Exposição queer cancelada em Porto Alegre após protestos

Depois de acusações de promoção de pedofilia e zoofilia e do lançamento de uma petição, a exposição Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira, no Brasil, foi cancelada um mês antes da data de encerramento.

Uma das obras no centro da polémica, assinada por Bia Leite em 2013
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Uma das obras no centro da polémica, assinada por Bia Leite em 2013 DR

A exposição Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira, no Santander Cultural, em Porto Alegre, no Brasil, estava aberta ao público desde 14 de Agosto. A ideia era celebrar a diversidade da expressão de género na arte brasileira dos meados do século XIX até aos dias de hoje, numa mostra que inclui 270 obras de quase 90 artistas e que ia ficar patente no museu até 8 de Outubro. Tal não aconteceu: menos de um mês após a inauguração, no domingo, o Santander Cultural anunciou o encerramento da exposição.

A decisão foi tomada depois de a exposição se ter tornado viral, na semana passada, com internautas a acusarem algumas das obras de blasfémia e promoção de pedofilia, zoofilia e imoralidade e a apelarem ao boicote não só à mostra, mas também ao banco Santander, ao qual pertence o espaço. Uma petição começada no sábado no site CitizenGO a pedir o cancelamento da exposição gerou quase 65 mil assinaturas. Outra, iniciada após o encerramento no site change.org, pede a reabertura e já angariou quase 40 mil.

Em causa estavam, entre outras, obras de Bia Leite, cuja pintura aborda o bullying homofóbico infantil, Adriana Varejão, que retrata, como parte de uma imagem maior que pretende lidar com a colonização do Brasil, a sua miscigenação e as hierarquias criadas pela raça, cenas sexuais de dois homens com cabras, e Fernando Baril, que junta braços extra e elementos consumistas a Jesus Cristo na cruz, entre outras representações de figuras religiosas. Outra das fontes da discórdia foi uma instalação em que, dentro de uma mala antiga, várias hóstias tinham escritas palavras como "vagina", "pénis" ou "ânus".

Citado pelo jornal O Globo, o curador da exposição, Gaudêncio Fidelis, diz que não foi consultado quanto ao encerramento da exposição, nem sequer informado de que tal iria acontecer, alegando que descobriu através do Facebook. Em entrevista ao site oficial do jornalista e vereador do Rio de Janeiro David Miranda, Fidelis explicou que as obras tinham sido retiradas do contexto. 

Queermuseu recebeu 800 mil reais (sensivelmente 215 mil euros) através da Lei Rouanet, uma lei de incentivo às artes. Os protestantes são contra usar-se dinheiro público para algo que, na sua perspectiva, vai contra os valores da sociedade e ainda por cima é dirigido a jovens de idade escolar. Numa das alíneas dos objectivos da exposição, consultável no site que agrega todos os projectos submetidos à lei, menciona-se que um dos fins da exposição é "aproximar o público escolar das diversas linguagens da arte contemporânea". 

O MBL, Movimento Brasil Livre, um proeminente movimento de jovens conservadores, foi das vozes contrárias mais activas. Num artigo de opinião publicado na Folha de S. Paulo, Renan Santos, fundador do MBL, queixou-se de "uma elite pública e cultural" continuar "utilizando dinheiro público para desrespeitar e vilipendiar os valores mais profundos da sociedade brasileira". O próprio prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr., partilhou no Facebook um post, apagado horas depois, a associar a exposição a zoofilia e pedofilia.

Num comunicado enviado aos clientes a explicar o sucedido, o banco pediu desculpa: "Nós, do Santander, pedimos sinceras desculpas a todos aqueles que enxergaram o desrespeito a símbolos e crenças na exposição Queermuseu. Isso não faz parte de nossa visão de mundo, nem dos valores que pregamos. Por esse motivo, decidimos encerrar antecipadamente a mostra neste domingo, 10/09."

A exposição incluía obras de artistas conhecidos de diferentes eras. Além dos já mencionados Bia Leite, Adriana Varejão e Fernando Baril, há nomes como Lygia Clark, Antônio Obá, Yuri Firmesa, Cândido Portinari, Alfredo Volpi, Leonilson, Clóvis Graciano, Hudnilson Jr. ou Rogério Nazari.

Na Folha de S. Paulo, o jornalista e crítico de arte Silas Martí associa este caso a outros recentes, como o do performer Maikon K., que há dois meses foi detido a meio de uma actuação em Brasília por “atentado ao pudor”, visto estar todo nu, ou, em 2011, o cancelamento de uma exposição da fotógrafa norte-americana Nan Goldin no Rio de Janeiro.

O Globo cita uma fonte ligada ao Santander Cultural que diz que o encerramento também se deveu ao medo de represálias, com dependências do banco a terem sido vandalizadas por opositores da exposição, o que vai ao encontro de notícias sobre apoiantes do MBL terem importunado visitantes da exposição. Contudo, no artigo de opinião de Renan Santos já mencionado, o fundador do MBL sublinhou fortemente o carácter pacífico da contestação e alegou que "membro algum do movimento se manifestou no local ou constrangeu os presentes".

Estão convocados, para esta terça-feira, protestos contra o encerramento por parte de associações LGBT.