Juventude em jogo

Portugal é a principal porta de entrada na Europa para jogadores de futebol menores vindos de África e da América do Sul. Francisco, Cassiano e Valentine vieram da Guiné-Bissau, Brasil e Nigéria com o sonho de jogar num grande clube europeu.

A fuga possível     

Francisco Júnior, Guiné-Bissau, 23 anos

—  Disseste que ias mandar o dinheiro e ainda não chegou nada.
— Mas porque estás a falar assim, mãe? Saí do treino e não tive tempo. Amanhã envio.
— Preciso de ir ao hospital. Não te queria dizer, mas não me estou a sentir muito bem.
— Mas tens de me dizer! O que é que tens, mãe? Tens de me dizer…
— Não tenho nada, envia-me só o dinheiro.

No dia seguinte, às seis da manhã, o telemóvel voltou a tocar: “A mãe morreu”, disse-lhe o irmão. A mãe morreu. A mãe morreu. A mãe morreu. Ainda hoje, passados quatro anos, a frase ecoa na cabeça de Francisco. A viagem de avião do Senegal para Portugal — sozinho, assustado, sem visto. O corpo a tiritar de frio, T-shirt de algodão em cima do tronco enquanto esperava na Portela pelo autocarro que o levaria para o centro de treinos do Benfica. Os jogos em que não tinha ninguém para o ver na plateia, a solidão das férias passadas com o porteiro. De repente, o motivo principal que o fez, com apenas 15 anos, apostar tudo numa carreira de futebolista na Europa tinha desaparecido. “Ela era tudo para mim. O que mais queria era poder dar-lhe uma vida melhor. Sonhava construir-lhe uma casa como deve de ser, arranjar-lhe umas roupas decentes, fazer coisas que a minha mãe pudesse dizer ‘Francisco, aquilo que fiz por ti valeu a pena’.”

Francisco Júnior é guineense, nasceu em Bissau há 23 anos. Desde os dez que recebe convites de empresários que trazem miúdos de África para tentar a sorte no futebol europeu. É um dos pelo menos 226 africanos (a maioria da Guiné-Bissau) a jogar nas principais competições de futebol europeias que deixaram o continente com menos de 18 anos, atrás do sonho de um dia se tornarem futebolistas profissionais. Um dos 294 jogadores vindos de África e da América do Sul que, driblando a lei da Federação Internacional de Futebol (FIFA), começaram a jogar — ainda menores — em clubes europeus, de acordo com os dados disponibilizados no site zerozero.pt.

“A FIFA tem uma regra geral: não podem ocorrer transferências de jogadores de futebol com menos de 18 anos fora do seu país porque se entende que até estes atingirem a maioridade têm de cumprir várias fases da sua vida pessoal. O que acontece é que a Lei de Migração de cada país [que permite a livre circulação de menores de idade perante uma autorização parental] se sobrepõe à FIFA. Na minha opinião, quem não está a fazer o seu papel são as Federações Nacionais de Futebol de cada país que deveriam obrigar os clubes a cumprir as regras e não o fazem”, acusa o advogado de Direito Desportivo João Diogo Manteigas.

A mãe sempre disse “não”, que era muito novo. Só se os levassem a todos. O pai, Francisco da Silva, nunca negou que era o que mais desejava: “Ter um filho na Europa a ganhar dinheiro para investir no seu país é o que qualquer guineense quer”, confessou sentado no sofá de pele importado, na casa nova que o filho lhe mandou construir em Bissau.

Promessas de dinheiro rápido a uma família de sete pessoas que vive com menos de um euro por dia parecem poder comprar tudo — até um filho. O futebol sempre foi um sonho, sim; mas também a única brecha que Francisco encontrou para poder ajudar-se a si e à família. “A vida em África não é fácil. A vida em África não é mesmo nada fácil.” Repete o lugar-comum vezes sem conta, como se repeti-lo pudesse mudar alguma coisa.

