Luke Cage, a série mais negra da Marvel

A terceira aposta do Netflix no universo Marvel chega nesta sexta-feira. Um herói à prova de bala num bairro onde a ficção e a realidade se confundem tantas vezes.

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Luke Cage (à direita) apareceu pela primeira vez em Jessica Jones. Tem agora a sua primeira série Netflix
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Mahershala Ali (à direita) é o vilão Cornell Stokes, também conhecido por Cottonmouth Netflix
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Claire Temple (Rosario Dawson) é uma personagem bem conhecida de quem segue as séries Netflix/Marvel Netflix
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É a primeira vez que Mahershala Ali entra no género dos super-heróis Netflix
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Mike Colter tem sido elogiado pelo seu trabalho na série Netflix
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Simone Missick e Mike Colter Netflix
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A série é passada no bairro nova-iorquino de Harlem Netflix

Está a ser apelidada como a série mais negra da Marvel, não apenas pela sua história e tom pesado a seguir as pisadas de Demolidor e Jessica Jones, mas por Luke Cage, a terceira colaboração entre o Netflix e a Marvel, nos dar um dos primeiros heróis negros da gigante dos comics. Consigo, Cage traz a cultura do bairro nova-iorquino de Harlem e a história de uma comunidade. Actores e criador desvalorizam que a série chegue ao serviço de streaming num momento em que nos EUA se grita que as vidas negras importam e em que a indústria aponta o dedo à falta de diversidade.

Quando esta sexta-feira, Luke Cage, o herói que tivemos oportunidade de conhecer em alguns episódios de Jessica Jones, chegar ao Netflix, mais um passo será dado no entretenimento. Será, nada mais, nada menos, do que a primeira vez que um super-herói negro protagoniza uma série ou filme da Marvel. A responsabilidade recaiu sobre Mike Colter, de 40 anos, até agora um actor pouco conhecido com um vasto currículo em papéis secundários. Colter desvaloriza. Não quer ter esse peso às costas. “A verdade é que ou estás preparado para fazer o que tens de fazer ou não estás. O teu trabalho não muda porque passaste a ser o protagonista. É mais do mesmo, a diferença é que passas a fazer mais”, responde de forma simples, fugindo à questão de ser um super-herói à prova de bala num bairro onde ninguém o é e onde tantos são, na vida real, vítimas de violência policial.

“Tento não pensar nisso porque esses temas são pesados. Não gosto de tipificar ou pensar na grandiosidade que isso significa. Prefiro olhar para isto como mais um trabalho, se provavelmente me focasse nisso, mais depressa falharia”, diz Colter, em resposta ao PÚBLICO, sentado à mesa com mais jornalistas europeus. “Eu sei que parece que é um tópico quente nesta altura, mas sinceramente há quanto tempo é que se fala nisso? Não quero parecer que estou a dizer que estamos sempre a cantar a mesma canção mas não sei se alguma vez houve um momento em que não se tenha falado de como as minorias se sentem na América”, continua, não ignorando, no entanto, os problemas que a comunidade negra enfrenta hoje e que já levou tantos artistas a pedirem uma acção a Barack Obama.

Para Colter, o problema continua do lado da polícia que não se preocupa em estabelecer ligações nos bairros e nas zonas mais problemáticas. “Durante as patrulhas saem do carro para falar com as pessoas nas zonas onde não havia necessidade de o fazer. Quando vão para zonas mais pobres e complicadas já nem querem saber. E a verdade é que se nunca falarem com aquelas pessoas – como se chamam, o que fazem – nunca as verão como seres-humanos. Talvez por isso seja tão fácil disparar”, argumenta.

“Muitas das cenas foram escritas há um ano e meio. Não podes prever o que vai acontecer. O que podes fazer é olhar à volta e ver o que sempre aconteceu e tentar escrever sobre isso da melhor forma possível”, explica, por sua vez, o criador Cheo Hodari Coker, que prefere ver Luke Cage como “uma série inclusiva”. “Somos definitivamente uma série negra no sentido de ter um elenco negro e uma cultura negra mas fazemo-lo de uma forma que qualquer pessoa que a veja sinta que se encaixe em alguma coisa.”

Mas que não se perca o foco, alerta Cheo Hodari Coker, um antigo jornalista especialista em hip-hop. “Não nos esqueçamos que esta é uma banda-desenhada”, aponta, elogiando a Marvel por sempre ter olhado para a história contemporânea, não ignorando o que se passa.

Mahershala Ali, velho conhecido de House of Cards e aqui o vilão Cornell Stokes, ou Cottonmouth, opta também por se focar na banda-desenhada. “Eu acho que Luke Cage é a história de um herói relutante e o embrulho é a cultura negra. Não é sobre ser-se negro”, diz, ao mesmo tempo que Simone Missick (Misty Knight) defende que o que vamos ver no Netflix “é uma história sobre pessoas”. “Acontece que é repleta de pessoas que têm a pele escura”, brinca a actriz.

O mundo dos super-heróis é uma novidade para Ali e Missick. Nunca antes tinham trabalhado em nada do género, nem eram propriamente fãs desta banda-desenhada. “Ter a oportunidade de explorar um personagem com esta escala ao longo de 13 episódios tem sido uma recompensa tremenda”, diz Simone Missick, dando o mérito a Cheo Hodari Coker e à sua equipa de argumentistas por todo o trabalho de background. “Eles deram-nos toda a informação e depois o poder para criar o personagem, sem termos a necessidade de ler a banda-desenhada. Pudemos por isso abordar a história com um olhar fresco.”

PÚBLICO -
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Cheo Hodari Coker na rodagem Myles Aronowitz/Netflix

Por seu lado, Cheo Hodari Coker conhecia muito bem Luke Cage. “Era fã mas não obcecado.” O que vê como uma vantagem: não quis fazer tudo igual aos quadradinhos. A pressão para si foi outra: como igualar ou superar o sucesso das duas séries anteriores (Demolidor e Jessica Jones). “Não queria que a minha série não fosse tão boa como estas”, diz, contando ter lido com entusiasmo as primeiras críticas ao seu trabalho. Para já, são várias as publicações que arriscam escrever que esta é a melhor série Marvel/Netflix. “Não olho para a série como a melhor, diria que eu reagi ao que havia de melhor”, argumenta, com a esperança de que o público reaja da mesma forma que a crítica. “Se houver paixão suficiente pela série então teremos uma segunda temporada”, explica. “Neste momento, estou só feliz por ter a série certa no tempo certo.”

O PÚBLICO viajou a convite do Netflix

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