Partido Republicano faz de exorcista para livrar Donald do seu trumpismo

Líderes temem derrota histórica nas eleições gerais e um efeito de contágio nas eleições para o Congresso. Partido pressiona Trump a mudar de discurso, mas o candidato não admite ser controlado.

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Quem está preocupado com a ideia de ver Donald Trump debruçado sobre uma secretária na Sala Oval da Casa Branca a telefonar a vários líderes mundiais, em busca do melhor negócio possível para tornar a América grande outra vez e sem cedências às tentações de uma linguagem politicamente correcta, pode sentir algum conforto por saber que não está sozinho. Ou sozinha.

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Quem está preocupado com a ideia de ver Donald Trump debruçado sobre uma secretária na Sala Oval da Casa Branca a telefonar a vários líderes mundiais, em busca do melhor negócio possível para tornar a América grande outra vez e sem cedências às tentações de uma linguagem politicamente correcta, pode sentir algum conforto por saber que não está sozinho. Ou sozinha.

Apesar de ter assegurado a nomeação pelo Partido Republicano na semana passada, após a desistência do que restava da sua oposição nas eleições primárias, o magnata do imobiliário e antiga estrela da televisão é agora o representante de uma organização que é cada vez menos um partido e cada vez mais um puzzle quase impossível de montar – não por falta de peças, mas porque as peças são muitas e muito distintas, de outros quebra-cabeças que os conservadores tradicionais pensavam estar arrumados nas prateleiras do comodismo e da raiva silenciosa.

Para milhões de eleitores norte-americanos, Donald J. Trump tornou-se, quase de um dia para o outro, no grande salvador da ideia de pátria que sempre os acompanhou pela vida fora – uma gigantesca e invencível potência mundial (talvez até mesmo do Universo, coitados dos extraterrestres que se atravessassem no seu caminho), mas agora ferida de morte pela incompetência de um Presidente negro e comunista, que dedica mais tempo a defender os direitos de gays do que a resolver os verdadeiros problemas da nação. E que – segundo o próprio Donald Trump – nasceu no Quénia. E que até deve ser muçulmano – uma tese em que nem o próprio Trump acredita, mas que é lei para muitos dos seus apoiantes.

É claro que entre os mais de dez milhões de eleitores inscritos no Partido Republicano e independentes que votaram até agora em Donald Trump nas eleições primárias há racistas, xenófobos e ultranacionalistas, mas também há votos de protesto contra a forma como os políticos têm gerido o país, de cidadãos que até há poucos meses tanto admitiriam votar à direita como à esquerda – há muita raiva e descontentamento justificados, dos que perderam o emprego nas fábricas que os acordos internacionais de comércio levaram para outras paragens; ou dos que trabalham até demais, mas cuja qualidade de vida é hoje muito pior quando comparada com a de décadas passadas.

Mais: no site FiveThirtyEight, o jornalista e especialista em estatística Nate Silver avança uma informação que pode surpreender muitos analistas e outros interessados nas eleições americanas deste ano – em 23 estados que já foram a votos, a maioria dos que votaram em Donald Trum tem um rendimento anual superior à média nacional, em alguns casos muito superior, como na Florida.

É verdade que a maioria dos eleitores que participam nas primárias tanto do Partido Republicano como do Partido Democrata tem salários superiores à média (e os Republicanos são mais ricos do que os Democratas), mas Trump está longe de ser o candidato com a base de apoio mais pobre e menos instruída – em média, os eleitores que votaram no magnata nos 23 estados analisados ganham 72 mil dólares (63 mil euros) por ano; os que votaram no senador Ted Cruz ganham 73 mil dólares; e os que votaram no governador John Kasich levam para casa 91 mil dólares por ano. Em comparação, o salário médio da população nesses 23 estados é de 56 mil dólares anuais.

E não se pense que são só os menos instruídos que apoiam o magnata do imobiliário: 44% dos que votaram em Trump nos 23 estados em causa têm mais do que o ensino secundário, contra uma média de 29% entre a população adulta dos EUA.

