Os Madrepaz são o disparate e a brincadeira levados a sério

São dez e meia da manhã. Chegamos a São Marcos, no concelho de Sintra, para nos encontrarmos com os Madrepaz, que andam a preparar os concertos que vão dar esta semana no Porto. Entramos num silo de automóveis. Na garagem 26, Pedro da Rosa, Nuno Canina, Ricardo Amaral e João Canário preparam o ambiente – com luz q.b. e algumas velas acesas – para nos darem a ouvir A mão direita, o mais recente single do seu primeiro disco, Panoramix, lançado em Março deste ano. “Compusemos o álbum em oito dias, porque nos retirámos da cidade”, conta Pedro. “É assim que nos sentimos mais à-vontade. Gastamos muitas horas a ouvir discos e muitas horas a dissecá-los”. Como influências, falam de nomes como Tame Impala, Phoenix, M83 e Zeca Afonso, mas o espectro de referências é alargado e é deste espectro que surge Panoramix, que é, como indica o nome, a “mistura panorâmica” daquilo que os Madrepaz são e da música que ouvem.

O gigante Toñito vai à procura de uma cura para a sua mão partida: é este o ponto de partida para A mão direita, diz Pedro. “É uma peregrinação. O gigante vem do deserto, passa pela floresta, por uma aldeia, e chega a um monte – o monte sagrado, onde descobre que, para encontrar a cura, vai ter de deixar coisas para trás”. Mas o tema, a sétima faixa do álbum, anda a par e par com a oitava, Al Yad Al Yamma. “Quando compusemos as canções elas saíram juntas. Esta segunda é aquela viagem mais de purga, ou de catarse e foi das últimas letras que completámos. Tínhamos acabado de gravar A mão direita” – relata o guitarrista e vocalista – “e eu estava ‘cama, varanda, cigarro; cama, varanda, cigarro’, a ver se a letra vinha. Entretanto, chegou assim, tipo ‘pim!’. Fui para a varanda ver se batia certo na música que tínhamos gravado, e não consegui desviar a atenção de uma estrela que estava no céu. Fui a uma aplicação ver qual era: chamava-se Betelgeuse e era da constelação de Orion. Quando fui à Wikipedia pesquisar sobre ela, encontrei escrito nos significados e etimologia, em árabe, Al Yad Al Yamma: a mão direita, a mão do guerreiro”. E assim, de uma coincidência, surgiu o título.

Mas esta não é a única canção do disco com uma história invulgar. Se Mifri-O Demoran-Go surgiu de uma “palermice” durante o retiro. Ricardo Amaral, guitarrista e vocalista dos Madrepaz, explica: “Andávamos a ouvir os Tinariwen e o Pedro começou a tocar uma malha na guitarra. E então perguntámo-nos: ‘como é que se fala português de forma a que soe a árabe?’”. No meio da brincadeira, continua Ricardo, uma das tentativas soou-lhe a “semifrio de morango”. E assim ficou baptizada. Hoje, este tema, que esteve para nem ser incluído no disco, é muitas vezes aquele que utilizam para terminar os concertos: “é uma descarga de energia muito directa que põe toda a gente a dançar”. “Como já somos amigos há muito tempo, quando estamos todos juntos não há filtros”, nota Nuno Canina. “Gostamos de estar juntos e de fazer música juntos”, continua, e a descontracção e familiaridade que daí resultam potenciam (e quase “pedem”) a ocorrência do disparate. Mas no bom sentido, porque os Madrepaz levam o disparate muito a sério.

Às vezes, basta um pouco de atenção para a brincadeira se transformar em algo mais. “Se tiveres um bom disparate – ou até mesmo um mau disparate – e trabalhares bastante nele, nos pormenores desse disparate”, pode dar-se um resultado especial. Nuno, baterista, fala mesmo de “serendipidade”. “Às vezes só é preciso estar atento”, acrescenta Pedro, “passando tempo juntos, a brincar, só a divertirmo-nos e a levar a brincadeira a sério. E, quando, no meio disto tudo, está toda a gente motivada, aparecem sinais, aparecem animais, aparecem coisas no céu. E se estivermos atentos a essas coisas, ao fazermos um disco só temos de contar a história do que é que aconteceu. Apanhamos a ponta do fio das músicas e o desafio é ver até onde é que elas nos levam. Parece que já existem, nós só estamos a descobri-las e a desvendá-las”.

O segundo álbum já está a caminho e o processo vai ser semelhante: o retiro aproxima-se e as gravações estão previstas para Janeiro, revela João Canário. Antes disso, os concertos no Porto: o primeiro acontece esta quarta-feira, dia 8, no café concerto da Casa da Música, o segundo na quinta, no Hard Club, na festa da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, e os restantes na sexta-feira, dia 10, nas Fnac de Santa Catarina e do Norte Shopping.

Veja mais vídeos PÚBLICO 360º.

Sugerir correcção