Um filme feito exposição

Na Casa das Histórias, em Cascais, estarão muitas das obras a que a pintora se refere no documentário que está prestes a estrear em Portugal, algumas delas nunca expostas. No filme fala ela, na exposição falam as pinturas. Tanto num como noutra, é Paula Rego em discurso directo.

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Descida da Cruz, 2002 Cortesia: Colecção Ostrich Arts Limited
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O percurso inclui também uma sala dedicada ao trabalho de Victor Willing, incluindo Nu azul II, c. 1958 Colecção particular
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Pausa para o almoço, c. 1957-1958 Colecção particular
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Manifesto por uma causa perdida, 1965 Cortesia: Museu Calouste Gulbenkian
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O Anjo, 1997 Cortesia: Colecção Ostrich Arts Limited
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Entre as mulheres, 1997, da série O crime do Padre Amaro Cortesia: Colecção Ostrich Arts Limited

A mãe levava-o muitas vezes ao cinema para King Kong, Pinóquio ou Rollerball. Estas sessões, momentos raros em que estavam juntos, deixou em Nick Willing o gosto pela imagem em movimento e acabou por lhe ditar a escolha de carreira: “A mãe tornou-me realizador sem querer porque filme é coisa que ela adora, até mais do que a pintura”, diz ao Ípsilon, a quase duas semanas da estreia/inauguração de Paula Rego: Histórias & Segredos, nome partilhado pelo documentário de 90 minutos que Nick fez para a televisão britânica (em Portugal é distribuído pela Midas, com apresentação na Gulbenkian a 4 de Abril e estreia em sala a 6 em Lisboa, Porto e Cascais) e pela exposição biográfica que abre a 7 na Casa das Histórias, o museu que é dedicado a esta artista portuguesa que se mudou definitivamente para Londres em 1976.

No documentário Paula Rego conta a sua história, na exposição são as suas obras que falam por ela. Em paralelo, um ciclo na Cinemateca Portuguesa, que começa a 5 de Abril com Quando os Sinos Dobram (Michael Powell/Emeric Pressburguer, 1946), dá provas da sua ligação ao cinema, algo que lhe permite também evocar o pai, seguramente um dos seus heróis, que em criança a levava a ver as produções de Walt Disney e que tinha a sua própria sala de exibição na casa dos avós da pintora.

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Esgravatando, 1994, pintura da série Mulher cão Colecção particular

Nick garante não ter tido nada a ver com a escolha dos filmes, embora, por causa de Paula Rego, já os conhecesse a todos. Branca de Neve e os Sete Anões (Walt Disney, 1937), Aldeia da Roupa Branca (Chianca de Garcia, 1939), Los Olvidados (Luis Buñuel, 1950), Julieta dos Espíritos (Federico Fellini, 1965), Tudo Sobre a Minha Mãe (Pedro Almodóvar, 1999) e O Conto dos Contos (Matteo Garrone, 2015) estão entre as dez propostas deste ciclo que termina a 28 de Abril.

O cinema, a ópera e a literatura fazem parte da vida da pintora desde a infância, assim como as histórias que lhe contava a tia-avó Ludgera, relatos que ela inventava a gosto da sobrinha-neta e que podiam durar uma tarde inteira e até passar para o dia seguinte. “A obra da Paula está cheia de fantasia, de faz-de-conta, mas é uma fantasia ancorada naquilo que ela viveu. Isso vê-se no documentário e nesta exposição”, diz Catarina Alfaro, que divide o comissariado de Paula Rego: Histórias & Segredos (até 17 de Setembro) com Nick Willing.

A exposição, que reúne dezenas de obras que pertencem à própria Paula Rego, à Fundação Gulbenkian, à galeria da artista (a prestigiada Marlborough), à Casa das Histórias, à Abbot Hall Art Gallery e a outras colecções portuguesas e estrangeiras, organizadas num percurso cronológico em que há simultaneidades, não é uma retrospectiva, antes uma “biográfica”. Alfaro, que é também a coordenadora de programação da Casa, explica: “ O que o Nick me pediu foi uma exposição que seguisse a narrativa do documentário, que fosse buscar obras que tivessem a ver com episódios que a Paula contava.”

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Um, 2007, da série Depressão Colecção particular

E foi isso que fizeram em oito núcleos que abrem com as obras que Paula Rego faz antes e logo a seguir ao período em que frequentou a Slade School of Fine Art (1952-1956), em Londres, e fecham na actualidade, com obras do marido da artista pelo meio – o pintor britânico Victor Willing (1928-1988), pai dos seus três filhos – e outras suas que nunca foram expostas em Portugal, como um retrato do pai, feito há mais de 50 anos, e uma curiosa Descida da Cruz, de 2002.

