As invasões que salvaram Conímbriga

Numa nova exposição, o Museu Monográfico mostra que a cidade romana foi abandonada mais tarde do que se pensava. E que a sua ocupação sistemática até à Idade Média contribuiu para o bom estado de conservação com que chegou até nós.

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A antiga cidade romana de Conímbriga não foi abandonada antes da Idade Média, um acontecimento que contribuiu para o bom estado de conservação dos seus vestígios arqueológicos. Depois da invasão da cidade pelos suevos, em 465 e 468, e do generalizado declínio da presença romana na Península Ibérica, Conímbriga “sobreviveu além do que se esperava”, explica o director do Museu Monográfico do espaço arqueológico, Virgílio Hipólito Correia.

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A antiga cidade romana de Conímbriga não foi abandonada antes da Idade Média, um acontecimento que contribuiu para o bom estado de conservação dos seus vestígios arqueológicos. Depois da invasão da cidade pelos suevos, em 465 e 468, e do generalizado declínio da presença romana na Península Ibérica, Conímbriga “sobreviveu além do que se esperava”, explica o director do Museu Monográfico do espaço arqueológico, Virgílio Hipólito Correia.

É para contar esta história que o Museu Monográfico de Conímbriga inaugura neste sábado a exposição temporária Conímbriga: o fim da cidade romana. “A narrativa tradicional é que foi um abandono muito rápido”, diz. Os suevos invadiram e saquearam a cidade no século V e a população teria abandonado a imediatamente cidade. “Não é assim."

As investigações arqueológicas mais recentes permitem agora iluminar “o processo de deterioração e abandono da antiga cidade romana que nunca foi mostrado”, esclarece o director.

Naquela que é a primeira iniciativa desde que o ministro da Cultura anunciou a atribuição ao Museu Monográfico de Conímbriga do estatuto de museu nacional, estão expostos objectos de várias épocas posteriores à ocupação romana da península.

Com as invasões, Conímbriga “perde muito rapidamente alguns aspectos da sua qualidade urbana”, mas continua a ser habitada. A mostrá-lo estão vestígios da presença muçulmana, mas também da Ordem de Cristo. As necrópoles mostram a diversidade das posteriores ocupações: algumas sepulturas, com o corpo depositado de costas e as mãos sobre o ventre, seguem rituais cristãos; noutras, constata-se que há deposição em decúbito lateral, conforme a fé islâmica.

A cidade foi ocupada até ao século IX. A partir de então, “deixa de se ouvir falar de Conímbriga e começa a ouvir-se falar em Condeixa-a-Velha”. Há também outra cidade na região que vai crescendo em influência: a antiga Aeminium, hoje conhecida por Coimbra.  

Os objectos agora expostos nas vitrines do museu correspondem a vários períodos. Para além de pedaços de cerâmica, há uma ânfora usada como caixão para os enterramentos infantis e, ao lado, um conjunto de fivelas, fíbulas e um elemento de arreio de cavalo, encontrados em escavações realizadas já no século XXI.

Dois marcos de propriedade com a inscrição “Almedina” fazem referência ao período da Ordem de Cristo, quando aquele lugar era conhecido como Almedina de Condeixa. Com excepção dos elementos metálicos, todos os vestígios expostos em Conímbriga, o fim da cidade romana vêm a público pela primeira vez.

Com o tempo, Conímbriga, apesar de manter sempre a muralha visível, acabou por se tornar num olival. Uma das imagens da exposição mostra “uma das fotografias aéreas mais antigas da arqueologia portuguesa”, captando os trabalhos que ali decorreram algures entre 1930 e 1939, explica o director.

Reclassificação

O crescimento desta instituição que nasceu nos anos 1960 tem sido gradual e assim deverá continuar, agora que o Museu Monográfico de Conímbriga foi reclassificado como museu nacional. O objectivo passa  por fechar o peristilo, que actualmente tem uma configuração em U. Naquele espaço, diz Virgílio Hipólito Correia, vai nascer um sala de exposições temporárias que dará outra capacidade a este museu que recebe cerca de 100 mil visitantes por ano.

“Organizam-se todos os anos em museus de arqueologia na Europa exposições muito interessantes que podiam vir a Portugal e acabam por nunca vir porque não há sítio onde as pôr”, lamenta. Com o alargamento do museu, as exposições que fazem circuitos internacionais passam a ter um espaço no país.

“O papel que Conímbriga tem na arqueologia do país e a sua própria localização no centro” de Portugal podem servir como instrumentos de captação de público, através de exposições de âmbito internacional, acrescenta Hipólito Correia.

Em marcha está uma candidatura a fundos comunitários do projecto Desenvolvimento Infra-estrutural do programa Museológico de Conímbriga, num programa de intervenção cujo orçamento ronda os 2,5 milhões de euros. No projecto está incluída a ampliação da área de visitas à zona arqueológica e a remodelação do museu e do centro de investigação, como já tinha explicado o presidente do município de Condeixa ao PÚBLICO.