This Is Us: os homens que conhecemos são assim

Visitámos a rodagem da série de sucesso e falámos com Sterling K. Brown, um dos mais magnéticos actores a trabalhar em televisão. Sobre as mudanças culturais ligadas à masculinidade, mas também sobre racismo e a forma como esta comédia dramática trata estes temas.

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Sterling K. Brown é Randall Pearson, um homem negro que, em bebé, foi adoptado como o terceiro gémeo de pais brancos após um dos irmãos ter morrido no parto
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Actores da série This is Us

Quando entramos nos estúdios da Paramount, em Hollywood, recebemos um papel com um falso bilhete de cinema com o nosso nome e a password da rede wireless – é parte do nome de uma das sequelas de Shrek, se quiser saber. A folha, que os seguranças pedem para devolver no fim, tem também um mapa, que no final de Outubro tinha marcado o estúdio 31, onde se rodaram filmes como Forrest Gump, remake de 1976 de King Kong ou séries como Uma Casa na Pradaria e o Star Trek original. É desta última série que vem o nome da rua: a via Leonard Nimoy, em homenagem ao defunto actor que fazia de Mr. Spock.

Nos dias que correm, é dentro do estúdio 31, que está situado o piso térreo da casa de Randall e Beth Pearson, um dos casais principais de This Is Us, a série que passa às quintas-feiras, às 22h20, na FOX Life, e está agora na segunda temporada. À porta, abóboras e restos de decorações de Halloween, resquícios do sexto episódio da época. Lá dentro, o mesmo hall que se vê na televisão, uma sala de estar e jantar e uma cozinha cheia de fruta e comida falsa. Espalhadas pela casa há fotografias do casal e da família de Randall, um homem negro que, em bebé, foi adoptado como o terceiro gémeo de pais brancos após um dos irmãos ter morrido no parto.

É neste cenário que se desenrola uma boa parte da série de sucesso que é bem mais ambiciosa do que se esperaria de uma comédia dramática familiar. This Is Us é uma criação de Dan Fogelman, alguém dado a pôr na boca de personagens grandes discursos e gestos românticos e que, antes disto, escreveu filmes como Carros (ou Amor, Estúpido e Louco. Foi ele que disse em entrevistas aquando da estreia da série em 2016 que a tinha vendido como “um Perdidos em modo comédia dramática".

Não há muitas séries sobre famílias que queiram ser como Perdidos. This Is Us lida com os altos e baixos normais de uma família, sim, com os choros ou os risos das derrotas do costume, mas adiciona-lhe, além de piadas, mistérios e reviravoltas (sem nunca entrar no campo do sobrenatural, algo que poderia ser expectável, até tendo em conta a rua em que é filmada), e complica tudo ao lidar com várias linhas temporais ao mesmo tempo. Existe a família Pearson original, com o pai, Jack (Milo Ventimiglia), a mãe, Rebecca (a também cantora Mandy Moore), e os três filhos: o já mencionado Randall, bem como Kate e Kevin. Os irmãos são interpretados, entre os anos 1980, 1990 e 2000, por quatro conjuntos de actores diferentes: em bebés, em crianças, em adolescentes e, por fim, no presente, em adultos, com 37 anos.

Uma casa ao longo dos tempos

A casa de Jack e Rebecca, que é usada para linhas temporais diferentes, fica no estúdio 32, mesmo na porta ao lado do estúdio 31, onde na sala de jantar se podem ver, por cima da lareira, cassetes VHS de Atira a Mamã do Comboio, de 1987, e O Rei do Bowling, de 1996 – por perto há televisão dos anos 1980 ou 1990 com um videogravador em cima para os ler. É possível ver, através da janela para o quarto de Kate em adolescente, que na realidade é exterior à casa principal, um poster de Buffy – Caçadora de Vampiros (o filme, não a série).

This Is Us passa originalmente na NBC, o canal generalista norte-americano, onde gera uma quantidade de espectadores que parece do passado: o primeiro episódio desta temporada teve quase 13 milhões de pessoas a ver. Pode tornar-se um vício. Se duvidar, pergunte a qualquer pessoa que siga a série o desapontamento que sentiu quando, no início do mês, chegou às 22h20 e, inesperadamente, não foi para o ar o episódio dessa quinta-feira na FOX Life – em vez disso, foi exibido o filme Um Sonho de Mulher.

“As pessoas só querem saber dos mistérios se estiverem apaixonadas por estas personagens” diz Isaac Aptaker, que escreve e gere a série, juntamente com o criador Dan Fogelman. Existem reviravoltas na narrativa, sim, mas não são o objectivo de tudo. “Surgem organicamente", explica, sentado à mesa de jantar do Randall adulto, quando a equipa de argumentistas tenta contar histórias inspiradas nas suas próprias vidas ou das pessoas que lhes são próximas. Horas depois, no mesmo lugar, Sterling K. Brown, que faz de Randall em adulto, remata: “Nunca foi suposto ser sobre o mistério, mas sim sobre a viagem desta família e como tudo está interligado.”

O género forte e silencioso

À superfície, Jack parece personificar um tipo de masculinidade antiga. É alguém que tem Sylvester Stallone – que apareceu nesta época a fazer dele próprio – como actor favorito e pilosidade facial que varia consoante o período temporal em que estiver: ora tem barba completa, ora só bigode e pêra, só bigode sem pêra, ou a barba completamente feita. Às vezes é o próprio pêlo de Milo Ventimiglia às vezes são adereços – com moldes feitos, garante a cabeça do departamento de maquilhagem, Zoe Hay, a partir da barba verdadeira do actor – que enganam até quem lida com ele diariamente, seja Mandy Moore, que faz de mulher dele, ou membros da equipa que o vêem ao almoço. 

