“A minha filha pode ser o preço que eu não vou pagar”

Dulce Neutel é neurologista do Hospital do Espírito Santo, em Évora, e mora no Centro de Lisboa. Conta, na primeira pessoa, como o nascimento da filha, há meio ano, a está a fazer repensar este vaivém.

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"Gosto de trabalhar no sítio onde trabalho, mas não recebo nenhum estímulo financeiro para fazer isto" ADRIANO MIRANDA

Fiz a especialidade de neurologia no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, com uma vaga do Hospital do Espírito Santo, em Évora. Quando terminei a formação, fui lá perguntar: “Então, e agora?” O presidente do conselho de administração, que também era director clínico, respondeu: “Queremos que venhas para cá amanhã. Não temos neurologia. Precisamos de neurologista.”

Eu tinha uma relação cimentada. A actividade profissional do meu marido estava estabilizada em Lisboa. Ele disse-me: “Tu és louca. Eu não quero ter uma relação contigo a viver em Évora e eu em Lisboa”. “Ok, mas não há neurologia em Portalegre, não há neurologia em Elvas, não há neurologia em Santiago do Cacém, não há neurologista no Alentejo inteiro.” “Então, vai, mas vens dormir a casa.”

Foi esse o contrato familiar que fiz há dois anos e meio. Havia uma necessidade e eu percebi a necessidade. Claro que há aqui uma questão pessoal: sou alentejana e tenho família no Alentejo. Quando percebi que não havia neurologia, pensei: o meu avô ou a minha avó ou o meu pai ou a minha mãe podem precisar de um neurologista. Se existe região que necessita de neurologista é o Alentejo. É uma zona muito envelhecida, com muitas doenças neurodegenerativas.

Sítio agradável para trabalhar

Já conhecia o hospital. Morando em Vendas Novas, os meus pais estão dependentes do Hospital de Évora. Tinha feito lá um estágio durante a faculdade. Sabia que, do ponto de vista humano, era um sítio agradável para trabalhar. E achava que o contacto com os doentes seria fácil. Quando cheguei, havia 700 e tal pedidos de primeira consulta. Um colega fazia consulta de neurologia geral. Ia ao hospital duas vezes por semana, mas não todas. E havia uma neurologista que ia uma tarde por semana fazer a consulta de esclerose múltipla e tratava de 200 doentes.

Quando falamos em neurologia normalmente pensamos em doentes mais velhos, mas também temos mais novos. Um doente que vive em Elvas, por exemplo, pode ir à consulta a Lisboa. Se tiver 20, 30, 40 anos, apanha a camioneta. Se tiver 75 anos, é muito mais difícil. Muitas vezes estamos a falar de indivíduos que não sabem ler, nem escrever. Toda a vida foram a Évora. Lisboa é a cidade grande.

Estamos a falar de uma população frágil, que não tem a diferenciação necessária para reclamar. Aqueles que a têm, não precisam de ir à consulta, ou não o fazem, ou têm outras estratégias. Os doentes queixam-se pouco. Quando se queixam, na minha perspectiva, fazem-no de forma errada. Queixam-se que ficam à espera uma hora, seis horas, dez horas na urgência, por exemplo, mas não se queixam por não haver neurologista. Um doente queixa-se porque foi a Lisboa, voltou, teve alta e ainda tinha uma ferida ou estava meio sonolento, mas não se queixa por não haver essa especialidade na urgência do hospital da sua área de residência.

Passei a percorrer 150 quilómetros desde que saio de casa, às 6h50, até ao hospital, sem saber a que horas vou voltar. Organizei o serviço de neurologia. Levei para lá outra neurologista, meios complementares de diagnóstico, alguns ensaios clínicos. E fiz formação de internos. Eu recebo o mesmo e tenho todo este trabalho extra. Em troca de tudo isto a única coisa que pedi foi para manter uma formação contínua. E isso foi-me concedido: cinco horas do meu horário foram alocadas no Hospital de Santa Maria para eu fazer uma competência em medicina do sono.

As dúvidas

Tive dúvidas nalguns momentos. Houve um concurso para o Hospital de São José, em Lisboa. Um hospital privado, da área de Lisboa, convidou-me para trabalhar a tempo inteiro a ganhar o triplo do que ganho em Évora. Tinha tido uma gravidez não evolutiva e o meu marido dizia: “Volta, porque isto do ponto de vista familiar não faz sentido”. E agora essa é uma realidade muito presente.

As coisas mudaram. Entrei de baixa por gravidez de alto risco em Abril. A menina tem seis meses. E estou de licença de maternidade prolongada até ao final de Janeiro.

Os doentes não estão sem resposta. Está lá uma colega, o que me permite desfrutar da maternidade com maior tranquilidade. E levanta-se a questão: “Como é?” Eu sou mãe e não quero deixar de ser mãe. Como tenho uma criança pequena, tentei renegociar o contrato de forma a reduzir o número de horas que trabalho e a continuar em Évora. Esse é o meu desejo, porque eu gosto de lá estar, pela relação que tenho com os outros profissionais de saúde, pela relação que tenho com os doentes, por sentir que o meu trabalho tem impacto, mas não consigo lá estar 40 horas com um bebé pequeno. Tenho que fazer um reajuste da minha vida. E é aí que temos um problema.

A redução de horário está prevista na lei, só que implica redução de ordenado. Pedi uma redução de horário de 40 para 30 horas por semana, mantendo o ordenado, de forma a conseguir fazer o meu trabalho sem pagar para trabalhar. O meu ordenado é 2700 euros brutos. Eu trago para casa à volta de 1700 líquidos. Gasto 500 a 600 euros em gasóleo e portagens.

Quero reduzir o tempo de trabalho para estar mais tempo com a minha filha, mas não posso reduzir o ordenado. Expliquei que não tenho condições para continuar lá nas mesmas condições. Aquilo que me foi dito foi que só tinham condições para responder no início do próximo ano. Não sou uma heroína, nem uma santa. Gosto de ser médica, gosto de ser neurologista, gosto de trabalhar no sítio onde trabalho, sinto que estou a desempenhar um papel importante, mas não recebo nenhum estímulo financeiro para fazer isto e isto tem implicações na minha vida do ponto de vista financeiro e familiar. A minha filha pode ser o preço que eu não vou pagar.

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