Feministas Negras em Portugal reúnem-se em primeiro encontro

Debater o racismo e o machismo é um dos objectivos do encontro organizado este sábado pela nova Plataforma Femafro, dinamizada por três jovens activistas. Para sentir “o poder de falar do racismo e do machismo sob uma outra lente”.

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Três jovens activistas lideram a nova associação DR

É apresentado como o 1.º Encontro de Feministas Negras em Portugal e vai debater neste sábado vários temas no Espaço Mob, em Lisboa, a partir das 16h30.

Já houve outros encontros de mulheres negras, mas de forma pouco estruturada, comenta Raquel Rodrigues, 31 anos, uma das organizadoras. “Nunca houve um movimento negro feminista organizado em Portugal, e as pessoas questionam-se: por que é que nenhuma mulher negra se lembrou, se temos tantas em Portugal?”

Pelo contrário, ela e outras duas activistas da Plataforma Femafro lembraram-se, sim, de colocar em cima da mesa questões que afectam milhares de mulheres e debatê-las num espaço público. Vão falar sobre a questão da identidade, “o que é ser negro, afro-descendente, qual o seu papel na sociedade portuguesa”, diz. “Nós, mulheres negras, sempre fizemos parte dos movimentos mas de formas invisíveis: os movimentos feministas tradicionais falam da mulher mas da mulher caucasiana, de classe média/média alta e literata; nos movimentos raciais há a dominação do homem. A mulher negra fica neste limbo: nos movimentos tradicionais, quando colocamos questões de raça, as feministas dizem que é uma questão de género; quando vamos para os movimentos raciais e queremos colocar a questão do género, os homens dizem que é uma questão racial.”

A Plataforma Femafro é uma organização de mulheres negras, africanas e afro-descendentes em Portugal formada em Fevereiro. Ainda não está oficializada, e neste momento é dirigida essencialmente pelas três activistas: além de Raquel Rodrigues, mediadora social que coordenou o grupo de mulheres imigrantes na Associação Solidariedade Imigrante, fazem parte Dary Carvalho, 23 anos, vice-presidente da associação juvenil Bué Fixe (que trabalha sobre violência no namoro, prevenção de HIV/sida, etc.), e Joana Sales, 35 anos, da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), associação de defesa dos direitos das mulheres.

A pertinência de um movimento de feministas negras em Portugal surge pela necessidade de criação de um espaço onde possam sentir “o poder da fala e de falar do racismo e do machismo sob uma outra lente, que é a de ser uma mulher negra”, sublinha Raquel Rodrigues. “Sabemos que, quando as mulheres negras falam, vê-se primeiro a cor negra e depois a mulher. Há muitas mulheres africanas e afro-descendentes que precisam de descobrir a sua identidade. Criar um espaço colectivo é dar voz para que as pessoas falem entre si, se conheçam e conheçam a sua história sem ser pela lente do vencedor. É importante as pessoas descolonizarem o pensamento e africanizarem-se, e a partir daí tirarem as suas próprias conclusões. Este encontro vai servir para isso.”

Em Portugal, predomina o discurso institucional do não racismo e do não sexismo, critica Raquel Rodrigues, e a Plataforma Femafro, com este encontro, quer tentar perceber qual o impacto que estes dois posicionamentos oficiais têm no dia-a-dia das mulheres negras.

“Vamos apresentar um vídeo que fala desses temas. Vamos ter mulheres negras de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola e também brasileiras que sofrem outro tipo de discriminação, são muitas vezes ‘objectificadas’”. 

A activista acredita que, neste momento, está a aparecer uma “nova vaga de movimentos” em Portugal à imagem dos que existem há anos em países da América Latina, nos Estados Unidos ou até mesmo em Espanha. “Estão a começar a despertar algumas mentes que pareciam adormecidas e é por isso que as pessoas estão a mobilizar-se. Uma brisa está a começar a aparecer”, comenta. 

O encontro começa com a apresentação da plataforma, projecção do vídeo e depois abre-se o espaço de debate — não há oradores nem painéis para permitir que as pessoas exponham livremente as suas dúvidas e críticas. “Queremos dar o primeiro passo para a reflexão e tentar despertar a mente das mulheres e homens que vão estar presentes, incutir esse bichinho: por que é que é assim e não pode ser diferente?”

No final, o objectivo é criar um movimento de militância negro. “Para sermos nós a falar, não deixar os outros falarem por nós. E fazermos os nossos estudos, contarmos as nossas próprias histórias”, conclui.