Espanha e Portugal juntam-se em defesa dos amieiros

A preservação dos amieiros da Área Protegida de Bertiandos e S. Pedro de Arcos é o principal foco do projecto com entidades portuguesas e espanholas, financiado pelo programa LIFE, da União Europeia, apresentado em Ponte de Lima nesta sexta-feira. Estas árvores fixam o azoto e enriquecem os solos, compondo o habitat de outras espécies autóctones.

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bruno simões castanheira

Zona húmida de importância internacional desde 2005, a Área Protegida das Lagoas de Bertiandos e S. Pedro d’Arcos é uma teia de vegetação e água na confluência dos rio Lima e do seu afluente Estorãos, que entrelaça prados húmidos, lagoas, charnecas e os bosques nas suas margens, albergando mais de 500 espécies de flora e 200 de fauna nos seus 346 hectares, segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.

Os amieiros, predominantes nas margens dos cursos de água, são o principal alvo do próximo passo na protecção desse cenário, garantido pelo Life Fluvial, projecto de três milhões de euros financiado em 75% pelo programa Life  da União Europeia (UE) para a conservação da natureza e que será apresentado nesta sexta-feira no Centro de Interpretação Ambiental da Área Protegida, Dia Internacional das Zonas Húmidas.

“Os amiais são extremamente importantes como habitat para espécies de fauna e flora, como amortecedores do efeito das cheias, e como enriquecedores dos solos, pois os amieiros são espécies fixadoras do azoto atmosférico”, esclarece ao PÚBLICO Patricia Rodríguez González, professora do Instituto Superior de Agronomia (ISA), da Universidade de Lisboa, instituição envolvida no projecto – há mais sete entidades, tanto portuguesas, como espanholas, sendo liderado pela Universidade de Oviedo.

Uma das espécies de vegetação ripícola que se destaca na zona, a par da borrazeira-preta e do sanguinho, o amieiro, observou ainda a especialista, é o principal foco do Life Fluvial pelas fragilidades sentidas face à necessidade permanente de água nos solos para a “manutenção do seu funcionamento ecológico”, às alterações climáticas, ao uso dos solos e à exploração dos recursos hídricos), e ainda à invasão de espécies exóticas – eucaliptos ou mimosas e outras acácias.

Perante tais ameaças, o projecto específico para a zona protegida a cargo da Câmara Municipal de Ponte de Lima – o Life Fluvial actua em quatro áreas espanholas, também pertencentes à Natura 2000, rede de protecção ecológica da UE - visa “recuperar a composição natural de espécies dos amiais, promovendo as espécies autóctones e eliminando as espécies exóticas”, “favorecer as condições que permitem a regeneração natural deste ecossistema” e “limitar as condições de propagação de doenças no amieiro”, enunciou Patricia Rodríguez González.

Antes da intervenção da professora do ISA, Jorge Marquínez, professor da Universidade de Oviedo, inicia a apresentação do Life Fluvial, pelas 10h00. Na memória descritiva do projecto cedida pelo docente ao PÚBLICO, destaca-se que o amieiro e a borrazeira-preta são “espécies de conservação prioritária”, enquanto habitats, abrigos e zonas de alimentação de uma “grande diversidade de espécies de fauna e flora silvestres”, num território ainda com “espécies piscícolas migratórias com diversas categorias de ameaça”, como o salmão, a lampreia-marinha, o sável, a enguia e a toupeira-de-água.

Classificação gerou valor ambiental e económico

O Life Fluvial vai garantir “intervenções ao nível das galerias ripícolas das margens” e um “nível de conhecimento sobre a doença que está a afectar os amiais” que não seria possível com o trabalho até agora desenvolvido pela Câmara Municipal de Ponte de Lima, admite ao PÚBLICO Gonçalo Rodrigues, responsável técnico da autarquia pela paisagem protegida.

Apoiante do projecto, o município iniciou o Projecto de Valorização da Zona Húmida de Bertiandos e de S. Pedro d’Arcos, logo após a criação da área protegida em dezembro de 2000, para salvaguardar a biodiversidade e a paisagem, o único “recurso endógeno” que lá existia.

Cinco anos depois, a área tornou-se na primeira Zona Húmida do Norte de Portugal a ser reconhecida à luz da Convenção de Ramsar (Irão) – há mais 16 sítios Ramsar no país -, protocolo estabelecido, em 1971, para a preservação das zonas húmidas por 130 países – hoje, integra 169. Esse estatuto, assinala Gonçalo Rodrigues, deve-se ao facto do “tipo de habitats que se está a preservar ser raro na região biogeográfica” onde se situa Ponte de Lima.

Aquela zona serviu ainda de âncora à dinamização económica em redor, com a implementação do parque de campismo, das casas de campo para alojamento, das quintas pedagógicas e de um parque para bicicletas, que atraíram “gente ao território” e geraram 40 empregos directos e 30 indirectos ou sazonais, diz o responsável. Para o final do ano, está prevista a abertura de um hotel direccionado para a natureza, fruto de um investimento privado de cinco milhões de euros, apoiado pelo Norte 2020.