A cada minuto sete mil beatas vão parar ao chão. Eles querem dar-lhes novos usos

Os esforços de várias associações portuguesas na recolha de beatas de cigarro do chão podem traduzir-se, em breve, em soluções de reciclagem e transformação sustentáveis. Protótipos estão já em marcha.

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Miguel Faria pertence à associação Portugal sem Beatas e fundou a Green Smokers Alliance Enric Vives-Rubio

Por minuto, o mercado mundial produz perto de 11 milhões de cigarros. Em Portugal, no mesmo período de tempo, sete mil beatas vão parar ao chão.

Mas estas beatas não são biodegradáveis. Dependendo das condições climatéricas e do terreno, vão-se decompondo, nunca na totalidade nem sem antes o filtro libertar cerca de 4700 substâncias. Acabam por se transformar em microplásticos e é uma questão de tempo até entrarem no ciclo da água e chegarem à cadeia alimentar: “Não só através da agricultura, mas também através dos animais que comemos, da carne ao peixe”, conta ao PÚBLICO Miguel Faria, um dos membros da associação Portugal sem Beatas.

Focados numa problemática que continua sem uma solução universal à vista, perguntam: o que fazer às beatas de cigarro? “Neste momento, podemos colocá-las no lixo, que por si só é uma redução da pegada ecológica inacreditável. Também podemos enviar para queima e desviar de aterro através da separação selectiva das beatas”, diz o mesmo responsável. Estas últimas soluções já são possibilitadas pela associação Green Smokers Alliance, da qual é fundador.

Esta “aliança de fumadores com consciência ambiental” funciona como uma plataforma de informação e comunicação e é através dela que se torna possível a troca de experiências e investigações entre várias associações internacionais na área.

Os números em cima viram-nos, através da Portugal sem Beatas, comprovados na rua. Em Lisboa, do jardim do Príncipe Real ao miradouro de São Pedro de Alcântara, 300 metros valeram aos dez voluntários duas horas de limpeza. Resultado: 13.000 beatas. Feira Nacional de Agricultura, em Santarém, nove dias: 40.000 beatas.

“Aceitação social”

“Há aqui uma clara aceitação social”, diz Paula Sobral, presidente da Associação Portuguesa de Lixo Marinho (APLM), de combate e consciencialização para o problema dos detritos nas praias e do lixo que se acumula nos oceanos. “É muito mais condenado quem atira uma garrafa ao chão, porque se vê com muita naturalidade que alguém fume e faça o mesmo com as beatas.”

É uma coisa pequena, “que passa despercebida” e encobre os próprios riscos de contaminação: “Depois de por lá ter passado todo o fumo, concentra muitos metais pesados e outras substâncias tóxicas que passam facilmente para as mãos de alguém alheio à situação”, descreve a também professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

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Há duas semanas, os voluntários de várias associações ambientalistas — APLM, Brigada do Mar, Portugal sem Beatas e Tara Recuperável —, apoiados pela Câmara Municipal de Setúbal e no âmbito do Programa Bandeira Azul 2016, estiveram uma hora na praia da Figueirinha, na serra da Arrábida. Resultado: mais 5000 beatas recolhidas do areal.

“As beatas são um dos itens mais encontrados nas praias europeias, principalmente nas do sul da Europa”, explica Paula Sobral. “Não é certamente por falta de caixotes do lixo. A maior parte do lixo que encontramos é devido ao mau comportamento e à negligência das pessoas”, acredita a especialista em Biologia e Ciências do Ambiente.

“Percebemos que esta questão é complexa e, para além disso, é transversal a todas as áreas: saúde, política, economia, ambiente, educação.” Foi neste cenário que Miguel Faria, de 37 anos, e os membros da Green Smokers Alliance começaram a trabalhar.

Beatões em linha

Na ideia que preside à associação está o objectivo de criar um ciclo sustentável de consumo de tabaco: aquele em que a beata, desde que é produzida enquanto cigarro, circula para o consumidor, é recolhida, transformada e depois volta para o mercado, explica.

Para além de terem em marcha um protótipo sustentável, acreditam que estão na iminência de criar um “novo mercado” — tudo assente em três fases essenciais. Primeiro, comunicar, através de acções de educação e sensibilização onde convidam a uma mudança de consciência sobre as beatas. Depois, recolhê-las, em parceria com a Sopinal, uma fábrica de equipamentos urbanos e metalurgia de Vale de Cambra, no distrito de Aveiro, que trabalha hoje num protótipo de uma linha de beatões (espécie de ecopontos para beatas já com marca registada) que há-de ser lançada em breve. A ideia passa pela separação selectiva das beatas para que estas não sejam colocadas em aterro. Por fim, querem transformar: encaminhar para composto de plástico — como já é feito pelos canadianos da Cigarette Waste Brigade — ou para queima são algumas hipóteses.

Miguel Faria destaca este poder calorífico das beatas de cigarro, que é equivalente, segundo estudos da Cimpor, ao da estilha de madeira. “Outras soluções que ainda reduzem mais a pegada ecológica estão na eminência de ser comunicadas”, afirma.

Os beatões de parede, de pé, comunitários ou depósitos são alguns dos protótipos que estão na forja. O desafio agora é trabalhar numa forma de recolha em larga escala que permita obter um volume de beatas que assegure a eficácia do sistema. Mais tarde, a intenção é que cheguem aos cafés, às empresas ou instituições bancárias, quem sabe até aos espaços públicos e às ruas.

E se com os beatões querem actuar ao nível da comunidade, é possível que essa acção seja também individual através dos porta-beatas, já distribuídos e popularizados em praias, festivais de Verão e noutros eventos. Cada porta-beatas — um pequeno cilindro de plástico — pode conter até 15 beatas e é reutilizável.

Este projecto não é pioneiro, nem essa é uma prioridade dos criadores portugueses. No Brasil, a Rede Papel Bituca, constituída por Organizações Não-Governamentais e empresas sociais, recolhe e encaminha as beatas para reciclagem, onde estas são transformadas em papel. Tal como no Canadá, que, com mais de cem beatões, transforma as beatas separadas pelos cidadãos em vários produtos industriais.

Para Miguel Faria, agora é tudo uma questão de escala: “Desde os tempos de garagem que percebemos que, se íamos criar uma solução, esta solução teria que ser fácil de implementar em Portugal e em qualquer lugar do planeta.” Com uma condição: “Vamos fazer tudo em Portugal.”