Marcelo Rebelo de Sousa reafirma que "não será factor de instabilidade política"

Em entrevista ao jornal espanhol ABC, lembra que o Presidente da República não é apenas "um árbitro", mas diz esperar não ter de usar o poder de dissolver o Parlamento.

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Marcelo deu entrevista ao jornal espanhol ABC

O Presidente da República afirmou esta quarta-feira que "não será um factor de instabilidade" na relação com um governo minoritário do PS, apoiado pelo BE e PCP, e disse esperar não ter de dissolver o parlamento.

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O Presidente da República afirmou esta quarta-feira que "não será um factor de instabilidade" na relação com um governo minoritário do PS, apoiado pelo BE e PCP, e disse esperar não ter de dissolver o parlamento.

Em entrevista ao jornal espanhol ABC, na véspera de uma visita oficial a Madrid, Marcelo Rebelo de Sousa enumerou as suas prioridades para o mandato como Chefe de Estado, afirmando que "do ponto de vista interno" quer "criar as condições que garantam a estabilidade política", para que "não haja mais crise e que não se agrave a situação social".

"Em segundo lugar, estabelecer um consenso entre os partidos e os agentes sociais, porque a crise pela qual passámos produziu uma menor coesão social, um aumento do desemprego e mais emigração", criando "maior tensão social", explicou o presidente.

Questionado se vai agir como uma espécie de "árbitro" entre os partidos e face ao Governo, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu afirmativamente, mas realçou que os poderes do Presidente da República vão além desse papel.

"Sim. Estou aqui para pacificar e desdramatizar a sociedade portuguesa, para uni-la. Quero que o povo se aproxime dos seus políticos, que seja capaz de vencer a sua desconfiança face a eles. Porque há desconfiança e suspeita. (...) Mas o Presidente não é apenas um árbitro para garantir a normalidade, também tem outros poderes. (...) Em tempos de forte crise política pode decidir a dissolução do parlamento. Espero não ter de fazer uso desse poder, naturalmente", ressalvou o Presidente.

Quanto à coabitação com o Governo de esquerda de António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa afasta problemas de relacionamento com os socialistas.

"Não creio que existam problemas de relacionamento com os socialistas. É certo que se trata de um governo em minoria política apoiado no parlamento, mas isso é algo que se assume com total naturalidade noutros países", realçou.

Ainda assim, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que o seu papel na gestão da convivência com o Governo será "mais interessante", pelo facto de o executivo ser apoiado por partidos à esquerda do PS.

"Não sei se será mais difícil, mas desde logo será mais interessante. Garanto-lhe que o Presidente não será um fator de instabilidade neste país. Pelo contrário. A minha missão passa por aprovar quantas mais leis melhor, não vetá-las", salientou.

Marcelo Rebelo de Sousa destacou a importância da aprovação hoje do Orçamento do Estado para 2016 no parlamento, que classificou como "uma votação muito importante para o país".

"A partir daqui interpreto que caminhamos para uma progressiva estabilidade política", disse o Presidente.

Sobre as relações de Portugal com Espanha, o Presidente afirmou que são tão boas que "quase não se podem melhorar", mas deixou algumas propostas para avançar também nesse sentido.

"Gostaria que existissem mais relacionamento cultural, mais solidariedade entre universidades [de Portugal e Espanha], mais cooperação no mundo económico, especialmente no setor financeiro", sublinhou.

Para Marcelo, Espanha sempre teve e terá uma posição muito forte nesse campo, "mas que não pode ser exclusiva". "Sei que Espanha o compreende muito bem", declarou.

Marcelo Rebelo de Sousa aterra em Madrid na quinta-feira (vindo do Vaticano) para uma visita oficial a Espanha, durante a qual estará presente num jantar oficial oferecido pelo Rei Felipe VI, no Palácio da Zarzuela.