Loulé nasceu há 800 anos porque quem lá vivia quis uma cidade

Uma exposição do Museu Nacional de Arqueologia percorre, em 500 peças, sete mil anos de história do maior e mais povoado dos concelhos do Algarve. Da pré-história à época medieval com um salto ao presente, porque a arqueologia também se faz com os vivos. A partir desta quarta-feira em Lisboa.

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Nuno Ferreira Santos/PÚBLICO

O ano é o de 1976 e o Verão já não está assim tão quente. Uma estudante de arqueologia de 21 anos troca temporariamente Sintra pela serra algarvia, território que não conhece e onde parece faltar quase tudo, começando pela luz e pela água canalizada. Hoje Helena Catarino ainda guarda o fascínio dessas primeiras escavações a Sul – num sítio da pré-história, sob a direcção de Victor S. Gonçalves –, mas guarda sobretudo a memória das noites quentes e estreladas (sem iluminação o céu revela-se) em que professores e alunos se juntavam às gentes da terra e ficavam a conversar sem pensar nas horas. “Aquelas pessoas que ali viviam passavam o resto do ano completamente isoladas, longe de quase tudo e sempre muito próximas dos campos de cultivo, do que eles davam. É também por causa delas, e se calhar até sobretudo por causa delas, que a serra algarvia me ficou logo no coração e na cabeça”, recorda esta arqueóloga, professora da Universidade de Coimbra há mais de 30 anos.

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O ano é o de 1976 e o Verão já não está assim tão quente. Uma estudante de arqueologia de 21 anos troca temporariamente Sintra pela serra algarvia, território que não conhece e onde parece faltar quase tudo, começando pela luz e pela água canalizada. Hoje Helena Catarino ainda guarda o fascínio dessas primeiras escavações a Sul – num sítio da pré-história, sob a direcção de Victor S. Gonçalves –, mas guarda sobretudo a memória das noites quentes e estreladas (sem iluminação o céu revela-se) em que professores e alunos se juntavam às gentes da terra e ficavam a conversar sem pensar nas horas. “Aquelas pessoas que ali viviam passavam o resto do ano completamente isoladas, longe de quase tudo e sempre muito próximas dos campos de cultivo, do que eles davam. É também por causa delas, e se calhar até sobretudo por causa delas, que a serra algarvia me ficou logo no coração e na cabeça”, recorda esta arqueóloga, professora da Universidade de Coimbra há mais de 30 anos.

Desde essa primeira incursão muita coisa mudou – no conhecimento que a arqueologia tem daquele território e no percurso de Helena Catarino. Embora continue a vê-la como uma época de “grandes revoluções e revelações”, o seu trabalho já não passa pela pré-história – a investigação a que hoje se dedica, mesmo quando se trata do Algarve, onde já escavou nos castelos de Salir (Loulé), Paderne (Albufeira) e Alcoutim, cinge-se à ocupação islâmica, período que, garante, conhecemos ainda muito mal. “Os árabes estiveram cá 500 anos mas continua a haver um certo desconhecimento em relação à sua presença no país. A maioria das pessoas sabe que nos deixaram meia dúzia de palavras e alguns legumes; quem conhece um bocadinho mais tem noção de que trouxeram novidades como o regadio, mas há tanta, tanta coisa que ainda não sabemos…”

Catarino, hoje com 62 anos, faz parte do grupo de cinco comissários científicos – com ela estão Victor S. Gonçalves (pré-história), Amílcar Guerra (proto-história), Catarina Viegas (época romana) e Luís Filipe Oliveira (época medieval) – que ajudaram a escrever o guião de Loulé Territórios, Memórias, Identidades, a exposição realizada em parceria pela Câmara Municipal de Loulé, liderada por Vítor Aleixo, e pela Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) que é inaugurada esta quarta-feira no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), em Lisboa.

Para além do núcleo que diz respeito à Antiguidade tardia (ainda o mundo romano, mas já marcado pela chegada do cristianismo), coube à professora de Coimbra, naturalmente, o período árabe, o mesmo que assistiu à fundação do castelo de Salir e da própria cidade de Loulé, que aparece pela primeira vez referenciada como tal nas fontes escritas no século XII (os árabes deixam o Algarve em 1248-50).

Ao contrário de muitas cidades espalhadas pelo país, Loulé não tem uma matriz romana, mas muçulmana, explica Helena Catarino: “As cidades romanas são produto de um império que vem, conquista e imprime um cunho muito específico a pessoas e territórios. O processo de islamização é muito lento e menos impositivo. As cidades que os árabes fundam podem nascer de uma vontade política, mas também podem surgir da dinâmica local.” Foi assim em Tavira e em Loulé, garante a comissária. “Tavira tem uma comunidade piscatória importante e Loulé tem a riqueza agrícola que vem do barrocal. Nas duas o comércio é importante, há uma grande movimentação de produtos e de pessoas. No século XI Loulé é ainda uma espécie de alcaria [aldeia] desenvolvida, mas depois transforma-se porque quem lá vivia quis uma cidade.”

Para além da praia

A galeria de exposições temporárias do MNA – hoje mais ampla porque o projecto expositivo da arquitecta Maria Manuela Fernandes levou a que perdesse finalmente a parede que a dividia – conta agora a história de um vasto e diversificado território (45% de serra, 40% de barrocal, 15% de litoral), das antigas sociedades camponesas ao século XV, passando por 1384, ano da mais antiga acta de vereação que se conhece no país (documento do Arquivo Municipal de Loulé) e em que o rei de Castela ameaça Lisboa por mar, disputando o trono com o Mestre de Avis, que acabaria coroado como D. João I.

