Uma ruptura total com a UE custaria a Londres mais de 73 mil milhões por ano

Libra voltou a cair a pique e bancos internacionais dizem que podem acelerar saída da City se Governo de Theresa May insistir num "hard Brexit".

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Pelo terceiro dia consecutivo, a libra caiu a pique, perdendo 2% face ao dólar PAUL ELLIS/AFP

O Reino Unido pode perder até 66 mil milhões de libras (73,2 mil milhões de euros) por ano se, como parece ser intenção do Governo de Theresa May, deixar a União Europeia sem uma garantia de acesso ao mercado único europeu ou um acordo comercial preferencial com os actuais parceiros europeus, avisa um relatório interno do Governo britânico.

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O Reino Unido pode perder até 66 mil milhões de libras (73,2 mil milhões de euros) por ano se, como parece ser intenção do Governo de Theresa May, deixar a União Europeia sem uma garantia de acesso ao mercado único europeu ou um acordo comercial preferencial com os actuais parceiros europeus, avisa um relatório interno do Governo britânico.

O documento, a que o jornal Times teve acesso, parte das previsões apresentadas em Abril pelo Ministério das Finanças, então liderado por George Osborne, traçando um cenário muito negro sobre as perspectivas económicas do Reino Unido caso os eleitores aprovassem (como aprovaram) a saída britânica da UE. As previsões foram classificadas como catastrofistas pelos apoiantes do “Brexit”, que viram a sua posição reforçada pelos sinais positivos dados pela economia britânica nas semanas que se seguiram ao referendo.

Apesar das críticas, escreve o jornal, o ministério mantém o essencial das previsões e no documento enviado aos vários ministros reafirma que um “hard Brexit” – termo adoptada para uma ruptura com as obrigações que garantem o acesso ao mercado único, nomeadamente a liberdade de circulação de pessoas – levaria a que 15 anos depois da saída, o Produto Interno Bruto britânico estivesse entre 5,4% a 9,5% inferior ao previsto, sendo o cenário médio uma quebra de 7,5%. Uma contracção que levaria o Tesouro “a perder entre 38 mil milhões e 66 milhões de libras por ano em receitas fiscais”.

Um porta-voz de Downing Street recusou confirmar a existência deste relatório, afirmando que os números vindos a público “não são novos”. “Não vou comentar argumentos requentados que foram feitos durante a campanha para o referendo”, afirmou a mesma fonte. O Governo está totalmente concentrado em obter “o melhor acordo possível” com os actuais parceiros europeus, sublinhou, e recusa “qualquer tentativa para fazer fracassar ou adiar o processo” de saída.

O jornal Guardian adianta que a fuga de informação irritou vários deputados favoráveis à saída que acusam os responsáveis técnicos do Ministério das Finanças de tentativas para criar alarme e dificultar a opção política por uma saída completa de todos os mecanismos ligados à UE. Ou, como afirmou o lorde trabalhista Stewart Wood, está criada a ideia de que o Ministério das Finanças, agora encabeçado por Philip Hammond, está a liderar “uma guerra de guerrilha dentro do Governo contra a opção do ‘hard Brexit’”.

Novos alertas

Mas não são só as Finanças a acenar com cenários pessimistas caso a primeira-ministra, Theresa May, opte por privilegiar a recuperação plena da soberania – a começar pelo controlo da imigração, o tema que dominou o referendo e continua a sobrepor-se a todos os outros – nas negociações que irá iniciar em Março do próximo ano.

Reunidos numa conferência em Londres, os responsáveis pelas divisões europeias dos maiores bancos internacionais juntaram-se ao coro de críticas, avisando que podem começar já no início do próximo ano a mudar parte dos seus escritórios para outros países da UE, se não houver garantias de que Londres vai batalhar pelo acesso ao mercado único europeu. “Não é uma coisa terrivelmente complicada. Se ficarmos fora da UE e não tivermos um compromisso estável e de longo prazo para aceder ao mercado único, então muitas coisas que fazemos agora em Londres terão de ser transferidas para a UE a 27”, disse à Reuters Rob Rooney, presidente executivo do Morgan Stanley.

E nesta terça-feira, pelo terceiro dia consecutivo, a libra voltou a cair a pique, perdendo 2% face ao dólar, estando a cotar-se ao final do dia perto dos 1,21 dólares, e mais de 1% face ao euro, estando a valer cerca de 1,09 euros.

Quebras acentuadas que o Governo minimiza, afirmando que a desvalorização da moeda torna mais competitiva a economia britânica – e, sinal disso, o principal índice da bolsa londrina atingiu nesta terça-feira um máximo histórico durante o dia. Mas os analistas olham para os últimos dias com receio. “A fraqueza da libra é realmente um sinal de que os investidores não têm confiança na economia britânica próx-Brexit”, disse ao Guardian Kathleen Brooks, da correctora City Index.