E é este movimento de uma parte do eleitorado norte-americano das mesas do café para as mesas de voto que surpreendeu o chamado establishment e deixou os principais líderes do Partido Republicano sem saber o que fazer – se apoiar o populismo de Trump representa um desvio colossal dos ideais conservadores do partido de Lincoln e Reagan, negar o apoio ao candidato oficial poderá ser ainda pior.

Vem até nós, Donald

Depois de a força dos votos dos eleitores nas primárias ter vergado a campanha interna para afastar Donald Trump da nomeação, a liderança do Partido Republicano e muitos dos seus nomes mais sonantes tentam agora um Plano B – dizer ao candidato que só terá o partido unido à sua volta se for ele a atravessar a metade da ponte que os separa, e não o contrário.

O problema é que, pelo menos no papel, o Plano B é uma receita para o desastre – o que o establishment quer é que Donald Trump comece a comportar-se mais como um político tradicional, provando que é capaz de montar uma Administração competente e que vai defender os princípios conservadores; traduzindo por miúdos, o establishment está a pedir a Donald Trump que deixe de ser Donald Trump – como Trump conquistou a nomeação precisamente por ser quem é, vê-se com alguma dificuldade que o Plano B venha a ser um sucesso retumbante.

A mais recente prova de que há uma enorme fractura no Partido Republicano foi dada por Paul Ryan, o líder da Câmara dos Representantes. Na semana passada, sem aviso prévio, a mais alta figura do Partido Republicano num cargo eleito (o líder do Senado é, por inerência, o vice-presidente dos EUA) disse que "ainda" não está preparado para apoiar Donald Trump – uma posição sem paralelo na história moderna da política americana.

"A maior parte da tarefa de unir o partido terá de ser desempenhada pelo presumível nomeado. Não quero desvalorizar o que ele já conseguiu. Mas ele também herda algo muito especial, que é muito especial para todos nós. Este é o partido de Lincoln, de Reagan e de Jack Kemp. Nem sempre nomeamos um Lincoln ou um Reagan de quatro em quatro anos, mas esperamos que os nossos nomeados tenham como referência figuras como Lincoln ou Reagan – esperamos que essa pessoa promova os princípios do nosso partido e que seja apelativo para uma vasta maioria dos americanos", disse Paul Ryan, conhecido por criticar várias propostas de Donald Trump.

Em Dezembro do ano passado, quando o magnata propôs a proibição da entrada no país de todos os muçulmanos, Ryan lançou um duro ataque contra Trump, acusando-o de não representar os valores conservadores do Partido Republicano.

"O que foi proposto não reflecte aquilo que o nosso partido defende, e não reflecte aquilo que o nosso país representa. Há muçulmanos a servir nas nossas forças armadas, a morrer por este país. Há muçulmanos a servir na Câmara dos Representantes, a trabalhar todos os dias em defesa da Constituição. Alguns dos nossos maiores e melhores aliados nesta luta contra o terror islâmico radical são muçulmanos, a grande maioria dos quais é pacífica, acredita no pluralismo e na liberdade, na democracia e nos direitos humanos", declarou o responsável máximo na Câmara dos Representantes em Dezembro.

Ameaças do Tea Party

Esta ousadia já valeu a Ryan uma ameaça. Sarah Palin, a antiga governadora do Alasca que foi uma das primeiras faces da divisão que já estava em curso no Partido Republicano, quando concorreu a vice-presidente ao lado de John McCain, em 2008, disse que o líder da Câmara dos Representantes pode vir a ser "Cantorizado" – uma referência à surpreendente derrota do republicano Eric Cantor nas primárias do seu partido, em 2014, contra um adversário apoiado pelo movimento Tea Party.

Como membro da Câmara dos Representantes, Paul Ryan tem este ano pela frente uma tentativa de reeleição no estado do Wisconsin, mas primeiro terá de ganhar nas primárias do seu partido a Paul Nehlen, um candidato apoiado por Sarah Palin – uma derrota de Ryan nestas primárias seria uma das histórias mais bombásticas do ano, mas foi precisamente isso que aconteceu em 2014 a Eric Cantor, quando era líder do Partido Republicano na Câmara dos Representantes.