Obras do início da carreira, ainda com “uma matriz muito neo-realista”, como No Monte (1952), convivem, assim, com pinturas que pertencem a algumas das mais celebradas séries da pintora como O Anjo e Entre as Mulheres (O Crime do Padre Amaro, 1994); Quieta! e Esgravatando (Mulher cão, 1994); ou o tríptico de Aborto (1998), conjunto de obras em que é evidente o regresso permanente de Paula Rego à sua própria história e o seu activismo na defesa dos direitos das mulheres. Nele está expressa uma experiência pessoal – a artista fez vários abortos enquanto estudava na Slade e Victor Willing permanecia casado com a bailarina Hazel Whittington – e a indignação que lhe provocou a grande abstenção dos portugueses no primeiro referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, em Junho de 1998 (só um terço dos eleitores foram às urnas, ganhando o “não” com 51% dos votos, realizando-se um segundo referendo, em 2007, em que o “sim” venceu com quase 60%).

“É a partir da reflexão sobre as experiências vividas que o pensamento artístico de Paula Rego se constrói, sendo a sua vida e a sua obra realidades inseparáveis”, escreve a comissária no texto que assina no catálogo.

Casa com fantasmas

E é porque vida e obra se misturam que a exposição da Casa das Histórias, em que as pinturas são legendadas com comentários da própria artista, inclui muitos artigos pessoais que lhe têm vindo a servir de inspiração – livros, revistas, fotografias – e objectos saídos do seu atelier londrino, um território de criação permanente onde se podem encontrar os móveis, as roupas e os bonecos que usa nos cenários que constrói para pintar. “As coisas fazem-nos ver as ideias, ajudam muito”, diz a artista ao Ípsilon semanas antes da inauguração, enquanto passeia pelo estúdio. “Muitos destes bonecos metem medo, não metem?” (E metem mesmo.) 

Muita da documentação pessoal, incluindo Inferno, de Dante Alighieri (edição de 1887 com as célebres gravuras de Gustave Doré), e correspondência trocada com os pais em que se adivinha a distância que mantinha da mãe, ajudam a reconstituir um ambiente familiar que favorecia as artes, acrescenta a comissária. “A mãe tinha frequentado as Belas-Artes, o pai adorava cinema e ópera, a casa que tinham no Estoril [e ainda têm] incluía uma biblioteca fantástica…” Uma biblioteca que ninguém usa porque, segundo a pintora e a caseira, Eduarda, a moradia que a mãe mandou construir nos anos 1930 está assombrada. 

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Paula Rego com os pais, José e Maria de São José Figueiroa Rego, na praia da Ericeira em 1938 DR
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Paula Rego e Victor Willing na praia de S. Julião, Ericeira, 1958 DR

Sim, Paula Rego acredita em fantasmas, fadas, bruxas e seres mitológicos. Acredita até em Deus e na Virgem Maria – “adoro essas histórias todas”, diz no filme de Nick Willing – e é por isso que estas entidades atravessam as suas obras, tal como figuras bem reais do seu passad - o pai, a mãe, a D. Violeta, a professora contratada para lhe dar aulas em casa e que a aterrorizava, e, claro, Victor Willing, a quem aliás é dedicada, em exclusivo, a terceira sala de Histórias & Segredos.

“A relação com o Vic é um elemento fundador. Quando olhamos para algumas das suas obras e a ouvimos falar sobre elas, percebemos o que a Paula quer dizer quando garante que por amor fez tudo o que havia para fazer”, acrescenta Catarina Alfaro.

Uma incrível liberdade

O núcleo dedicado aos anos 1980 é um dos espaços centrais da exposição porque esta é a década de viragem mais significativa do trabalho de Paula Rego, quer em termos de linguagem visual, quer de reconhecimento público do seu trabalho, sobretudo a nível internacional. Explica Alfaro que é neste período que começa a construir as relações de grande ambiguidade entre humanos e animais, “esse universo muito peculiar em que tudo se confunde para que a Paula possa contar a sua própria história”. É nesta sala que podemos encontrar algumas obras da série O Macaco Vermelho, profundamente ancorada na história de Paula e Vic, com referências, por exemplo, à relação que durante anos ela mantém com o escritor Rudolf Nassauer, um amigo que viria a tornar-se seu amante.

“As obras deste período são de uma liberdade incrível e são muito diferentes das da década seguinte", em que cada pintura começa a ser cuidadosamente encenada em estúdio, o lugar em que “Paula constrói o seu mundo de fantasia e encantamento, colocando nas suas pinturas aquilo que não é capaz de dizer, conferindo-lhes, assim, um poder mágico e revelador”, escreve a coordenadora da Casa das das Histórias. 

Um mundo de fantasia que não a impede de mergulhar num estado depressivo que lhe é familiar desde a infância. Foi numa das fases mais sérias da doença, em 2007, que a artista fez a série que se pode ver quando Histórias & Segredos está quase a chegar ao fim, e que esteve recentemente exposta pela primeira vez na Galeria Marlborough de Londres. São obras que ficaram dez anos esquecidas numa gaveta e que mostram como o sofrimento transforma o corpo, como lhe condiciona a postura, os movimentos. Nelas toda a cena parece em tensão, como se as roupas daquela mulher que por vezes se contorce, apertadas na cintura ou no pescoço, fossem um indicador de que tudo ali está contido, fechado, inacessível. Nelas se vê, como noutras obras, que Paula Rego está em tudo o que faz. Não é apenas dela a mão que pinta – é dela também a história que é pintada.