Barulhos do mundo

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Acordei com o telefone a tocar. Uns 170 elementos da Guarda Nacional Republicana acompanhavam os agentes judiciais que estavam a executar a ordem de despejo das 27 famílias ciganas residentes na Avenida de Francelos, em Vila Nova de Gaia. Tinha de ir depressa. O Manuel Roberto já estava a caminho.

Nunca tinha visto nada assim. Não era só a miséria. Era também o grau de desenrasque. As famílias já não estavam nas barracas forradas a plástico. Tinham tirado os seus haveres do lado direito da avenida e tinham-nos pousado no lado esquerdo da avenida. E cada um parecia seguir com a sua vida.

Logo de manhã, algumas mulheres trataram de lavar roupa. Ataram cordas aos troncos das árvores e estenderam saias, calças, camisas e camisolas. Acenderam os fogões. Fizeram o almoço. Serviram os homens e as crianças e serviram-se.

Camas montadas, um idoso esticado sobre uma delas. Uma menina pegou numa vassoura e pôs-se a varrer o chão de terra batida. Um menino pegou num microfone e começou a cantar. E logo outras crianças se puseram a dançar. Imparáveis, aquelas 59 crianças. Corridas, cantorias, zaragatas, gargalhadas, banhos de mangueira. Ainda nu, um dos rapazes montou uma bicicleta. E logo outro o imitou. E deram umas voltas, indiferentes aos militares, aos seus cães e aos seus cavalos.

Naquela espera, a alegria (e a inocência) das crianças misturava-se com a raiva (e o receio) dos adultos. “Queremos casa! Queremos casa!”, gritavam algumas mulheres mal alguma câmara de televisão era apontada na sua direcção. Tinham-se batido pelo direito de usucapião. Após anos de luta, o tribunal judicial dera razão ao proprietário. Estava na hora de sair. Mas para onde?

A câmara procurava, à pressa, uma solução. A vizinhança parecia embrulhada num silêncio aliviado. Anos antes, as histórias sobre tráfico de droga e milícias populares tinham chegado aos jornais.

Já lá vão 17 anos. O Manuel Roberto já tinha uns anos disto, mas eu ainda estava no início. Nem sabia muito bem como é que haveria de arrumar tudo aquilo na minha cabeça.

Andei anos a pedir ao Manuel Roberto que me oferecesse a fotografia da menina de peito nu, saia de ganga, deitada ao lado de uma boneca quase do seu tamanho. Às vezes, fico a olhar para ela, tão sorridente, tão alheia ao barrulho do mundo.

Não sei o que é feito daquela criança, que hoje já será uma mulher. O jornalismo é muitas vezes apenas o registo de um instante. Vou acompanhando, com a intermitência que o dia-a-dia num jornal generalista permite, a situação das comunidades ciganas. Continua crítica.