“Quem vivia no concelho de Loulé entre 6000 e 2000 a.C?” é uma das perguntas com que arranca esta exposição que pretende retratar um território – físico e identitário – a partir dos testemunhos materiais que ali foram deixados ao longo de milhares de anos. 

Os instrumentos ligados ao trabalho do cobre no povoado do Cerro do Castelo de Corte João Marques, as estelas gravadas com a escrita do Sudoeste (uma língua do Sudoeste hispânico que derivará do alfabeto fenício mas que permanece um mistério), agulhas de bronze, almofarizes de barro, contas de colar e até o fragmento de uma queijeira com cinco mil anos em cujos orifícios os técnicos de laboratório ainda encontraram resquícios de matéria gorda do leite pertencem ao mundo de Loulé antes da chegada dos romanos, nos finais do século II a.C..

Com o império surgem aldeias e propriedades agrícolas mais sofisticadas e de maior dimensão, explora-se de forma sistemática o que vem do mar (faziam-se preparados de peixe que depois eram exportados em ânforas de barro) e os recursos minerais. Entre os sítios romanos mais importantes deste município está o Cerro da Vila (Quarteira), uma grande casa agrícola hoje musealizada. É de lá que vêm esculturas e mosaicos, vidros translúcidos e cerâmicas finas, lucernas e alfinetes de cabelo.

O Cerro da Vila continua a ter ocupação nos períodos seguintes – o da progressiva afirmação das influências bizantina e visigoda (século V a VIII) e o da islamização, que começa no Algarve em 712-13. 

Da época árabe, a exposição do MNA mostra dirhams de prata, facas com cabo de osso e fivelas, aves decorativas e até dedais em bronze.

No centro histórico de Loulé ainda se conservam os banhos árabes, o que é muito raro”, diz Helena Catarino, explicando que, com a conquista cristã, que marca o penúltimo dos oito núcleos da exposição, quase todos foram destruídos.

Peças para mexer

“Enquanto não há condições para termos uma exposição permanente sobre a ocupação humana do nosso território num arco temporal alargado, esta do concelho de Loulé serve de ensaio”, diz António Carvalho, arqueólogo e director do MNA, chamando a atenção para o “trabalho invisível” que Loulé – Territórios, Memórias, Identidades implicou, no terrenos e nos museus. “Como há escavações no concelho desde os anos 70, o espólio é muito rico e diverso, dá-nos a oportunidade de contar uma história seguida, sem hiatos, partindo de um território heterogéneo.”

O Algarve, lembra Pedro Barros, técnico da DGPC que fez trabalho de campo para a exposição, era ponto de passagem obrigatório para os arqueólogos muito antes da década de 70, mas os sítios visitados eram sobretudo Faro e Lagos. “Loulé ficava fora da linha do comboio, era mais difícil. Mesmo a serra e o barrocal só começaram a ter escavações mais sistemáticas nos anos 90.”

Os números desta exposição, garante ainda António Carvalho, reflectem também as colaborações estabelecidas entre entidades (incluindo três universidades) ao longo dos 15 meses de preparação.

Nas vitrinas e nas mesas há 500 peças expostas, provenientes de 35 sítios arqueológicos e de 11 instituições, quase 170 delas restauradas para a ocasião. Foram reunidas graças ao esforço de uma vasta equipa que incluiu sete comissários executivos e envolveu mais de 50 técnicos. “A diacronia longa das peças expostas obriga a vários comissários porque implica um grau de especialização muito grande”, explica Rui Almeida, arqueólogo e comissário executivo do Museu Municipal de Loulé.

“Temos nesta exposição, como nos trabalhos no concelho há décadas, várias gerações de arqueólogos a trabalharem juntas e isso enriquece o olhar sobre os objectos e sobre o território”, diz o director do MNA. E é por mostrar o que de mais recente se produziu na investigação que ela permite “fazer uma espécie de revisão e actualização da matéria dada”, acrescenta Rui Almeida. “Esta exposição é um ponto da situação, obviamente condensado, do que sabemos sobre o concelho e sobre quem lá viveu.”

O catálogo geral da exposição, com edição da Imprensa Nacional Casa da Moeda, conta com entradas assinadas por 40 especialistas portugueses, alemães, espanhóis e franceses, e com material inédito ou reinterpretado. 

Nas mesas com LCD que ajudam o visitante a “ler” o que se mostra nas vitrines e que ocupam o corredor central da galeria há também peças em que se pode tocar. Saíram das reservas de museus como muitas das que se mostram por trás do vidro, mas têm algo que as distingue das restantes – não se sabe de onde vêm. Estão neste grupo de objectos um machado de pedra polida, um pedaço de estela com escrita do Sudoeste e o fragmento de uma ânfora do Tejo ou do Sado. “São peças apátridas e por isso resolvemos deixar que o visitante lhes mexesse”, diz Rui Almeida, explicando que o facto de o seu contexto ser desconhecido lhes retira valor científico. 

“Aqui tínhamos cerâmicas finas da Gália, azeite de Sevilha, preparados de peixe da Bética… Tudo o que há fora chega, tudo o que se produz sai”, acrescenta este arqueólogo, pegando numa cerâmica que faz parte de “um serviço de mesa” de produção norte-africana que ali entrou quando o Algarve era romano e Loulé fazia parte de outro mercado único.