Rei Lear, uma tragédia dos nossos dias

Jorge Pinto é o rei Lear na nova produção do Ensemble. Que é também a primeira incursão (profissional) de um dos mais veteranos encenadores portugueses, Rogério de Carvalho, no universo de Shakespeare.

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Jorge Pinto é o rei Lear na nova produção do Ensemble, com o Teatro Nacional São João e o Teatro Municipal de Bragança Nelson Garrido

O rei Lear, esse monarca velho e egocêntrico que acredita que o amor dos mais próximos se pode medir pela exuberância das palavras, e acaba cego e enlouquecido pela teia das suas próprias decisões, é uma das personagens da faustosa galeria shakespeariana mais procuradas pelos grandes actores do teatro como do cinema mundial. Lawrence Olivier, Paul Scofield, Ian McKellen, ou, mais próximo de nós, Ruy de Carvalho incluíram-no no seu “palmarés” artístico. Agora chegou a vez de Jorge Pinto, que encarna o protagonista de uma das mais famosas peças de William Shakespeare (1564-1616) na nova co-produção Ensemble/Teatro Nacional São João (TNSJ)/Teatro Municipal de Bragança, que esta quinta-feira se estreia no palco portuense.

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O rei Lear, esse monarca velho e egocêntrico que acredita que o amor dos mais próximos se pode medir pela exuberância das palavras, e acaba cego e enlouquecido pela teia das suas próprias decisões, é uma das personagens da faustosa galeria shakespeariana mais procuradas pelos grandes actores do teatro como do cinema mundial. Lawrence Olivier, Paul Scofield, Ian McKellen, ou, mais próximo de nós, Ruy de Carvalho incluíram-no no seu “palmarés” artístico. Agora chegou a vez de Jorge Pinto, que encarna o protagonista de uma das mais famosas peças de William Shakespeare (1564-1616) na nova co-produção Ensemble/Teatro Nacional São João (TNSJ)/Teatro Municipal de Bragança, que esta quinta-feira se estreia no palco portuense.

Jorge Pinto, co-fundador do Ensemble – Sociedade de Actores, em 1996 – assinalam-se agora os 20 anos –, começa, de algum modo, por “desdramatizar” a importância desta sua nova aventura pelo universo shakespeariano – que já experimentara em Hamlet (encenação de Ricardo Pais, 2001) e em A Tragédia de Coriolano (encenação de Jorge Silva Melo, 1998). “Há 40 anos, eu gostava muito da peça, mas não pensava em fazê-la”, recorda o actor ao PÚBLICO, no intervalo de um dos últimos ensaios de Rei Lear, com encenação de Rogério de Carvalho.

“Eu tinha apenas a ideia muito vaga de que gostaria, um dia, de conseguir alguma proeminência num elenco qualquer numa cidade do país”, acrescenta o actor. E recua até aos anos 70, aos tempos em que era um jovem intérprete do Teatro Experimental do Porto, para recordar esse sonho de vir a ter uma carreira duradoura no teatro. “Nessa altura, éramos visitados por grupos ingleses, e o que eu mais admirava neles é que tinham actores de todas as idades, enquanto nós fazíamos o teatro todo com gente de 20 anos…”.

Com uma carreira de mais de quatro décadas – em que tem dividido o trabalho sobre o palco com o de encenador e também de tradutor –, Jorge Pinto chega agora ao patamar do rei Lear. E fá-lo pela mão de Rogério de Carvalho, o encenador com quem dividiu já duas décadas de teatro, e quatro outras produções com a chancela do Ensemble: Cais Oeste, de Bernard-Marie Koltès (1999); O Cerejal, de Tchékhov (2007); e O Avarento (2009) e O Doente Imaginário (2012), ambos de Molière – o primeiro destes mantendo-se ainda em cena e em circulação regular pelo país.

Primeiro Shakespeare

“Um dia, estávamos a caminho de Bragança, onde íamos apresentar O Doente Imaginário, e o Rogério [de Carvalho] virou-se para nós e disse-nos: ‘Está na altura de fazermos o Rei Lear!’", conta Emília Silvestre, actriz também fundadora do Ensemble, e que nesta nova produção fica atrás do palco a prestar assistência à encenação do director com quem a companhia construiu, nos últimos anos, uma empatia especial. E isso explica – acrescenta Emília – por que razão Rogério de Carvalho, 70 anos e várias décadas de carreira teatral, só agora faz a sua primeira encenação profissional de uma obra de Shakespeare – descontando um exercício pedagógico com alunos do Conservatório, a partir de Hamlet.

“É muito engraçado, de facto, que o Rogério nunca tenha feito nenhum Shakespeare. É uma daquelas coisas que não se percebem. Ele próprio é muito tímido e humilde em relação a certo tipo de obras – será por isso que não avançou mais cedo”.

A confirmar a timidez do encenador esteve, uma vez mais, a sua indisponibilidade para falar aos jornalistas sobre o seu trabalho, mesmo que se encontrasse na plateia do TNSJ a dirigir o ensaio. Dele ficámos a saber apenas, através do programa de sala, que vê em Rei Lear “uma abundância de vida magnificamente concentrada (...): não nos encontramos perante homens e mulheres, mas perante toda a humanidade”.

Escrita em 1605 e editada, em versões diferentes, em 1608 e 1623, a peça é essa história exemplar de um monarca que decide distribuir o seu reino pelas três filhas, mas depois deserda a mais nova por considerar que ela lhe faltou no tamanho do amor que reivindicava. “Amo vossa majestade conforme o meu dever, nem mais, nem menos”, responde-lhe apenas Cordélia – e a tragédia começa aqui a fazer o seu caminho…

Microcosmo

Para Rogério de Carvalho, o texto de Shakespeare “é um microcosmo da espécie humana, pela sua envergadura, profundidade e plano de existência que o destino proporciona": "Na sua complexidade, no jogo interno dos seus propósitos, na sua evolução dramática, é uma visão trágica do homem: a sua finitude”.

Ou seja, uma peça profundamente actual, concordam Jorge Pinto e Emília Silvestre. O actor-protagonista nota que “a natureza humana é a mesma” de há 400 anos, e as personagens de Rei Lear são facilmente reconhecidas como tipos: o rei, as filhas do rei, os príncipes, as lutas palacianas pelo poder… “O espectador transporta-se para a zona do comportamento humano mais geral” – diz Jorge Pinto –, que podemos associar aos nossos dias, nos governos, nas administrações dos bancos, nas famílias…". “A peça fala do comportamento das pessoas, das suas escolhas, das suas traições, do que acham que é muito nobre, mas também daquilo que não se importam de trair para conseguir", acrescenta.

Emília Silvestre vai mesmo mais longe na associação com os dias de hoje – com o “Brexit”, por exemplo: “Como a decisão arrogante de um rei conduz um reino que estava unido e em paz à destruição total, à guerra e às mortes com que ela acaba."

O Rei Lear que agora sobe ao palco do TNSJ, a partir de uma tradução nova de Fernando Villas-Boas, aposta tudo no texto de Shakespeare, sem qualquer carga de cenografia. Tem uma encenação depurada, minimal, “à Rogério de Carvalho”, nota Emília Silvestre, referindo-se ao facto de ele fazer o espectáculo “muito em cima dos actores, sem artifícios nem fogo-de-artifício”, assumindo aquilo que a actriz-agora-assistente-de-encenação considera uma estética “muito beckettiana, de limpar tudo o que está a mais”.

No palco do TNSJ, Rei Lear vai ficar até 17 de Julho, estando já agendadas datas para apresentação da produção em Almada, a 24 de Setembro, e em Bragança, no dia 29 desse mês.