O RAP veio para ficar

Ricardo Araújo Pereira subiu ao palco da Festa Literária Internacional de Paraty e fez humor inteligente. Conquistou o público com a ajuda de Gregorio Duvivier e de Tati Bernardi

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Ao terceiro dia, a 14.ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) aconteceu. Para isso bastou juntar no palco três “mestres do humor em língua portuguesa”. Assim foram apresentados, pelo curador Paulo Werneck, a cronista e argumentista brasileira Tati Bernardi (autora do livro Depois a Louca Sou Eu), o humorista português Ricardo Araújo Pereira e a moderar a conversa entre os dois, o poeta e humorista brasileiro Gregorio Duvivier, do Porta dos Fundos. De chorar a rir.

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Ao terceiro dia, a 14.ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) aconteceu. Para isso bastou juntar no palco três “mestres do humor em língua portuguesa”. Assim foram apresentados, pelo curador Paulo Werneck, a cronista e argumentista brasileira Tati Bernardi (autora do livro Depois a Louca Sou Eu), o humorista português Ricardo Araújo Pereira e a moderar a conversa entre os dois, o poeta e humorista brasileiro Gregorio Duvivier, do Porta dos Fundos. De chorar a rir.

A sessão Mixórdia de Temáticas aconteceu era já noite em Paraty, seguiu-se a uma das mesas mais esperadas do evento, há muito esgotada, o encontro com o autor de A Minha Luta, Karl Ove Knausgård. Mas se na conversa entre o jornalista Ángel Gurría-Quintana (que acaba de traduzir para inglês O Retorno de Dulce Maria Cardoso) e o escritor norueguês não ecoaram gargalhadas pela Tenda dos Autores, na dos outros três, que também ficou lotada, houve do princípio ao fim risos, aplausos e choro. 

Primeiro havia Duvivier que todos conhecem de outros carnavais, ovacionado à entrada, e que abriu o debate com um “boa noite a todos” deixando escapar logo a seguir um “Fora Temer!”, referindo-se ao Presidente Interino do Brasil, Michel Temer. “Nunca me chamaram para moderar nada e deve ser por isso, para começar o moderador deve ser moderado. Coisa que não sou muito”, brincou. Só a apresentação que Duvivier fez dos convidados dava dois belos prefácios de livros, daqueles que fazem rir de verdade. 

Logo a seguir a cronista da Folha de S. Paulo, Tati Bernardi estava rouca e avisou: “Eu queria dizer que esta não é a minha voz, a minha voz é menos sensual. Eu ia fazer uma piadinha a dizer que essa minha voz é de tanto gritar ‘Fora Temer’ mas na verdade fiquei nervosa porque sou uma pessoa nervosa. Sonhei há três dias que ficava sem voz na FLIP e acordei sem voz.” 

E se ao ler os textos sobre ataques de pânico e fobias de Tati, Gregorio ri e chora ao mesmo tempo e pensa “eu não sou assim tão louco”, quando reflecte sobre aquilo que os brasileiros perdem de Portugal, de tudo o que mais o entristece é o desconhecimento de RAP, que “criou o Porta dos Fundos português, só que mais engraçado e dez anos antes”, elogiou. “O meu sonho é que Ricardo fosse americano, assim seria muito lido no Brasil, não teria a tal barreira da língua.” Gargalhadas na plateia, e mais uma piada onde entra a palavra Presidente: “Ricardo é um cara que faz rir como um palhaço mas é levado a sério como um Presidente, caso o Presidente fosse levado a sério.”

Quota pobre da alegria

Tati Bernardi soube que era engraçada quando descobriu que era feia na escola e, para sobreviver, era a engraçadinha da turma. Na idade adulta isso continuou, “virou entretenimento de rico”: “Os ricos fazem uns jantares e me chamam para ser engraçada, eu virei uma espécie de quota pobre da alegria em jantar de ricos.” 

Diz que uma das razões para não ser muito normal é ter sido durante muito tempo filha, neta e sobrinha única. Na adolescência era uma miúda “hilária” mas “tinha o corpo todo errado” por isso, entre matar-se ou ganhar dinheiro com isso, resolveu ganhar algum dinheiro com isso. 

Uma história parecida com a de RAP que “sempre soube que não era o filho preferido dos pais” com um problema acrescido: é filho único. Por causa da profissão dos pais, tripulantes de bordo, o português passou grande parte da sua infância em casa da avó, que tinha vivido em São Paulo até ao dia em que o marido saiu de casa de manhã e voltou à noite dentro de uma caixa. “Não era uma brincadeira, tinha morrido”, disse RAP muito sério provocando risos na sala. E a sua carreira, não se cansa de dizer e na FLIP embargou-se-lhe a voz ao dizê-lo, deve-se às tentativas que desde pequenino fazia para que essa avó, uma viúva aos 39 anos, se risse. 

