Não ir à Capela do Senhor da Pedra em Miramar é como ir a Roma e não ver o Papa

O extenso areal, a capela junto ao mar, os passadiços e a ciclovia para quem gosta de passear e sentir o ar da maresia, fazem da Praia do Senhor da Pedra uma das mais bonitas da Europa.

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No extenso areal da Praia do Senhor da Pedra, a sua forma hexagonal, o painel de azulejos à entrada da capela, o altar-mor e os retábulos laterais de talha dourada em estilo barroco no interior, as estátuas religiosas das quais se destaca a imagem de Cristo crucificado, não passam despercebidos para quem visita este local de culto, envolto numa belíssima paisagem e em torno do qual se contam mitos e lendas.

Com 81 anos, José Bernardo Pereira está aqui quase há meio século e, por isso, assistiu às mudanças na praia ao longo das últimas décadas. O presidente dos concessionários das praias de Gaia, e o mais antigo concessionário das praias do concelho, recorda que quando chegou não havia casas de Francelos até aqui. Nos dias de hoje, afirma, “as praias estão mais limpas”, graças ao esforço que autarquia tem feito em articulação com os concessionários, diz.

A Praia do Senhor da Pedra tem bandeira azul e é também uma das cinco praias acessíveis do concelho de Gaia, com infraestruturas adequadas a pessoas com mobilidade reduzida. Este ano, com mais um motivo para ser visitada: dois campos de futebol de praia para atletas ou amadores da modalidade.

Por cá, não se admire se vir autênticas romarias em direção à capela que recebe regularmente muitos turistas portugueses e não só. Só este ano, José Bernardo, que é natural de Mesão Frio e mudou-se para o Porto com apenas 11 anos, já viu chegar à praia o dobro dos turistas estrangeiros. Em muito terá contribuído o facto de esta praia estar no top das mais bonitas da Europa no ranking do “European Best Destination” de 2015. Porque além de uma capela construída em cima de um maciço rochoso, esta praia é o destino ideal para quem gosta de passear à beira-mar, nos renovados passadiços ou na ciclovia com quilómetros de extensão.

Junto à marginal, no Jardim da Alameda do Senhor da Pedra, muitos turistas e veraneantes trazem o farnel e por ali ficam a aproveitar o ar da maresia. Se não gosta de piqueniques ou simplesmente não quer ter trabalho, prove as iguarias dos restaurantes locais. Com vista de mar, mesmo em cima da praia, tem o restaurante Sinfonia Amarela onde não pode deixar de provar as asinhas de frango bem picantes, só para abrir o apetite, e as especialidades da casa como o bacalhau “à Zé da Pedra”, o arroz de marisco, as tripas ou o lombo assado. Junto à praia tem mais opções: o restaurante Solar do Senhor da Pedra onde não faltam os pratos da cozinha tradicional portuguesa ou o Restaurante Cabana com comida caseira num espaço acolhedor.

 

Capela do século XVIII envolta em mitos e lendas

Nesta praia da freguesia de Gulpilhares, que foi crescendo em torno desta capela, local de culto e devoção, não faltam tradições, lendas e mitos. A Romaria em honra ao Senhor da Pedra, que acontece no domingo da Santíssima Trindade é um dos pontos altos celebrada com três dias de festa. Reza também a tradição que no último dia do ano, à meia-noite um grupo de corajosos se lance ao mar no primeiro banho do ano, um ritual que junta, anualmente, cerca de mil curiosos, conta José Bernardo. Assim acontece há 43 anos.

Este transmontano, que por aqui fez vida nos últimos 50 anos, conta que as mulheres que querem casar vão à capela colocar os pés na marca semelhante a uma pegada de boi que está incrustada no rochedo, atrás da capela, para dar sorte.

Gonçalves Guimarães, historiador e especialista em património, refere que este é um local de especial devoção para aqueles que esperavam que os seus amores voltassem do outro lado do mar. A permanente partida de gaienses para o Brasil, “o mar que levava e que trazia, que desgraçava e que enriquecia, continuou a ter uma presença constante na saudade local, regional e nacional. E dali, da capela permanentemente afagada pelo mar, era possível enviar mensagens àqueles que o mar levara, mas que haveria de trazer logo o mais breve possível”, explica o Técnico Superior de História da Câmara Municipal de Gaia e diretor do Solar Condes de Resende.

O historiador acredita que, com base nos documentos existentes, a edificação da Capela do Senhor da Pedra, em 1763, foi posterior à data inscrita nos azulejos (1686) que estão colocados na entrada da capela. Os penedos naturais serviam como baliza de navegação para os marinheiros, conjuntamente com o ribeiro que lhe desagua próximo e onde se podia fazer abastecer os navios de água potável sem entrar na barra do Douro, e essa informação consta em todas as cartas de navegação do século XVIII, sustenta o historiador.

Neste local de culto, acrescenta, foram pensados outros projetos: a construção de um forte no século XVII, tipo o forte do “Castelo do Queijo”, que ajudasse a controlar o acesso à barra do Douro. Sucedeu-lhe um fortim, mais a norte na Praia da Madalena e, no final do século XVIII, um estaleiro de construção naval nas imediações.

Na opinião do historiador é fundamental a criação de um núcleo museológico interpretativo que tenha como objetivo explicar o local onde está inserida a Capela, a devoção ao Senhor da Pedra e também as devoções “paralelas”, ou seja, outros locais onde existem romarias associadas ao Senhor da Pedra – o Santuário do Senhor da Pedra de Óbidos construído em 1740 é um desses exemplos. 

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