Uma ópera que simboliza a criatividade feminina

Inspirada num conto indiano que evoca o poder transformador do amor e um percurso iniciático em direcção à maturidade, a ópera A Flowering Tree, de John Adams, sobe esta quarta-feira ao palco do CCB, em Lisboa, numa versão encenada por Nicola Raab com direcção musical de Joana Carneiro.

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Criada em 2006 pelo compositor John Adams e pelo encenador Peter Sellars para as comemorações dos 250 anos da morte de Mozart em Viena, a ópera A Flowering Tree tem alcançado um considerável sucesso ao longo da última década.

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Criada em 2006 pelo compositor John Adams e pelo encenador Peter Sellars para as comemorações dos 250 anos da morte de Mozart em Viena, a ópera A Flowering Tree tem alcançado um considerável sucesso ao longo da última década.

Nem sempre é fácil que uma ópera contemporânea entre no repertório, mas o fascínio do libreto — baseado num conto tradicional indiano sobre uma jovem e um príncipe que são submetidos a vários rituais e provações destinados a demonstrar o poder transfigurador do amor — e a comunicabilidade da música de John Adams, um compositor cuja fama extravasa o círculo mais restrito da música contemporânea, têm contribuído para cativar audiências em diversos países.

Em Portugal, A Flowering Tree foi apresentada pela primeira vez em 2010 numa versão semi-encenada por Rui Horta, com direcção musical de Joana Carneiro. Regressa agora no âmbito da temporada do Teatro Nacional de São Carlos numa co-produção da Göteborg Opera, do Teatro Comunale di Bolzano e da Chicago Opera Theatre com encenação de Nicola Raab, que terá duas apresentações no Centro Cultural de Belém (CCB, esta quarta-feira e dia 8, às 20h). A direcção musical é mais uma vez de Joana Carneiro, que esteve ligada a este projecto desde o início, já que foi assistente de John Adams por ocasião da primeira audição mundial em Viena e voltou a dirigir a ópera várias vezes.

A Flowering Tree explora o tema da transformação espiritual e moral através da história de uma jovem (Kumudha) que tinha o poder de se transformar em árvore florida, vendendo depois as flores para sustentar a família. Um príncipe, fascinado pela sua beleza e artes mágicas, apaixona-se e leva-a para o seu palácio. Mas uma irmã do príncipe, movida pela inveja, encarrega-se de os separar, levando-os a passar por algumas provações até ao reencontro final.

Tratando-se de homenagear Mozart, a escolha de uma histórica que contém claras analogias com A Flauta Mágica, onde personagens fazem igualmente um percurso iniciático em direcção ao conhecimento e à maturidade, foi deliberada. Quando concebeu a obra, John Adams, que foi também co-autor do libreto em parceria com Peter Sellars, afirmou que o seu objectivo era "alcançar a magia e a expressividade directa e contagiante da obra-prima de Mozart.”

Para Joana Carneiro, “a história tem muito de impossível na sua dimensão mágica, mas também tem muito de realidade, pois fala da possibilidade que na vida temos de encontrar felicidade e infelicidade e de nos podermos reinventar, purificar e transformar através dessas experiências." Esta dimensão atraiu também a encenadora Nicola Raab, que sublinha “a grande liberdade” que esta ópera permite no momento de lhe dar forma em palco. “A história é contada de uma forma muito aberta, em muitos trechos de música temos de decidir o que acontece, o que constitui um desafio, mas também a alegria da liberdade no momento de a transportar para a cena.”

O libreto inclui apenas três personagens principais — o Narrador (interpretado por Luís Rodrigues), Kumudha (Jessica Rivera) e o Príncipe (Shawn Mathey) — mas o relato da história convoca muitas outras. Esta foi uma das razões que levou Nicola Raab a dar grande peso à componente coreográfica.

“O narrador foi o ponto de partida porque sem um contador de histórias não há história. Ele está no centro deste universo, chama a audiência e depois, pouco a pouco, à frente dos nossos olhos, a história que está a contar começa a existir”, explicou a encenadora. O recurso à dança pareceu-lhe “óbvio” pois o conteúdo da narração gera outras personagens. “É do grupo formado pelo coro e pelos bailarinos que emergem a mãe de Kumudha ou a irmã do príncipe. Os  bailarinos assumem também outros papéis, por exemplo a tempestade ou os animais selvagens, vão dando forma àquilo que ouvimos.” Este tipo de trabalho implicou uma colaboração muito estreita com o coreógrafo Renato Zanella. “Eu disse-lhe o que precisava para cada cena e claro que foi ele que coreografou os passos mas a concepção geral foi um trabalho de equipa, no final já não sabíamos quem fez o quê.”