Mas não é propriamente o estereótipo de pai dos anos 1980, e nem é por ter músculos demasiado desenvolvidos para alguém dessa época, algo que a série se esforça por disfaçar. Filho de um pai abusivo, Jack é alguém que sempre tentou fazer tudo pelos filhos e não tem medo de chorar. “Vejo a masculinidade como protectora, gentil e acolhedora, mas também não ter medo de sujar as mãos. O Jack é isso tudo”, diz Milo. Mesmo assim, ainda é um homem do seu tempo, que, mesmo que seja dado aos grandes gestos românticos típicos de Fogelman, nem sempre apoia os sonhos e aspirações da mulher. “A forma como a igualdade é vista hoje não é necessariamente como era nos anos 1980 e nós jogamos com essas ideias”, adiciona o actor. 

Ninguém aqui é um monstro. Ken Olin, produtor executivo e realizador, diz na sala de jantar de Jack e Rebecca: “A série é sobre pessoas fundamentalmente saudáveis, afáveis, gentis, decentes e dadas à auto-reflexão”. Todas as personagens, diz Moore, “estão a tentar fazer o melhor que podem e sabem no coração e a aprender pelo caminho”. Mesmo quando erram. E há muitos erros. Mas, diz, Sterling K. Brown, a série "tenta sempre mostrar a luz ao fundo do túnel".

Brown é um dos mais magnéticos actores a trabalhar actualmente em televisão – e é reconhecido por isso: ganhou o Emmy pelo seu papel como Randall este ano, após no ano passado ter vencido pelo trabalho em American Crime Story.

Sobre a masculinidade e como é tratada por estes lados, o actor diz que, por causa de “uma mudança na cultura, há mais amplitude para diferentes expressões de masculinidade”, que vão além do “género forte e silencioso” popularizado por John Wayne ou Gary Cooper. Randall é mais “sensível” do que esse paradigma antigo: sofre de ataques de pânico por não ser capaz de lidar com o descontrolo, o improviso e a mudança de planos ­– algo muito evidente no já mencionado episódio de Dia das Bruxas.

São personagens humanas, com falhas. “Tentamos ter todas as cores da vida, e às vezes a vida pode ser muito sombria”, explica Isaac Aptaker. Mas sempre “um bocadinho romântica e optimista”, diz Olin. “O Dan Fogelman fala sempre de como a série que fazemos é uma comédia dramática e a comédia é muito importante. Nunca dificultamos o riso”, adiciona.

Uma família igual às outras

Randall e a mulher, Beth (Susan Kelechi Watson), são uma espécie de unicórnio na televisão dramática mainstream americana (mesmo que haja ênfase na parte da comédia, This Is Us é maioritariamente um drama): um casal negro de classe média alta com uma relação estável e apaixonada. A revista TVGuide, num artigo do mês passado, chamou-lhes “um golpe sem precedentes na televisão" e o tipo de personagens que não se vêem fora de comédias ou de dramas para um público de nicho, em canais de cabo orientados para o público afro-americano. Brown, o actor que faz de Randall, confessa que chorou um pouco ao ler esse artigo. O carácter quase revolucionário da normalização de uma família assim, diz o actor, "ajuda as pessoas a reconhecerem esta família como pessoas como todas as outras. A nossa humanidade tem-nos sido negada demasiadas vezes. Quando se nega a humanidade de alguém é mais fácil exterminar ou descartá-lo”, explica.

Ron Cephas Jones, que faz de William, o entretanto falecido pai biológico de Randall que continua a aparecer em flashbacks, menciona que quando cresceu, “nos anos 1960 e 70", nunca se veria uma personagem assim na televisão: “Ele é bissexual, músico de jazz, intelectual, ex-presidiário, ex-toxicodependente, artista, poeta. Não vês homens assim. Eu conheço homens assim. Cresci com homens assim. Mas nunca os vejo no ecrã”. Adiciona ainda que, como alguém que já morreu na série, voltar àquela casa “é algo fantasmagórico”.

Mesmo que mostre uma família negra poucas vezes vista em televisão, as pessoas que dão a cara pela série não deixam de ser quase todas brancas. Mas, assegura Brown, há mais diversidade atrás das câmaras: "Existem três argumentistas afro-americanos, cada um com opiniões diferentes sobre o que é a experiência afro-americana na América, tal como eu, e o feedback é muito apreciado, e esta temporada tivemos realizadores negros”. Além disso, também há muito de Brown em Randall: “Sempre que há oportunidade para adicionar a minha perspectiva em improvisos faço-o e às vezes aproveitam isso.” Dá o exemplo de um episódio em que, na reconciliação após uma luta com o irmão na ruas ruas de Nova Iorque, disse: “Eu continuo a ser negro, temos de nos ir embora”. “Senti que tinha piada e vinha a propósito do que se anda a passar no nosso país”, adiciona.

Susan fala de um momento recente em que se lida com o cabelo complicado da nova filha adoptiva de Randall e Beth, uma rapariga negra que nunca teve quem lhe explicasse como tratar do seu cabelo. “Foi dos episódios mais negros até agora. A Vera [Herbert] escreveu isso. Ela é branca”, dando eco à ideia de que a equipa criativa, que, garante Aptaker, recebe regularmente a visita de especialistas em dependências ou em adopções interraciais, está sempre disposta a ouvir.

É assim que, na via de Leonard Nimoy, dois estúdios ao lado do sítio onde o psicólogo Dr. Phil, um dos homens mais bem pagos do mundo do entretenimento, grava o programa com o seu nome, se desvendam mistérios, se atravessam várias épocas e se faz às vezes rir, outras chorar.

O PÚBLICO viajou a convite da FOX