Desde que se lembra, às seis da manhã, Francisco já estava de pé para varrer a casa. Depois, com uma bandeja que a mãe lhe colocava em cima da cabeça, ia para a rua vender o que havia: bananas, pão, sal. “A maioria das vezes, só tínhamos arroz branco. Ela fazia o impossível para pôr comida na mesa”, conta no último andar de um prédio com vista de 180 graus sobre a cidade de Liverpool, em Inglaterra, onde hoje vive.

Para chegar à escola, demorava duas horas de caminho, a pé, atravessado por um rio. No fim das aulas, mais hora e meia até aos treinos no estádio Lino Correia, onde joga o Sport Benfica de Bissau. A barriga ainda vazia, as pernas cansadas, os pés moídos pelos sapatos de plástico que usava para jogar. Treinava com fome. O jantar era, muitas vezes, a primeira refeição do dia.

Quando começou a dar nas vistas no Sport Benfica de Bissau, com 14 anos, chegaram os primeiros convites a sério: Sporting e FC Porto estavam interessados. Portugal é a principal porta de entrada de jovens africanos e sul-americanos que aspiram jogar futebol na Europa. Na época de 2014/2015, nas várias competições (amadoras e profissionais) de futebol nacionais, contavam-se 109 jogadores que tinham chegado ao continente com menos de 18 anos, dos quais 33 ainda menores, de acordo com a análise dos dados recolhidos do site zerozero.pt. Os três grandes do campeonato — Benfica, FC Porto e Sporting — são, entre os principais clubes europeus, aqueles que mais jovens jogadores acolheram. Quando contactados, não responderam a nenhum dos vários e-mails enviados.

“Somos uma plataforma giratória entre a Europa, África e as Américas, o que permite aos países africanos e sul-americanos fazer entrar os jovens e, depois de os valorizar, enviá-los para destinos de excelência desportiva, explica o presidente do  Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF), Joaquim Evangelista. “Somos o maior exportador de jogadores, mas a maior parte deles não nasceram cá, são estrangeiros que tiveram direito à nacionalidade”, acrescenta João Diogo Manteigas.

Vir para a Europa era para Francisco como “chegar às nuvens”. Foi Catió Baldé – “ponto nevrálgico das contratações na Guiné”, como o define João Diogo Manteigas – quem o ajudou a fazer essa viagem. “É o empresário mais influente e com maior margem de sucesso no historial da Guiné em relação à transferência de jogadores para Portugal”, reforça o advogado. O convite chegou em Janeiro de 2008, Francisco representava a selecção guineense em Dakar, capital do vizinho Senegal. Era a primeira vez que o empresário o contactava directamente:

— O Benfica está interessado e vai enviar uma pessoa para o Senegal para te trazer.

Há mais de quatro anos que ouvia a mesma lengalenga. Já não acreditava que um dia pudesse mesmo acontecer. O telefone voltou a tocar:

— Francisco, tu é que sabes. Ou vais ou ficas. Ou voltas para a Guiné ou ficas no Senegal e viajas para Portugal, ultimou-lhe Baldé.

“O Catió aborda as pessoas da mesma forma há anos e continua a fazer sucesso. Muitas vezes são as próprias famílias que lhe vão pedir ajuda para trazer os filhos. A única preocupação dos empresários é ganhar dinheiro com os jogadores. Ganham o deles e nunca mais querem saber de nada. Saber que o filho vai para a Europa já deixa os pais guineenses felizes”, denuncia Francisco.

O seu pai não foi excepção: “Procurava o melhor empresário para levar o meu filho e o Catió convenceu-me da seguinte forma: ‘Se eu conseguir levar o Francisco para Lisboa, vou dar-lhe um terreno para construir uma casa e vai ter também uma viatura à vontade.’ Acabei por aceitar”, recorda Francisco da Silva.

