Opinião

Nem tudo o que luz é ouro

Rio começou mal, errou ao escolher Malheiro, Fraga ou em não haver já afastado o secretário-geral? Discordo. Tudo isso vale zero, face à forma como Rio exerce o poder e face à forma como os portugueses olham e apreciam estes factos.

O povo português é ferreamente conservador. O salazarismo não caiu pela sua insuportável ferocidade, pelo contrário, manteve-se uma cinquentena de anos porque foi tolerado pelo tal deixa andar. Portugal não foi o último império a descolonizar por ser uma grande potência económica ou militar, foi-o porque o conservadorismo que suportou o regime defendeu as colónias.

Em democracia tem-se passado mesmo. A maioria dos países do Sul — França, Espanha, Itália — redefiniram radicalmente o seu espectro político partidário nas últimas três décadas e em Portugal a lógica partidária fundacional mantém-se de pedra e cal. No poder local, não fora a discutível lei de delimitação de mandatos, um presidente eleito que não fosse completamente destituído seria inamovível até à morte. Os rostos do sindicalismo e mesmo de muitas associações empresariais são os mesmos desde o desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer-Quibir. Um Presidente da República é sempre reeleito. E já vão quatro.

E em legislativas a alternância não é tão real como isso. Mário Soares foi “despedido” por Eanes, Santana por Sampaio, Sócrates — “malgré tout”  só caiu após ser afastado e diminuído por Cavaco, Passos - mesmo com a canga da troika — só caiu face à inexpectável "geringonça" e Cavaco e Guterres saíram pelo seu pé!!! Tenho dúvidas de que tivessem sido substituídos da mesma forma se fossem até ao momento de escolha popular. Surpresa!? Talvez, para quem ande distraído e só veja a poeira mediática que tudo tolda.

Ou seja, a força da opinião pública organizada, da opinião publicada e mesmo dos media todos a remarem preferencialmente para um lado vale pouco como mecanismo decisório neste país de brandos costumes e extremo conservadorismo ancestral. 

Isto a propósito de Rio e da sua liderança do PSD. 

Começou mal, delapidou o estado de graça, errou clamorosamente ao escolher Malheiro, Fraga ou em não haver já afastado o secretário-geral? Discordo. 

Tudo isso vale zero, face à forma como Rio exerce o poder e face à forma com os portugueses olham e apreciam estes factos.

Foi assim no Porto, 12 anos. Rio ostracizou o maior clube da cidade, guerreou contra as magistraturas judiciais, condenou às galés os agentes culturais da região, excomungou organismos públicos como o IPPAR. Chicoteou o poderoso JN e tudo o que fosse jornal ou jornalista. O que aconteceu? Manteve e reforçou maiorias absolutas e escolheu, com êxito, o seu sucessor contra o seu próprio partido. 

De seguida cortou com ele — Rui Moreira, cujo colorido sempre detestou — e foi combater Passos contra a maioria da base partidária. Revoltou militantes mais gratos e afectuosos, mas, face ao primeiro percalço, derrota nas autárquicas, cravou “politicamente” os dentes nas ilhargas do combalido líder do tempo das vacas magras e só largou quando este caiu sem capacidade para continuar a resistir. Resultado? Rio é líder, tendo até vencido por margem confortável o icónico Santana Lopes.

Rio e o seu patrono da Marmeleira deve ser o dueto que mais achincalhou a comunicação social em democracia. Todavia, Rio continua a ter sucesso político e a “loira” continua a viver, e bem, à custa da intervenção permanente nos palcos cujos principais fautores tanto abandalha!

Outra característica dos portugueses, também ela arcaica e conservadora. Quanto mais me bates, mais gosto de ti! Até por isso somos tristes campeões da violência doméstica. A maioria, até por isso, consentida e silenciada.

Ainda este fim-de-semana as capas e notícias de abertura relevam sondagens em que, “fantástica performance”, o PSD de Rio já teria subido 1,5 pontos percentuais. Esta projecção dada a um facto irrelevante, a um valor estatisticamente sem significado, demonstra a atitude ambivalente, de ódio/amor, que une os media a Rio. Ou não fossem os media liderados por portugueses genuínos. Com o aproximar de eleições, esta ligeira subida gradual aconteceria até com o emplastro na liderança social-democrata. Contudo, nesta sondagem, o PS tem quase 50% e a esquerda perto de 65!

O povo português ama o estilo Rio. Ao não dar o braço a torcer perante asneiras evidentes e ao ser capaz de co-habitar com o conflito permanente, faz dois em um. Por um lado, mimetiza e reforça a infalibilidade tipo “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, por outro lado, “dá” uma de super-herói. Sozinho, sempre em pé, contra o mundo.

Estou convencido de que, seguindo sem vacilar este trilho, Rio chegará a 2019. Dificilmente poderá vencer, mas é seguro que será o segundo mais votado, muito longe da concorrência. Como sagazmente não corre o risco de, em ligação ao CDS, vencer em termos relativos, abre o caminho para o que sempre perspectivou: “vice” de um poderoso governo à alemã.

Em 2019, um Portugal europeu já não suportará “geringonças”. Costa e Rio sabem-no. O final da história é inevitável. A garantia passa tão-somente pela resistência e coerência coriáceas de Rio. 

Por isso que “se lixem” as Fragas e os Felicianos. São conflitos menores, facturas baratas, que só alimentam o mito.