Quando Gregorio lhe perguntou se sente que fazer rir brasileiros é diferente, respondeu que quando improvisa há algumas dificuldades na compreensão de algumas palavras. Mas aproveitou para declarar mais uma vez o seu amor à língua portuguesa. “Eu não conseguiria viver nem pensar direito se eu falasse uma dessas línguas bárbaras como o inglês e o francês, em que não distinguem o 'ser' do 'estar'. Como é possível viver sem distinguir 'ser' e 'estar'? São povos inteiros que não entendem a diferença entre ser bêbado e estar bêbado”. Gargalhadas. 

Por sua vez, Tati defendeu ter ouvido muito ao longo da vida que as mulheres engraçadas não são sensuais. “Mas eu tenho mais tesão em ser engraçada do que sexy. O humor desnuda muito a mulher. Se tem aquele jogo de querer se misteriosa, desvendada, no humor você está pelada, flácida, cortada em praça pública. Ainda tem muito homem que acha a mulher engraçada não sexy. Eu quero que eles se fodam”, e houve aplausos na plateia.

“O riso é a maneira que a gente encontrou para suportar o mundo que é demasiado pesado, sendo o homem o único animal que ri e o único que sabe que vai morrer”, disse Ricardo, que deu uma lição de história do humor falando da Bíblia - Deus não se ri e Jesus Cristo chora duas vezes e não se ri vez nenhuma -, de São Lourenço, de Umberto Eco, de Freud, Woody Allen, etc, concluindo que “ir a rir para a cova é a única maneira de se viver, porque todos morremos mas vivemos melhor sem medo da morte, com o riso.” Recentemente passou a frequentar um analista, por diversas razões, entre as quais para perder alguma da tensão que lhe “tolhe a criatividade”. Não acredita que o humor pode mudar o mundo porque ninguém se lembra “da piada que acabou com a escravatura” ou da piada “que acabou com a II Guerra Mundial…” Não quer ser pregador, não quer evangelizar as pessoas. Quer fazê-las rir. Citou a Bíbilia dizendo que os apóstolos são o sal da terra que impede a corrupção. “Acho que os humoristas são o orégão da terra. A corrupção continua, a gente não pode fazer nada. A gente só dá um saborzinho que torna mais fácil engolir.”

O país da Quaresma

Mas se ao longo da sessão, pouco a pouco foi “roubando a cena” no palco, deixou o público brasileiro arrebatado no momento das perguntas sobre a situação política do Brasil. “Vista de Portugal” a situação do Brasil era a tramada, “a Presidente era acusada de uma ilegalidade, o ex-presidente era acusado de uma ilegalidade, o presidente do parlamento era acusado de uma ilegalidade…”, disse, sendo interrompido por Tati, que lembrou que “o japonês que prendia todo o mundo era acusado de uma ilegalidade”… Concluiu Ricardo: os brasileiros sabiam que “quem governou, governa ou há-de governar, em princípio, está acusado de uma ilegalidade. É surpreendente que o Brasil seja o país do Carnaval, porque o Carnaval nos outros países serve para fazer um intervalinho de loucura. Há um momento do ano em que as pessoas decidem fingir que o mundo é todo virado ao contrário. O Brasil, para mim, devia ser o país da Quaresma. Durante duas semanas vocês comportavam-se… e depois voltavam [à loucura].”

Era o final, ouviu-se um enorme "Ooooh!" da plateia, as pessoas levantaram-se em ovação e Gregorio rematou: no momento em que “os políticos nos fazem rir, a função dos humoristas é fazer pensar.” 

Entretanto, lá fora, a fila para os autógrafos ia aumentando: brasileiros maravilhados com as crónicas de RAP em edição portuguesa e brasileira nas mãos. Para Eglanise Sousa Almeida, professora de línguas da Bahia, foi a melhor conferência do dia. Gilda, representante de vendas, sentou-se em frente ao ecrã onde é transmitida gratuitamente a sessão e já não conseguiu sair dali. “Nada do que ele falou eu tinha ouvido, é tudo muito novo”. Maria Luquet, jornalista, repara que RAP é ateu. mas também um estudioso. Margareth Lopes, nutricionista aposentada, diz: “As sacadas do humor inteligentes que ele produz são extraordinárias.Chorei de rir com o lance do Carnaval”. Boanerges Lopes, professor universitário, lembra que “as referências que ele cita ficam bem mais leves, mais instigantes, e produz uma visão crítica também". É um “humor refinado” a que não estão habituados. Regina Andrade, professora de Português, ficou encantada com toda a sua abordagem. “Ele é muito consistente”, diz. E Joaquim Rui, português que vive no Brasil há 40 anos, confirma: “Não estamos habituados a um humor, profundo, inteligente. O humor hoje no Brasil é escrachado.” O RAP veio para ficar.