Opinião

O festival? Dramma giocoso!

Ainda o Festival da Eurovisão, visto naquilo que ele tem de mais profundo, isto é, a sua pele.

O Festival da Canção da Eurovisão — olhemo-lo de frente — é um espectáculo da erecção cosmética e do gosto barroco pela máscara e pelo hiperartifício. Não perceberemos como é que esta manifestação se tornou naquilo que é se nunca entrámos numa discoteca gay, dessas onde há actuações de travestis e onde se celebra o culto das divas da música pop. Tal como o mundo da moda, o Festival da Eurovisão foi anexado por uma subcultura gay e conformou-se ao espírito da extravagância e do estilo exagerado. O festival é a grande operação irónica de uma minoria que conseguiu impor ao Corpo Nacional straight — aos corpos nacionais europeus — a sensibilidade e a estética queer. Diabólica inversão, dramma giocoso! O festival suscita a referência a uma estética e a um estilo muitas vezes identificados com o kitsch, mas para os quais serve antes uma outra categoria, situada numa zona limítrofe do kitsch. Essa categoria é o camp. Devemos a sua codificação e caracterização, pela primeira vez, a Susan Sontag, que publicou em 1964 um artigo intitulado Notes on “Camp” (em todo o artigo, a palavra aparece com letras maiúsculas e só tem aspas no título), depois incluído em Against Interpretation.

Sontag definiu o camp como um gosto e uma sensibilidade, “um modo de ver o mundo como fenómeno estético”, isto é, como um estetismo que não se mede em termos de beleza, mas pelo “grau de artifício, de estilização”. E, já quase no final do artigo, constituído por 58 notas, a autora traça uma afinidade entre o camp e a teatralidade frívola e hipertélica, dotada de ironia e de auto-ironia, característica dos meios homossexuais. O camp não se esgota no gosto gay, diz Sontag, mas os homossexuais foram a vanguarda desta sensibilidade. Aquilo que geralmente é visto como kitsch — as gay parades, a ostentação de signos de reivindicação de uma cultura minoritária , o culto do travestissement, a pulsão da metamorfose, a teatralização dos géneros — não é senão um mau gosto consciente, auto-irónico, que nasceu como uma estratégia de afirmação cultural no interior da moral dominante. Enquanto o kitsch, ingenuamente, não coloca nenhuma distância entre as suas intenções e os seus resultados, o camp elabora uma estetização que exibe de maneira consciente e provocatória o exagero do seu artifício. E fá-lo unindo na mesma operação ironia, comprazimento e simulação. Trata-se de ver as coisas como se elas estivessem entre aspas, explica Sontag, já que não existe nada mais estranho à natureza do que o camp.

Foi exactamente como uma mulher entre aspas que Conchita Wurst se apresentou no Festival de 2014, a edição mais genuinamente camp deste acontecimento anual. Mas parece que nem assim a generalidade das pessoas percebeu o que era o Festival da Eurovisão. O travesti não imita a mulher. No limite, para ele, nem existe mulher, existe apenas um fantasma ao qual atribui uma figura de hipermulher, uma máscara artificial e excessiva que nos convida a ver a mulher entre aspas, ou, como também diz Sontag, “as coisas-que-são-como-não-são”. Configurado pelo gosto camp da subcultura gay, o festival “é belo porque é horrível”. É com esta frase que podemos traduzir a sensibilidade camp que o tornou naquilo que ele é e neutralizou toda a moralidade: à tensão transgressiva entre moral e estética, à reclamação, cheia de gravidade, de que a estética e a ética são a mesma coisa, o camp opõe a sensibilidade do estetismo resplandecente e elevado a paixão cosmética.

P.S. Salvador Sobral quis representar nas suas intenções uma contra-revolução puritana. Inteligente como é, já está certamente a rir de tão indigna missão.