Cinema

O vinho comanda as vidas deles

Setembro a Vida Inteira, o primeiro documentário de Ana Sofia Fonseca, parte das histórias do vinho para falar da vida, das relações entre as pessoas, do que as une e do que as separa. É, diz a autora, “uma reflexão sobre a natureza humana”.
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Dos tempos em que andava pelo Douro à procura de histórias para o seu livro Barca Velha, Histórias de um vinho, a jornalista Ana Sofia Fonseca guardou, entre muitas memórias uma imagem: Maria Luísa Olazabal (Zinha), a mulher de Francisco Olazabal (Vito), a andar pelo sótão na Quinta do Vale Meão, “com umas entradas de luz muito bonitas” e a lamentar o estado em que estavam relíquias como os vestidos das netas da Dona Antónia, a Ferreirinha (de quem Vito é trineto), e até a retrete que ela levava quando andava a viajar pelo Douro. “Fiquei encantada com aquela imagem e pensei: isto dava um filme, as pessoas não conhecem estas histórias.”

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Lançou-se no projecto em 2015, fê-lo com calma, porque, entre outras razões, é preciso tempo para ganhar a confiança das pessoas que escolheu como protagonistas e conseguir que elas comecem a esquecer a presença da câmara — e agora aí está o filme Setembro a Vida Inteira (Carrossel Produções), pronto, e em exibição em três salas, nos cinemas City em Lisboa, Setúbal e Leiria (sessões das 19h30), depois de ter tido a estreia no International Wine Film Festival, nos Estados Unidos, e de ter recebido o Grande Prémio do Júri no Most — International Wine & Cava Film Festival, em Espanha.

Não foi fácil seleccionar estes nove protagonistas — Dirk Niepoort, “os Guedes da Sogrape”, “os Soares da Malhadinha”, “os Olazabal do Meão”, Luís Pato, os monges da Cartuxa, Leonor Freitas, Ricardo Diogo Freitas, e a “Brigada da Vinha”, os presos que trabalham nas vinhas no estabelecimento prisional de Pinheiro da Cruz, em Grândola.

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Num país como Portugal, que “parece que respira vinho”, o que não falta são vidas como estas, “comandadas pelo vinho”. Por isso, as histórias escolhidas cruzam geografias e classes sociais, vêm de mundos muitos diferentes, e que, em alguns casos, talvez nem se conheçam entre si.

“Andei meses com uma folha no bolso”, conta Ana Sofia, que é autora de vários outros livros, entre os quais um outro sobre vinho, Cada Garrafa Conta Uma História. “Comecei com uns 30 nomes e fui reduzindo. Um filme não pode ser uma lista.” O resultado, diz, mostra uma diversidade que espelha também a diversidade do vinho em Portugal, com as suas muitas regiões, diferentes terroirs e inúmeras castas. 

Apesar de ter escrito o livro sobre o Barca Velha, Ana Sofia nunca tinha assistido, como aconteceu durante o filme, a uma reunião de lançamento do Barca Velha (neste caso o de 2008) — uma decisão de grande peso, dado que o mítico vinho só é engarrafado em anos especiais.

A essa cena, em que a conversa entre o presidente da Sogrape, Fernando Guedes, o enólogo Luís Sottomayor e Joana Pais, relações públicas da empresa, revela a importância do momento, segue-se outra, em casa de Antonio Oliveira, antigo tanoeiro, que diz que já bebeu Barca Velha mas confessa “não é um vinho que [eu] adore”.

À mesa de jantar, com a mulher, António comenta: “Eles, este ano, parece que vão fazer um novo Barca Velha”. Ao que ela responde: “Qual é o Barca Velha? Não é o Estevas.” Não, explica o marido, “é um vinho diferente dos outros, especial, que nós fazíamos lá e que é vendido muito caro.”

A sequência das cenas — em ambas bebe-se vinho, sendo que, na primeira, se prova o novo Barca Velha — deixa-nos a pensar naquilo a que atribuímos valor e no porquê de o fazermos com este vinho em particular, esta garrafa ou outra qualquer. “O valor das coisas depende de tantos factores”, concorda a realizadora.

O filme, diz Ana Sofia, tem essas várias camadas de leitura. É um conjunto de histórias ligadas ao vinho mas é mais do que isso. “Não o fiz a pensar no sector”, sublinha. “Sinto que é também uma reflexão sobre a natureza humana, as relações entre as pessoas, a vida em si.” O vinho está sempre presente, seja na memória de António, que, por causa das vindimas, ficou longe da mulher quando ela estava no final da gravidez, seja, hoje, na forma como a mulher de Luís Pato lamenta que ele nunca pare em casa, por causa do vinho, claro.

O vinho pode separar, mas não restam dúvidas de que, acima de tudo, sabe juntar — veja-se a senhora que, numa pausa do trabalho nas vinhas, conta a Francisco Olazabal que foi nas vindimas que conheceu o marido; ou, noutra cena, como um casal de franceses acaba a jantar à mesa de Dirk Niepoort e a tentar “comprar os vinhos que estamos a beber há dez horas”, como dizem, entre gargalhadas. Ou como junta até as crianças da Malhadinha, chamadas a desenhar os rótulos dos vinhos da casa.

Nas vinhas é onde “tudo se sabe”, como diz a senhora da mercearia a Maria Luísa Olazabal. “Esfolam-se os gatos, desenterram-se os mortos, enterram-se os vivos. É uma pouca-vergonha.” Mas para os presos de Pinheiro da Cruz, elas podem ser o que mais se assemelha à liberdade — “aqui uma pessoa não pensa que está preso”, diz um deles. E para os frades que vivem em clausura no Convento da Capucha, no Alentejo, o vinho de que são os guardiões ensina-os como, no silêncio e na paz, se envelhece com sabedoria.

Para todos, pobres ou ricos, patrões ou empregados, do Norte ou do Sul, novos ou velhos, o vinho, quer o vejam como uma obra de arte ou uma forma de subsistência, é a razão de tudo — afinal, por causa dele é Setembro a vida inteira.