O coração de quatro cidades de Marco Gil

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Há, decididamente, uma parte que o sol não ilumina e que descortinamos se observarmos e não nos limitarmos a olhar. A essência, o que distingue o óbvio do único, pode encontrar-se apenas em cada recanto, ou mesmo na última palavra de uma história irrepetível. Eu viajo para conhecer pessoas, contar-lhes a vida e trazer-lhes o rosto em fotografias que contam histórias. É nestes entretantos que me cruzo com cidades preenchidas por um quotidiano de gente, tão rica como díspar. São elas que me dão o inesperado quando já não contava com nada. Eram 17h50, e Montmartre, o bairro que luz mais na cidade dela, presenteava-me com artistas em excelência e quantidade. E foi ao som de "La vie en rose" que decidi entrar numa "créperie". Lá dentro, o piano com três décadas era tocado por um rapaz com uma boina xadrez e mãos tecidas por magia. O silêncio seguia ao ritmo daqueles acordes que nos levavam a Paris dos anos 20. O ferro imponente da Torre do Gustave confere-lhe valor sem dimensão, os Campos Elísios são de uma classe dissemelhante. Mas o eflúvio da cidade do Amor, descobri-o naquele espaço com menos de três metros quadrados, que tem mensagens de pessoas de todo o mundo pelas paredes. Na primeira segunda-feira de Outubro, não chovia em Londres e troquei as voltas ao Big Ben. Escolhi Notting Hill para me aquecer a alma e disfarçar o vapor de ar frio que me saía por cada palavra. O mercado que aparecia no filme que é comum a todos era nesse dia e sentei-me diante dele. Admirava aquele contexto singular: casas coloridas, um sotaque britânico imperceptível, os estranhos que compravam os legumes para os dias seguintes ou a familiaridade de pessoas que nunca se viram antes. Levantei-me do banco, fui bater numa porta azul, uma ao calhas, abriram e não era Spike. Era um casal feliz de "gays". Virei as costas e começou a chover naquele instante, caminhei serenamente ao ritmo das notas musicais de Elvis Costello. Pus o casaco a cobrir-me os ombros e tinha sido conquistado por Londres, apenas porque o clima me mudara os planos. O comboio chegava com duas horas de atraso, entre Eindhoven e Amesterdão, era sugado pelo tempo que é escasso quando se viaja. Saí do comboio e o cheiro era diferente, o que se consumia também, mas era o cheiro a felicidade que se sentia logo ali. Uma cidade feliz nota-se no imediato, ela não tem rodeios se o puder dar logo a entender. A primeira cerveja foi em Damn Square. Diante de mim estava um casal na casa dos 80, seguravam orgulhosamente algo que não era tabaco e iam passando um ao outro, num ritual que parecia assíduo. Aquilo não me espantou, o que me deixou entusiasmado foi o ar de felicidade de uma vida bem vivida. A cortesia e a felicidade em Amesterdão fazem com que se viva sem contrariedades, que os dias sejam melhores apenas porque existem . Não existem contratempos e não se perde tempo em Amesterdão, mesmo que o comboio se tenha atrasado. O âmago daquela cidade é maior que os bonitos canais, que "coffeeshops" variados; ele reside naquela ventura sem dono. O pôr-do-sol emana-lhe partículas que se soltam e esbatem no Tejo ao ritmo de uma "saudade solta". A luminosidade de Lisboa faz com que seja a melhor cidade que já fotografei, seja qual for a hora ou a colina. O histórico em contraste imediato com o moderno é avassalador. Os sons, a aura de cidade romântica, a voz da Mariza ou a de todos nós, o calor das pessoas e o rio a confluir para o mar, põem de parte tudo o que de resto se possa acrescentar. Lisboa vive-se em cada recôndito espaço virado para tanto. A recendência das cidades está nas pessoas, mas acima de tudo em cada recanto encoberto que nos perpetua o lugar. Basta distinguir o ébrio do sóbrio, orientarmo-nos pela bússola do coração e pormos de parte o óbvio. Estas são as cidades que me marcaram mais. Vivem-se por lá, mas sentem-se em todo o lado e eu mostro-as também por aqui e por ali

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