A produção conta com a participação de 10 bailarinos — contratados ad hoc e não pertencentes à CNB como seria expectável no âmbito das estruturas geridas pela Opart — dos quais vários têm a seu cargo papéis específicos como é o caso de Ana Portela (Kavinila), Beatriz Valentim (Mãe), Elsa Almeida (Princesa) e Fábio Simões (Rei). O dispositivo cénico é bastante simples, mas dimensão coreográfica, a movimentação do coro e um sedutor desenho de luz de Aaron Black vão dando vida a cada cena.

Em relação às personagens, Nicola Raab realça o desenvolvimento dramatúrgico de Kumudha. “No início ela sente uma grande dor por a mãe passar tanto tempo nos campos a trabalhar arduamente para alimentar a família. Esse sentimento gera o desejo de se transformar numa árvore florida, pois vendendo estas flores pode fazer dinheiro para a ajudar, e apercebe-se de que o pode concretizar. Kumudha é um símbolo da criatividade feminina, representa uma espécie de modo de existência feminino: alguém que cria, sejam flores, arte ou filhos.”

Quanto ao Príncipe, “ele quer inicialmente aquela rapariga apenas porque ela tem poderes mágicos. Depois do casamento percebem que não sabem como estar um com o outro, não se conhecem”, explica a encenadora. “Separam-se de novo e têm de se testar, ou seja, de fazer uma jornada de aprendizagem, de conhecimento antes de se reencontrarem.”

Para Joana Carneiro, A Flowering Tree distingue-se pelo seu “discurso musical muito claro e dramaticamente eficaz, bem como pela grande imaginação e complexidade no sentido da profundidade que revela.” A maestrina realça a “extraordinária invenção melódica, rítmica e tímbrica”, assim como o colorido da orquestração. “A inspiração no universo oriental reflecte-se em vários momentos, por exemplo no princípio da terceira cena do 1º acto e no 2º acto, quando o rei recebe a mãe da futura princesa, ou em algumas melodias que se ouvem ao longo da obra, sobretudo nas madeiras.”

Esta obra acompanha-a há uma década, uma vez que depois de ter sido assistente de John Adams na estreia em Viena já a dirigiu várias vezes de forma independente em diferentes países. "É uma obra que vou revisitando e redescobrindo, radicalmente diferente de óperas anteriores de John Adams como Nixon in China (1987) ou Doctor Atomic (2005). O estilo musical e atmosfera mudam em função do tema abordado como é natural”, diz. “Quando temos a oportunidade de trabalhar óperas muto complexas como é o caso desta, vamos aprendendo a identificar quais os pontos que precisam de ser aperfeiçoados, quais são as secções críticas e como é que se resolvem determinados aspectos técnicos. Vamos maturando as transições rítmicas, que são muito complexas, assim como as transições emocionais e outros aspectos de modo a que tudo se faça de forma mais orgânica e natural.”

Das versões totalmente encenadas, Joana Carneiro destaca a primeira, de Peter Sellars, e a que se apresenta esta quarta-feira e na sexta-feira no CCB, que já tinha dirigido em Chicago e na Suécia. “A Nicola Raab conseguiu trazer uma força muito bonita a esta história, juntamente com o coreógrafo. É também muito forte a forma como trata o coro que é a quarta personagem principal.”

Dada a sua ligação estreita a esta ópera de John Adams, fazê-la no âmbito da temporada do São Carlos era uma aspiração natural para a actual maestrina titular da Sinfónica Portuguesa, apesar das suas funções ao nível da programação se encontram principalmente ligadas à orquestra e menos à temporada lírica.

Recorde-se que o único teatro lírico português continua inexplicavelmente a recorrer a consultores de programação, sem que a tutela se decida a nomear um director artístico — afinal qual foi o resultado do concurso internacional anteriormente anunciado? —  ao mesmo tempo que os membros da Opart vão girando a grande velocidade nos cargos. “A nomeação de um director artístico é fundamental, principalmente para uma programação a médio e longo prazo, assim como na gestão do dia a dia”, diz Joana Carneiro.

Notícia corrigida às 9h34 de 6 de Abril: alterada grafia do nome do encenador