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Eles são solteiros e estão muito bem assim

Escolher ser solteiro é tão legítimo quanto casar ou ter filhos. Até porque ser solteiro não significa estar só.

Durante várias gerações impregnou-se a ideia, no que respeita às mulheres, de que ser-se solteira era sinónimo de “ficar para tia” como se se tratasse de uma condição que ia resistindo impávida e incólume ao passar do tempo. Para aquelas mulheres, permanecer só nunca foi uma opção — mesmo que fosse. Ninguém as queria.

Para os homens, o inverso. Davam-se ao luxo de gozar a vida (e as mulheres), de escolher casar ou ter filhos, de preferir não assumir compromissos. O livre arbítrio era um capital exclusivamente masculino — mesmo que, na realidade, ninguém lhes pegasse.

Mudam-se os tempos (e os verbos), percebem-se as vontades: viver só é diferente de sentir-se só. A independência/autonomia afectiva e a multiplicidade das experiências nas residências unipessoais são sinais evidentes das designadas sociedades líquidas do pós-modernismo em que as hierarquias e as tradições mais rígidas se vão esboroando.

A palavra “solteiro" determina tão-só um termo estatutário e não um estado de alma, um desamparo, um infortúnio. Dito de outra forma: num quadro de escolha, o copo da escova de dentes não é partilhável.

“Maria Silva” (nome fictício) está solteira há quase meio ano. Filha única, sempre se habituou a estar só e confortável no silêncio. No seu grupo de amigos, há vários na mesma situação, os tais que escolheram não ter um compromisso ou, por outro, que preferem estar sós a “mal acompanhados”.

Não se trata, no entanto, de um acto celibatário. Maria, não nega que, no futuro, possa ter uma companhia, “mas para me fazer abdicar deste conforto e liberdade, terá que ser alguém muito especial”. Até porque a médica de 33 anos, diz não experimentar a solidão.

“É uma opção muito lúcida”

Fátima Simão sente-se menos sozinha actualmente, enquanto solteira, do que na sua última relação, que durou quatro anos. É uma “opção muito lúcida” e trata-se sobretudo de uma questão de auto-estima, liberdade e conforto pessoal”.

Os amigos há muito que desistiram de forçar encontros/relações precisamente porque se aperceberam que esta é uma escolha, não é uma infelicidade. Reconhece o preconceito nos olhares alheios, embora cada vez a incomodem menos. No entanto, estar solteira não é um “statement”: “Se aparecer alguém, tudo bem, vamos ver. Não vivo centrada nisso”.

Aos 35 anos, Fátima já não acalenta a ideia romântica do “viveram felizes para sempre” e ser mãe não é uma prioridade.

Rosário Mauritti, socióloga e docente no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, abordou precisamente este tema na sua tese de doutoramento. Em “Viver Só”, a socióloga tece uma diferença bem clara entre “viver sozinho” e “estar só” ou “sentir-se só”: “Estas pessoas não se vêem a si próprias como sozinhas ou solitárias”, frisa em entrevista ao P3.

A sua amostra, composta por 36 indivíduos, revela perfis-tipo idênticos, com “laços familiares e amicais bastante fortes”, salientando-se vidas muito intensas, pautadas pela autonomia e equilíbrio, pouco permeáveis a cedências em termos de espaço, objectos e até calendário. As mono-residências conduzem ainda a processos de individualização, autonomia, emancipação.

A felicidade de estar só

Solteiro há dois anos, Flávio Rodrigues não se imagina a viver uma relação tradicional. “Se me voltar a apaixonar, o ideal será cada pessoa ter a sua casa; também não quero casar e prefiro não ter filhos”.

Flávio namorou durante dez anos e, nesta fase da vida, sente “necessidade de estar sozinho”. “Ter o meu próprio espaço, uma casa que pude decorar ao meu gosto sem ter que negociar quais vão ser os tapetes ou os lençóis da cama foi algo muito importante para mim. Imaginava muito como seria a minha casa e agora não me vejo a partilhá-la com ninguém”.

“Não vive só quem pode, vive quem quer”

Apesar do número de agregados unipessoais ter vindo a aumentar ao longo das décadas, em termos gerais, nesta matéria Portugal apresenta, depois de Malta, menor expressão do que qualquer outro país europeu.

Em 2015, segundo a Pordata, 59,4% dos suecos viviam sós, seguidos pela Dinamarca (43,9%), Finlândia (40,9%) e Alemanha (40,9%); em Portugal, apenas 21,6% da população não partilha o lar. Rosário Mauritti explica: “Nos países nórdicos, “sair de cada dos pais faz parte do ritual de passagem para a vida adulta. Esta auto-experimentação é até apadrinhada por todos — e Portugal não tem esse tipo de orientação cultural”. “Aqui, não vive só quem quer, vive quem pode”, conclui a socióloga.