquerda “um caminho que Mário Soares sempre recusou". Para o social-democrata, o bloco central não faz sentido, mas é desejável que haja acordos. “Ouvimos falar mais sobre o futuro do PS do que de Portugal", disse o social-democrata que notou que o discurso final de António Costa foi "diferente" do tom do congresso, contudo, nessa tentativa falou "de um outro país".

Já o CDS falou sempre de dedo em riste e num tom áspero. Nuno Melo comparou o discurso de “fantasia” que mostra que “o PS não aprendeu com os erros” com a ideia de que se sentiu “num pavilhão da Disney".