Antes de embarcar, Francisco levava no bolso apenas o dinheiro que o então treinador da selecção guineense, Pedro Dias, lhe deu para voltar se algo corresse mal. Na cabeça, a obrigação de tirar a mãe da vida que levava. A mãe, sempre a mãe. Foi a sonhar com tudo o que lhe poderia comprar — a comida, as roupas, a casa nova — que embarcou sem visto naquele avião.

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Não tenho medo de ninguém, não dependo de ninguém — só dos meus pés. É feio trazer os miúdos de África e abandoná-los na Europa. Um miúdo que não tem idade para ser homem" Francisco Júnior

“Estava tudo planeado, que deveria ser nessa viagem. Mas ninguém disse nada ao Francisco, ninguém lhe comunicou que ele iria para o Benfica”, contou Pedro Dias, em Junho, quando o encontrámos no centro de Bissau. “Ainda hoje não sei como passei… Cheguei, apresentei o meu passaporte e estava tudo certo. Quando cheguei a Lisboa, carimbaram-me o visto.” Tinha 15 anos.

Quando saiu do Aeroporto da Portela, Francisco soube pela primeira vez o que era ter frio. Trinta minutos à espera do autocarro que o levaria para o centro de estágios do Benfica, no Seixal. “Acho que nunca tremi tanto na minha vida. Depois, fui bem recebido, havia lá outros guineenses, muitos africanos…”

Um dia em Portugal e já queria voltar. A sua nova casa estava vazia das conversas no alpendre com os vizinhos, das gargalhadas estridentes, dos mimos da mãe. “As pessoas eram diferentes. Na Guiné, de manhã quando acordávamos, estávamos logo todos juntos. Aqui cada um adormecia no seu canto. Ligava à minha mãe e ela começava logo a chorar. ‘Se não te sentes bem, volta. Volta, volta, por favor’, dizia-me.”

 Ao fim de dois, três meses, habituou-se: cama, comida, roupa lavada, treinos e aulas de línguas — Francês, Inglês e Português. “Ainda comecei a ir à escola no 9.º ano, mas com os treinos tive de desistir.” Nunca mais pensou em voltar. O Benfica pagava-lhe 400 euros por mês, enviava 300 para a Guiné. Francisco garante que Catió Baldé nunca pagou à família a quantia que prometeu.

“Quando assinei o primeiro contrato, o documento dizia que uma parte do dinheiro deveria ir para os meus pais e para o Benfica de Bissau, mas esse dinheiro nunca chegou, ficou com os empresários. Na altura de assinar, oferecem roupa e bens materiais, mas depois nunca mais os vês. Passados anos, começas a perceber que foste e és explorado.”

Em diferentes declarações públicas, Catió Baldé disse sentir-se como um “pai para estes miúdos”. “Tenho uma academia de futebol na Guiné-Bissau e trabalho na área de prospecção, isso leva a que descubra jogadores com talento e lhes proporcione a possibilidade de fazer testes, de serem observados na Europa”, esclareceu quando contactado por telefone. Sobre Francisco, quase não quis falar: “Ele que diga o que é que eu tinha prometido à família dele. Quem tem de fazer promessas à família é ele”, comentou exaltado.

Francisco garante nunca ter visto em Catió um pai. Fez-se homem à força, passou por muitas dificuldades, mas não se arrepende: “Foi o Benfica que me tirou de África. Tenho com o clube uma dívida eterna. O Catió foi o homem que me trouxe e agradeço-lhe por isso, mas nunca o senti como pai.”

O pior era quando chegava o Natal ou as férias grandes: os colegas de malas feitas à espera da família que chegava, sorridente, de carro e Francisco sentado num lancil, a observar à distância o afecto que também desejava para si.

Apesar de tudo, teve “sorte”, garante. A sua sorte foi nunca ter sido expulso do clube onde jogava. Sempre ter tido onde dormir, o que vestir e comer. Nunca ter sido despejado na rua num país que não era o seu e onde não conhecia ninguém. “Conheço muitos empresários que pegam nos miúdos, recebem o dinheiro, deixam-nos nos clubes e vão-se embora. Dizem que vão mudar a nossa vida e depois, quando chegamos à Europa, levam o dinheiro e já não querem saber”, denuncia.