Também na semana passada, os dois ex-presidentes dos EUA nomeados pelo Partido Republicano ainda vivos – George Bush pai e George Bush filho – fizeram saber que não apoiam o nomeado do seu partido. O mesmo fez Jeb Bush, filho do primeiro e irmão do segundo, que tentou ser o terceiro membro da família a chegar à Casa Branca mas abandonou a corrida em Fevereiro.

Os dois mais recentes candidatos pelo Partido Republicano – John McCain em 2008 e Mitt Romney em 2012 – anunciaram que nem sequer vão à convenção nacional, marcada para Julho, onde Donald Trump deverá receber o carimbo para concorrer à Casa Branca em nome do partido. E se é verdade que o senador McCain se disponibilizou para aconselhar o magnata em questões de política externa, Mitt Romney tem sido um dos mais ferozes opositores de Trump – em Março, tentou convencer os eleitores do Partido Republicano a votarem no senador Ted Cruz ou no governador John Kasich, chamando a Donald Trump "uma fraude".

Apesar do afastamento dos Bush e da oposição frontal de Romney, o resultado foi o mesmo em ambos os casos: quando a família Bush entrou em peso na campanha, na Carolina do Sul, Trump venceu as primárias no estado com dez pontos de avanço sobre Marco Rubio, Jeb Bush terminou apenas em 4.º, a 25 pontos de diferença, e desistiu da corrida; depois de Mitt Romney ter atacado Trump, a 3 de Março, o magnata venceu 11 votações em 20 nesse mês, quando ainda havia quatro candidatos (Rubio desistiu a 15 de Março e só não concorreu no Arizona e no Utah, a 22 de Março).

Congresso e Supremo em jogo

Mas o grande problema do Partido Republicano é que ninguém ganha umas eleições gerais com uma campanha semelhante à que fez durante as primárias – enquanto nestas últimas grande parte do eleitorado já partilha das ideias do partido, nas gerais, quando é a Casa Branca que está em jogo, o universo de eleitores alarga-se de forma substancial, e é preciso ir buscar votos ao centro e tentar tirar votos ao Partido Democrata.

Para além de ser difícil imaginar Donald Trump a fazer uma ou outra coisa, este ciclo eleitoral é particularmente sensível para o Partido Republicano, o que explica a vontade que o establishment tem em ver o magnata pelas costas. Tal como já se previa em 2014, quando os republicanos juntaram a maioria no Senado à maioria que já tinham na Câmara dos Representantes, em Novembro deste ano a dança das cadeiras em ambas as câmaras do Congresso favorece os candidatos do Partido Democrata.

O medo dos líderes do partido é que um candidato como Donald Trump não só seja aniquilado nas eleições para a presidência por Hillary Clinton ou Bernie Sanders (as sondagens dão vantagens a ambos os nomes do Partido Democrata em relação a Trump) como os seus níveis recorde de impopularidade junto do eleitorado geral contribuam para que muitos eleitores ou fiquem em casa ou votem em candidatos do Partido Democrata para o Senado e para a Câmara dos Representantes, pintando ainda mais de negro o futuro do Partido Republicano – sem Casa Branca, com minoria no Senado e/ou na Câmara dos Representantes, e com muito menos capacidade para influenciar as nomeações para o Supremo Tribunal possivelmente por muitos anos.

É por isso que o movimento anti-Trump no interior do Partido Republicano não pode ser visto apenas como uma luta ideológica de conservadores tradicionais contra populistas – olhando para as sondagens e para o mapa eleitoral deste ano, muitos líderes partidários e financiadores de campanhas já se preparam para concentrar os seus apoios nos candidatos do partido ao Congresso, temendo que o comboio aparentemente imparável de Donald Trump esteja destinado a terminar a sua marcha num doloroso descarrilamento.