Opinião

As origens marxistas do fascismo: entre a ficção e a realidade

1. Uma recente Prova dos factos (ver “O fascismo tem mesmo origem no marxismo?" in PÚBLICO 25/05/2015, https://www.publico.pt/politica/noticia/o-fascismo-tem-mesmo-origem-no-marxismo-1733049) suscitou-me particular curiosidade. O texto relacionava-se com afirmações efectuadas pelo jornalista e autor de obras de ficção histórico-política José Rodrigues dos Santos (J.R.S.) a propósito do seu mais recente livro, O Pavilhão Púrpura. Numa primeira entrevista, ao jornal i, em resposta à questão “Descobriu algo sobre o início dos totalitarismos que o tivesse surpreendido?”, J.R.S. respondeu: “Uma das coisas que hoje não se sabe, mas que é verdadeiro, é que o fascismo é um movimento de origem marxista. Pouquíssima gente sabe isto.” (Ver “Como não há os livros que gostaria de ler, escrevo-os eu” in jornal i, 20/05/2016 http://ionline.sapo.pt/artigo/511113/jose-rodrigues-dos-santos-como-nao-ha-os-livros-que-gostaria-de-ler-escrevo-os-eu?seccao=Portugal_i). Numa segunda entrevista ao Diário de Notícias reafirmou a mesma ideia: “Continuo a escrever livros polémicos (…). O facto de que o fascismo é um movimento que tem origem marxista, por exemplo, é uma das demonstrações feitas nesta saga que poderá parecer polémica.” (ver “O fascismo tem origem marxista", 24/05/2016, http://www.dn.pt/artes/interior/jose-rodrigues-dos-santos-o-fascismo-tem-origem-marxista-5189844.html). Em reacção às críticas de que foi objecto — e, provavelmente, também à Prova dos factos do PÚBLICO que considerou a sua afirmação falsa —, J.R.S. publicou um artigo (ver “O fascismo tem origem no marxismo”, in PÚBLICO 29/05/2016, https://www.publico.pt/politica/noticia/o-fascismo-tem-origem-no-marxismo-1733362). Nele explica, com algum detalhe, os argumentos em que se baseia. Termina afirmando o seguinte: “Os meus críticos limitaram-se a constatar que os fascistas se descreviam como anti-marxistas — e assim foi a partir de certo ponto. Mas isso nada me desmente, porque nunca disse que os fascistas, na sua fase já amadurecida, eram marxistas. O que eu disse, e repito, é que o fascismo é um movimento de origem marxista — o que é verdade.”

2. Nunca li qualquer livro de J.R.S., nem conheço O Pavilhão Púrpura. Não me interesso por esse tipo de obras. O que me surpreendeu foi que, através de um livro de ficção, com maior ou menor qualidade literária — os seus leitores poderão pronunciar-se sobre isso —, o autor pretenda provar a ideia de que “o fascismo é um movimento que tem origem marxista”, invocando a pesquisa efectuada para essa narrativa. J.R.S. reconhece que “a afirmação contradiz ideias feitas e por isso precisa de ser fundamentada”. Segundo este, isso “é feito ao pormenor em As Flores de Lótus e em O Pavilhão Púrpura”. Mas uma primeira objecção de fundo é sobre o meio escolhido para fazer essa prova. Só uma investigação em profundidade e publicação de cariz científico permite fazer tal prova. Não é com uma obra criativa de ficção, independentemente dos seus méritos, que isso se faz. Esta, mesmo que bem escrita e baseada em factos histórico-políticos, não permite referir, com a minúcia e detalhe adequados, os documentos consultados, a bibliografia usada e apresentar uma tese interpretativa. Furta-se aos critérios científicos usuais, nada provando, pelo menos para quem tenha espírito crítico e/ou treino científico. (Ver a crítica contundente de António Araújo, “O fascismo é quando um homem quiser” in PÚBLICO 30/05/2016, https://www.publico.pt/politica/noticia/fascismo-e-quando-um-homem-quiser-1733440). Na melhor das hipóteses, poderá divulgar, para o indivíduo comum, uma tese de outros (e alimentar polémica que atraia atenção sobre o livro). Mas há um aspecto que merece análise — e vai muito além deste caso —, que é o da ambição, que se detecta também em J.R.S., de usar obras criativas como forma de influenciar o pensamento do público.

3. No cinema de qualidade temos um exemplo interessante que é o caso de JFK, o filme de 1991 de Oliver Stone. O realizador é prestigiado e o filme de inquestionável qualidade cinematográfica. No entanto, a narrativa, a qual sugere a implicação do então vice-presidente, dos EUA, Lyndon B. Johnson, na conspiração que terá levado à morte de John F. Kennedy em 1963, é especulativa nessa parte. A questão que vem à mente é esta: Oliver Stone usou essa narrativa para fins puramente cinematográficos, ou pretendeu difundir a sua tese política aos espectadores, sem ter de efectuar um difícil e fastidioso trabalho de investigação e apresentar provas? Ao nível da ficção de massas, e sem qualquer qualidade literária assinalável, um exemplo clássico é o Código da Vinci de Dan Brown. Não sei qual era o objectivo do autor, se criar apenas uma narrativa ficcional com grande sucesso de vendas, ou mais do que isso. Em qualquer caso, fazer um trabalho de investigação científica sobre a vida de Jesus Cristo e os Evangelhos, para tentar provar a verdade oculta que sugere a sua ficção, seria certamente muito mais moroso e difícil. Podemos imaginar as exigências de tal investigação, por exemplo, em línguas mortas e métodos históricos e arqueológicos, para aceder à leitura de documentos da Antiguidade, datá-los com rigor, estabelecer a sua autenticidade, etc. Além do mais, estaria sujeito ao escrutínio minucioso e à crítica pelos seus pares. Uma narrativa, misturando, de forma intrincada, factos históricos e outros de ficção, que seduza as massas, pode resolver o assunto com grande vantagem. Se for um êxito comercial, chega a muito mais gente do que os trabalhos académico-científicos. Assim, pode ser usada, de forma mais ou menos subtil, como meio de promover causas, difundir ideias políticas, históricas ou outras. As imagens são poderosas e ficam gravadas na memória. Um livro que incuta nos leitores, sem esforço de estudo, a sensação de revelação de uma verdade oculta é algo poderoso. No limite, o autor pode sempre esquivar-se às críticas invocando a liberdade criativa.