“O que acontece na grande generalidade destes casos é que os jogadores são colocados numa casa: 9, 10, 15, 20... Quando ainda são uma expectativa, uma oportunidade do ponto de vista desportivo, é-lhes dada alimentação básica. Quando deixam de o ser, são abandonados e não têm dinheiro. Ficam numa situação desumana. É disso mesmo que estamos a falar: de alguém que não tem nada, não tem ninguém”, denuncia o presidente do SJPF.

Francisco reconhece que vir para a Europa foi o melhor que lhe aconteceu, mas não compactua com o esquema montado. Garante que vai falar até lhe faltar a voz: “Não tenho medo de ninguém, não dependo de ninguém — só dos meus pés. É feio trazer os miúdos de África e abandoná-los na Europa. Porque quando digo abandono, é abandono… É abandono. Falamos de  miúdos. Repito: um miúdo! Um miúdo que não tem idade para ser homem.”

Não está contra a vinda destes aspirantes a jogadores de futebol, o que o revolta é a forma como são trazidos, serem tratados como “mercadorias”, serem aliciados com a promessa de um futuro que pode nunca se concretizar. 

Hoje tem, garante, “idade para ser homem”, mas isso não atenua o vazio que sente. A solidão é desde há muito o seu tormento maior. “Vivo sozinho, não tenho ninguém. Se tenho um problema, estou sozinho; se estou doente, estou sozinho; se estou triste, estou sozinho. Se preciso de desabafar, tenho de desabafar comigo mesmo. Se a minha família tem problemas lá, eu é que tenho de os resolver. Eles têm de ir à escola, vestir, comer. É muita coisa para a cabeça de uma só pessoa”, desabafa.

Conquistou o que queria: é jogador do Everton, um clube da primeira Liga inglesa, vive num T2 na marina de Liverpool, conduz um BMW X6, calça ténis da Nike e, em dias de festa, também veste Armani. Há meses em que chega a enviar mais de 10 mil euros para a Guiné, no total — entre pai, irmãos, tios, primos e vizinhos — são mais de 20 as pessoas que dependem dele. “Os africanos acham que quem vem para a Europa fica rico automaticamente. Há muitos que não voltam ao seu país porque não conseguem enriquecer o suficiente para sustentar todos os que lhe vão pedir dinheiro.”

Francisco construiu uma casa para a família em Bissau, comprou um táxi para o pai — que este aluga e soma ao salário de professor (cerca de 150 euros) —, paga a escola, comida e casa dos quatro irmãos que estudam no Senegal e envia dinheiro sempre que há uma emergência. Mesmo assim, Francisco da Silva diz não se sentir ainda satisfeito “dentro do seu coração”: “O que ele faz não é suficiente para mim, gostava que ele investisse o seu dinheiro na Guiné-Bissau. Poderia ser no que quisesse, estaria aqui para o ajudar a gerir”, queixa-se.

Por mês, Francisco recebe 30 mil libras (cerca de 40 mil euros), sem contar com patrocínios e prémios de jogo. “Tento guardar o máximo, hoje estou aqui, mas amanhã não sei.” Dá-se a poucos luxos. A rotina vai pouco além dos treinos, dos jogos de PlayStation e do iPhone, uma extensão do corpo que nunca larga. A música — que pode variar entre kizomba, rap ou pop — também está lá sempre, como se a vida se recusasse a acontecer sem uma banda sonora constante. Beber uns whiskies e cantar karaoke em clubes privados, fumar chicha ou jantar no Nando’s — um franchising sul-africano conhecido pelos frangos assados — são os seus escapes. Tem uma vida monótona e regrada.

