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"Cruising": sexo grátis, consensual e anónimo em locais públicos

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Tendo em conta as mudanças de paradigma que ocorreram no plano das relações humanas nas últimas décadas - nomeadamente no campo sexual e amoroso, com o desenvolvimento da tecnologia -, existe um fenómeno que os fotógrafos Katia Repina e Luca Aimi consideram necessário abordar: o "cruising". Em que consiste? Em, nada mais, nada menos, que sexo gratuito, consensual e anónimo praticado entre homens em espaços públicos, tais como parques, matas, praias, parques de estacionamento. Os intervenientes não se conhecem e recorrem a estes locais para obter satisfação sexual imediata e desprendida. Alex tem 42 anos é pratica o "cruising" desde os 18. Em entrevista aos fotógrafos autores do projecto "I Don't Need To Know You" confessou: "Acredito que existe muita obscuridade, mas no sentido romântico da palavra. O que se esconde à distância, atrás da vegetação da floresta? Sexo, sim, mas também o desconhecido. É disso que gosto." A adrenalina é um dos factores motivadores desta prática, no entanto, existem outras explicações para o fenómeno. Katia Repina, em entrevista ao P3, via Skype, esclarece: "A prática do 'cruising' responde à necessidade de criar espaços onde uma minoria da população possa satisfazer os seus desejos individuais sem justificações e sem dispêndio de dinheiro. Muitos dos que frequentam os locais fazem-no por não haver outro espaço que cumpra os mesmos requisitos." Embora as interacções de natureza sexual decorram exclusivamente entre homens, "não existe nestes locais um espírito de identidade homossexual colectiva", como acontece com bares, discotecas e saunas gay. Aliás, "alguns dos participantes, embora tenham efectivamente relações sexuais com outros homens, afirmam-se heterossexuais, declaram desinteresse por outros homens e opõem-se activamente a ser identificados como homossexuais". Nestes momentos, encaram as suas acções como um desvio do seu padrão comportamental. "Muitos têm mulher, filhos, são casados ou têm namorada. O facto de não frequentarem bares ou saunas gay permite-lhes, internamente, evitar esse rótulo." "É uma espécie de alívio de consciência", esclarece Repina. A frequência dos locais de "cruising" está associada ao silêncio, ao secretismo, ao medo de se ser descoberto, mas também a sentimentos positivos. Francesc pratica "cruising", em Barcelona, há vinte anos e explica: "vir a este local faz-me sentir mais auto-confiante". "Toda a gente tem locais de 'engate' - algumas pessoas vão para as saunas, mas para mim vir para cá funcionou exactamente como pretendia. Por exemplo, numa sauna tenho apenas uma toalha pequena à minha volta e todos olham para o meu corpo. Fazia-me sentir embaraçado. Aqui, se não arranjar ninguém numa noite, não me sinto tão mal." Tal como a maioria dos praticantes de "cruising", Francesc não sente orgulho no que faz. "Tenho amigos, mas não lhes digo que venho cá porque tenho medo que me rejeitem, medo que me digam que sou promíscuo ou que sou um prostituto. Muitas vezes, sinto-me prestes a contar-lhes, mas tenho medo. Continuo a ter muito medo." O "cruising" existe em todo o mundo e Portugal não é excepção. Em Barcelona, onde Katia e Luca desenvolveram o projecto, o "cruising" nasceu graças à opressão de Franco contra a comunidade homossexual. "Dantes não lhe davam este nome, diziam apenas que iam ao parque." O projecto "I Don't Need To Know You" ("Não É Preciso Conhecer-te", tradução livre) existe para "revelar uma prática sexual que é para muitos desconhecida, para dar voz às pessoas que se escondem por medo de ser reconhecidas e incompreendidas". "Conhecer estes homens e ouvir as suas histórias faz-nos entrar num mundo onde impera a excitação, o medo, a adrenalina, a dúvida, a vergonha (ou a sua ausência), o silêncio, o segredo, a curiosidade... No final de contas, são estas as emoções que nos fazem sentir vivos." O projecto será divulgado brevemente sob forma de filme, instalação de vídeo e fotolivro. Katia Repina publicou anteriormente, no P3, o projecto "Hacia el Porn", também com enfoque no tema da sexualidade. Ana Marques Maia