4. Quando pesquisamos com profundidade na história das ideias políticas, não é invulgar encontramos surpresas inesperadas. No caso do fascismo, pode haver também algumas surpresas, sobretudo para os não especialistas. É verdade que há uma história estranha do percurso de Benito Mussolini e do seu ideário, inicialmente marxista heterodoxo, o qual é relativamente mal conhecida do público. É defensável argumentar que essa trajectória não foi um aspecto menor na génese de certas características, mais tarde (re)incorporadas pelo fascismo: a oposição à democracia liberal-parlamentar, o partido único, a ideia de uma vanguarda para guiar as massas, etc. Percebe-se também que mexer nesta faceta pode ser incómodo para os que sustentam que fascismo e marxismo não têm qualquer ponto de contacto. Mas tudo depende da forma como isso é feito. Essa é a segunda objecção de fundo à abordagem de J.R.S. As origens do fascismo são complexas, multifacetadas e contraditórias. Explicá-la, apenas, por influências do marxismo é levar longe de mais o argumento e enviesar a compreensão do assunto. Incorporam, desde logo, influências como o movimento futurista de Filippo Marinetti, os escritos de Gabriele D'Annunzio e o pensamento de Giovanni Gentile, mais tarde conhecido como “o filósofofo do fascismo”. São aspectos fundamentais na sua configuração, cuja origem não se pode fazer remontar ao marxismo. O assunto só é explicado de forma adequada com as nuances, subtilezas e contextualizações necessárias que, tipicamente, apenas as melhores obras académico-científicas fazem. O problema é que, para o público em geral, essas são leituras difíceis, cheias de referências desconhecidas e de notas de rodapé, que requerem tempo e paciência. Por vezes, nem sequer estão acessíveis na língua do leitor. Fora os especialistas, a poucos mais interessam.

5. No artigo do PÚBLICO J.R.S. recorre a George Sorel, Otto Bauer e Roberto Michels, sobretudo ao primeiro, para justificar as origens marxistas do fascismo. Afirma que “foi o marxismo soreliano que conduziu ao bolchevismo e ao fascismo”. Essa afirmação sugere que encontrou essa ideia algures nas pesquisas para O Pavilhão Púrpura. No caso das origens do fascismo existe, em várias línguas, com maior ou menor qualidade, uma vasta literatura académico-científica especializada. Apenas posso conjecturar sobre a que J.R.S. consultou — não foi explicitada no seu artigo —, mas a consistência dessa afirmação passa pela credibilidade das fontes e autores usados. Aspecto importante, não se trata, aqui, apenas de estabelecer factos relevantes mas também de interpretações, ou seja, de diferentes teses explicativas. Importa notar que há teses académico-científicas de historiadores e politólogos sobre o fascismo que acentuam os paralelismos com outros radicalismos e totalitarismos, especialmente os de origem marxista-leninista e estalinista. Aparentemente, essas ideias inspiraram a concepção de O Pavilhão Púrpura. É perfeitamente aceitável que possam ser usadas numa obra ficcional em que autor pretende chamar a atenção do público para o assunto. O problema começa quando se pretende ter o melhor de dois mundos: a liberdade criativa e emoções da ficção literária e o rigor científico e minúcia de um tratado de História ou de Ciência Política. Não é possível fazê-lo. Pode-se é criar essa ilusão nos leitores.

6. Os livros de A. James Gregor,  professor emérito de Ciência Política da Universidade da Califórnia, Berkeley, são, provavelmente, aqueles que mais longe levam a comparação e similitudes entre as diferentes formas de radicalismo político. E também da diluição da fronteira entre direita e esquerda neste assunto. Naturalmente que são discutíveis, como todas as teses, mas dão um contributo relevante no debate sobre o fascismo. Não sei se foi aí que J.R.S. foi buscar a sua explicação sobre as origens marxistas do fascismo. Se foi, não o fez da melhor forma. (Para os interessados, ver Marxism, Fascism & Totalitarianism. Chapters in the Intellectual History of Radicalism, Stanford University Press, 2009. Ver também, Faces of Janus: Marxism and Fascism in the Twentieth Century, Yale University Press, 2004). Mas livros como os de A. James Gregor são a tal literatura especializada que poucos conhecem e menos ainda leram. Numa sociedade em que o mercado e o superficial dominam, o vazio é preenchido por autores interpostos. No fundo, este é mais um caso em que a ficção se mistura com a realidade, enviesando a sua compreensão. Uma obra de ficção literária vale essencialmente pelo seu lado criativo. Não deve ter a pretensão de provar nada, mesmo quando baseada em factos históricos.

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