“Para seres futebolista, abdicas de muita coisa. A primeira é a juventude, não te divertes como um jovem normal. Só tens dez anos, 15 no máximo.” Há quase dez anos na Europa, já não liga quando o tom da sua pele é motivo para o insultarem em campo. “Ainda hoje nos treinos me chamaram nigger mother fucker [preto filho da puta]. Estou vacinado, passa-me ao lado.” Meteu na cabeça que para conseguir o mesmo tem de trabalhar o dobro.

O dinheiro pelo dinheiro não o fascina. Quando saiu da Guiné, nunca imaginou que a sua conta bancária pudesse vir a contar tantos dígitos. Quando saiu da Guiné, também nunca imaginou que um dia se pudesse sentir tão pobre. Nunca voltou à casa onde nasceu, rejeita tudo o que o recorde da pessoa que mais ama. A única coisa que queria era ter visto a mãe vestida com as roupas que lhe comprou numa loja europeia, a viver numa casa de tijolo, a servir-lhe um cozinhado de arroz recheado de peixes variados. Se naquela tarde não tivesse cedido à preguiça, se tivesse ido ao Western Union do Rossio enviar o dinheiro, talvez ainda fosse possível. Nunca vai saber. Os “se” são um fantasma com que teve de aprender a conviver. “A única coisa que queria era ver a minha mãe a sorrir, a dizer ‘obrigada’. Mas não consegui. Por isso é que nunca vou ser feliz na vida. Posso ter tudo, mas nunca vou ser feliz na vida.”

O Messi do Brasil

Cassiano Bouzon, Brasil, 14 anos

Espanha, Catalunha. Dez horas de uma noite de Dezembro de 2012, um frio que enregelava os ossos. Cassiano preparava-se para o treino no campo do Cornellà, um clube barriga de aluguer do FC Barcelona onde muitos craques estrangeiros iniciam a sua carreira de futebolistas. Francisco tremia na bancada: quando viu o tamanho dos outros jogadores, achou que o filho não seria capaz. “Vi cada africano com dois metros de altura e pensei: ‘Não é possível que esses meninos tenham todos a mesma idade’.” Cassiano começou a jogar e a temperatura subiu: fintou um, fintou outro, correu para a baliza, marcou golo. Estes foram os segundos que pai e filho congelaram na memória, os momentos que escolheram para resumir o dia que terá sido um dos mais importantes das suas vidas.

“Fala o pai de Cassiano Bouzon? Gostaria muito que seu filho viesse treinar e fazer testes ao Barcelona.” Do outro lado da linha, do outro lado do oceano, estava Josep Maria Minguella, o responsável por há anos ter levado Lionel Messi da Argentina para Espanha. Era Outubro de 2012, Cassiano tinha 11 anos, vivia em Salvador, no Brasil.

 Francisco Jesus emudeceu. Sonhava com este momento ainda antes de Cassiano nascer. Com o dia em que o seu “filho homem” pudesse ser aquilo que uma lesão no joelho lhe roubou de rompão, interrompendo-lhe uma carreira — que recorda “brilhante” — como médio esquerdo. Foi invadido por aquela alegria infantil e inexplicável que vem de dentro. Mas rapidamente caiu em si: e se, afinal, o filho não fosse o “fenómeno” de que todos falavam em Salvador? Fosse como fosse, tinha de tentar.

Francisco projecta no filho aquilo que nunca conseguiu: ser um jogador de futebol profissional. O vídeo que partilhara no YouTube, onde em seis minutos Cassiano dribla meia equipa e marca seis golos, tinha dado frutos. É assim que muitos miúdos dão a conhecer o seu talento e se fazem notar por olheiros e empresários. Foi assim que Francisco conseguiu apontar holofotes para o filho.

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Quem sou eu para dizer não ao Barcelona? Só não podia deixar uma criança de 11 anos sozinha noutro continente, longe da família." Francisco Jesus, pai de Cassiano

“O Cassiano passou. Se ficar connosco, será entregue a uma família de acolhimento aqui em Espanha. Estuda durante o dia e treina à noite. Cobriremos todas as suas despesas.” A proposta, garantem pai e filho, saiu da boca do então presidente do Barcelona Sandro Rosell, menos de um mês depois de Francisco e Cassiano terem aterrado na cidade e dormido pela primeira vez em casa de Josep Minguella.

