Conferência sobre desigualdade discutiu como sobreviver à globalização

Um debate de alto nível aproximou o grande público de uma das grandes questões políticas do nosso tempo: a desigualdade.

Fernando Alexandre, Gregory Clark e Phillippe Van Parjis
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Fernando Alexandre, Gregory Clark e Phillippe Van Parjis DANIEL ROCHA

A mulher que é um ícone do fim da segregação racial nos Estados Unidos fechou um dia cheio no Teatro São Carlos, em Lisboa, onde se discutiu a desigualdade. Ruby Bridges, primeira criança negra a entrar numa escola até aí reservada a brancos, detalhou as suas experiências desde a infância até à perda um filho para a violência. Foi um momento emotivo e simbólico, numa sala a abarrotar, que terminou com uma ovação de pé a Bridges. 

O tema do dia foi "Em que pé está a desigualdade", que enquadrou a conferência anual da Fundação Francisco Manuel dos Santos, abrindo caminho a uma discussão que trouxe para o grande público um tema que normalmente se fecha nos círculos académicos. O dia tinha sido aberto por Pierre Rosanvallon, fundador do grupo "La Republique des Idées", que elencou as muitas formas de desigualdade com que o mundo se confronta hoje. Rosanvallon não hesitou em criticar a aceitação que fazemos da desigualdade social e criticou a abordagem populista, exigindo que as democracias se assumam em contraponto a essa ameaça. O teórico frisou a legitimidade das políticas de redistribuição e a necessidade de "fazer a reforma fiscal de forma a evitar a revolução social". Alguns destes pontos já tinham sido frisados na entrevista que concedeu ao PÚBLICO

Seguiu-se o primeiro debate aberto de ideias, com Richard Baldwin e Branco Milanovic, moderados por Ana Rute Cardoso. Baldwin, professor de economia em Genebra e co-autor de várias obras com o Nobel da economia Paul Krugman, publicou um livro sobre a globalização e veio apresentar a sua tese – que consiste essencialmente em explicar que estamos a tentar abordar um problema novo (a disrupção provocada pela nova globalização das ideias e dos serviços) com soluções velhas (nacionalismo e populismo). Já Branko Milanovic preferiu concentrar-se nos efeitos destrutivos da globalização, recordando que nesta fase o impacto económico já é notório nos países em desenvolvimento e exemplificando com um inquérito de 2016 em que o país menos satisfeito com o impacto da globalização era a França e o mais satisfeito era a Indonésia.

O outro debate importante foi o moderado por Fernando Alexandre, comissário deste evento, em que participaram Gregory Clark, reconhecido historiador de economia, e Phillippe Van Parjis, académico fundador da Basic Income Earth Network. Foi o momento onde mais se discutiu a aplicação concreta de medidas políticas para combater a desigualdade que grassa devido à globalização. E ao diagnóstico determinista de Clark, Van Parjis contrapôs a promoção da educação e a necessidade de basear a economia no conhecimento como motores de uma sociedade mais igualitária. Presente a todo o debate esteve também a questão de um Rendimento Básico Universal, uma ideia já bastante discutida e que está a ganhar nova vida nos gabinetes de reflexão governativa.

Alexandre Soares dos Santos encerrou a conferência com um elogio ao exemplo de vida de Ruby Bridges, mas preferindo destacar o problema da globalização como a questão de que não se fala em Portugal. Esta desigualdade que a FFMS trouxe a debate com alguns dos maiores pensadores contemporâneos não terá coberto todo o espectro da questão da globalização, mas cruzou vários dos seus maiores problemas.