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Açores: homens que sacrificam “o corpo pela fé”

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Todos os anos, durante oito dias, cerca de 2500 homens — e apenas homens — marcham lentamente em redor da ilha de S. Miguel, nos Açores. Do seu lado esquerdo, sempre o oceano; do lado direito, os vulcões que cuspiram a terra que hoje pisam. "É um caminho feito lentamente, ao som de orações, num mantra envolvente e pacificador", descreve o fotógrafo João Ferreira ao P3, em entrevista. A marcha, que decorre na ilha desde o século XVI, é moeda num pacto que se estabelece entre homens e Deus: em troca da sua homenagem, solene e submissa, os micaelenses pedincham à deidade "o acalmar dos terramotos, o apaziguar das tormentas". São oito dias de "comunhão com a força da natureza", em que se sacrifica "o corpo pela fé".

 

Foi em 2016 que João Ferreira começou a desenvolver o projecto O Paraíso Segundo José Maria, que enfoca na tradição das Romarias Quaresmais de São Miguel. O título, inspirado na obra de João Tordo O Paraíso Segundo Lars D, remete para "homens que se revelam no silêncio". "Um silêncio apenas interrompido pelas orações que são proferidas durante as longas caminhadas diárias, de 30 a 40 quilómetros, que os grupos de romeiros levam a cabo em torno da ilha." No primeiro ano, João acompanhou vários grupos, mas em 2017 decidiu focar-se principalmente nos romeiros da freguesia de Rabo de Peixe, "o maior grupo, com cerca de 150 homens, em romaria em São Miguel".

 

"Os ranchos partem de madrugada, organizados em duas alas", descreve. "O intuito é percorrer o maior número de igrejas, capelas e ermidas, onde haja imagens da Virgem Maria, a rezar o terço." As mulheres não participam, mas "a presença do feminino torna-se visível na indumentária dos romeiros, que inclui o xaile, o lenço nas costas, o bordão e a cevadeira". Os romeiros recolhem sempre ao final da tarde, na localidade mais próxima. "Os locais abrem as portas de suas casas para os homens pernoitarem. Os hóspedes entregam um terço aos anfitriões, como forma de agradecimento pela ajuda prestada." A adesão dos jovens não é massiva. "Alguns romeiros têm apenas oito ou dez anos quando começam a participar nestas romarias. Normalmente é o elemento mais novo que leva um pequeno crucifixo a encabeçar o rancho."

 

Depois de dois projectos fotográficos desenvolvidos no estrangeiro — 1.3 Billion, na China, e Arquipélago, em Cabo Verde, ambos publicados no P3 — João procurou um tema que pudesse desenvolver em território nacional. "Pareceu-me um desafio interessante o de preparar um documento visual e criar uma narrativa que falasse desse silêncio, desse recolhimento, dessas preces." Entre os dias 20 de Março e 2 de Abril, João Ferreira estará, por isso, novamente na ilha a acompanhar o rancho de Rabo de Peixe. As fotografias que já integram este projecto encontram-se em exposição na galeria da Livraria Arquivo, em Leiria, de onde é natural o fotógrafo — a exposição poderá ser visitada até ao dia 1 de Abril. O trabalho final será apresentado a 20 de Setembro, n’A Pequena Galeria, em Lisboa, e em Janeiro de 2019, no Mira Fórum, no Porto.

 

O trabalho de João Ferreira tem estado sob o olhar atento da comunidade fotográfica mundial. Em 2016, o ensaio Arquipélago foi distinguido em concursos promovidos pela agência Magnum e pela Canon e também seleccionado para a leitura de portefólios no Visa Pour l’Image, em Perpignan, França. Foi finalista do Prémio Revelação dos Encontros da Imagem, Braga, e recebeu uma menção honrosa no Tokyo International Photo Awards, Japão. Em 2017 venceu o Prémio Internacional Fotojornalismo Estação Imagem, na categoria Vida Quotidiana.