“Não dá para ter ideia da imensidão que foi: quando vi que tinham criado um fan club para o Cassiano em Espanha, não quis acreditar. Tudo isto nos deixou muito assustados mas, ao mesmo tempo, era muito gostoso”, avalia Francisco. “Assustador. A palavra é mesmo essa: assustador”, interrompe Irtes Bouzon, mãe de Cassiano.

O miúdo não pensou duas vezes: queria ficar. Dizer “não” ao clube onde joga Messi, ainda que seja Cristiano Ronaldo com quem um dia gostaria de partilhar o mesmo relvado, parecia-lhe uma loucura.  “Cassiano me olhou e disse: ‘Papai, eu fico!’ Você falou firme. Vou falar só uma coisinha para você: lembra quando teve aquela dorzinha na barriga e acordou de madrugada vomitando? Você chamou quem? Aqui não vai ter mamãe nem papai.”

A imprensa deu a notícia: pai de Cassiano “disse não” ao Barcelona. “Quem sou eu para dizer não ao Barcelona? Só não podia deixar uma criança de 11 anos sozinha noutro continente, longe da família. Ainda sugeri que nos levassem a todos para a Europa: Eu, Irtes e Maria Cecília [irmã de Cassiano]… Mas foi na altura em que o clube começou a estar envolvido na polémica de contratação de menores e nada se concretizou.

Em Abril do ano passado, a FIFA proibiu o Barcelona de contratar jogadores durante um ano por entender que o clube catalão violou o regulamento na aquisição de dez atletas menores. Segundo o comunicado da entidade que rege o futebol mundial, “as investigações relacionaram-se com vários jogadores menores que foram registados e participaram em competições ao serviço do clube ao longo de vários períodos entre 2009 e 2013”.

Os dirigentes do Barcelona concordaram com Francisco: “Ele é de facto muito novo. Não pode ser federado porque não tem idade. E trazer a família do Brasil para a Europa é impossível”, disseram-lhe.

A maioria dos miúdos africanos e sul-americanos envolvida neste tipo de convites vem de contextos desfavorecidos. Encontram na oportunidade uma forma de escapar à pobreza, de proporcionar uma vida melhor aos seus pais e irmãos. Não dizem não, não podem dizer não: o que têm a perder é quase sempre muito pouco. Com Cassiano é diferente. Cresceu no seio de uma família de classe média, com uns pais que se deixaram encantar pela possibilidade de terem em casa um “craque da bola” mas garantem não esquecer — repetem-no vezes sem conta — que primeiro têm de “criar um homem com valores, princípios e educação. Só depois nascerá o jogador de futebol”.

A vida da família Bouzon divide-se entre o antes e o depois de Barcelona. Quando regressaram, Francisco dedicou-se a gerir o futuro da carreira do filho e tornou-se uma espécie de empresário a tempo inteiro, delegando o rumo da metalúrgica que geria no seu sócio. Irtes trocou a Varig, empresa de aviação onde trabalhava como secretária há mais de dez anos, pelos papéis de mãe e dona de casa e passou a assumir-se como “administradora do lar”. Maria Cecília, na altura com 14 anos, teve de deixar para trás a cidade onde nasceu, a escola, os amigos. Francisco, Irtes e Maria Cecília aceitaram ser, acima de eles próprios, o pai, a mãe e a irmã de Cassiano Bouzon.

“Foram vários os clubes da Europa, os agentes FIFA, os empresários que nos contactaram. Acabámos por ficar no Rio de Janeiro, no Flamengo, onde Cassiano está muito feliz”, contou Francisco em Junho de 2014 no condomínio fechado onde vivia com a família nos arredores do Rio de Janeiro. “Não vou dizer que foi fácil. Chorei muito, senti que ninguém estava a levar os meus sentimentos em conta. Deixar a minha família, os meus amigos, a minha cidade… Mas depois pensei: ‘Quem sou eu para travar o sonho do meu chodó? Não tinha esse direito’”, reflecte a irmã de Cassiano.

Francisco gosta de gabar-se de como o filho “ficou famoso de um dia para o outro”, de como foi “o garoto mais falado no Brasil”. De como a Nike patrocina todo o seu equipamento desportivo, ainda que Cassiano prefira os chinelos às chuteiras da marca quando joga à bola no terraço de casa. Depois desce à terra. Relembra que o filho ainda é uma criança e que toda a megalomania que o envolve deve ser tratada com pinças: “No mundo do futebol, há muita gente que te quer mal, que faz de tudo para travar o teu progresso. Cassiano ainda não é um jogador de futebol, precisamos ter muito cuidado nos passos que damos. Há um ano até me cobrei por colocar o meu filho num mundo tão cruel.”

Vive na ambiguidade, na dúvida de quem não sabe bem se deve continuar a lutar pelo sonho — que é tanto de Cassiano como seu — é o caminho mais certo. As suas palavras saltitam, em poucos segundos, entre a emoção e a razão: “Quando um pai perde a linha da verdade, achando que o filho pode ser uma salvação financeira para a família, acho que é aí que vem a perda do garoto”, reflecte.

O Rubro-Negro encarregou-se da mudança de Salvador para o Rio de Janeiro. Por sua conta, ficaram o colégio de Cassiano, a renda da casa num condomínio privado na periferia da cidade e uma “contribuição mensal”, que permitia à família manter-se. “Com um garoto de 12 anos, é impossível fazer um contrato. Temos um documento que comprova o vínculo”, explica Francisco.

O acordo de um ano durou pouco mais do que isso. “O jogador não evoluiu conforme esperado e o Flamengo diminuiu o quantitativo de atletas. Fizemos uma triagem e mantivemos quem estava melhor. Foi uma questão técnica, acontece muitas vezes os meninos virem badalados e não se adaptarem. Não houve nada de anormal, é um menino bacana, muito carinhoso”, disse em Outubro de 2014, ao site Globo Esporte, o director das camadas de base do Flamengo, Carlos Noval.

Não pode dizer-se que tenha sido um balde de água fria. Cassiano estava quase sempre no banco, Francisco já esperava o pior, mas lamenta ter sabido da decisão pelos media. Não era a primeira vez que outros miúdos que se fizeram notar através de vídeos na Internet não tinham vida longa no Flamengo e acabavam dispensados.

Quase dois anos depois de terem rejeitado o Barcelona, pai e filho voltaram a atravessar o oceano em Outubro de 2014. Eram para ficar uma semana, passaram-se quase dois meses. Para não chumbar o ano, Cassiano estudou com a mãe por Skype e fez exames à distância. Foram a convite do empresário Héber Miranda, que lhes abriu portas no Arsenal, Charlton, West Bromwich e Tottenham, onde o jovem fez testes. “O clube em que gostava de jogar é aquele que me der mais assistência não só para mim como para a minha família. Uma casa, algo de bom para todos”, confessa.

Em Dezembro, Maria Cecília terminou o ano lectivo e Irtes decidiu embarcar com a filha para Lisboa. Estava farta de esperar uma resposta à distância, a família iria encontrar-se em Portugal e passar o Natal na Europa. Tinham planos para ficar, havia “muitos clubes europeus interessados”, diziam. Mas os problemas de sempre mantinham-se: “Precisamos de ter papéis para conseguirmos trabalhar aqui, o mundo do futebol não cria condições para as famílias virem”, explica Irtes.

“Nem sempre os melhores vencem, conseguem chegar ao topo, mas tenho a certeza de que Cassiano vai conseguir”, antecipa a sua mãe. No fundo, Irtes e Francisco sabem que repetir vezes sem conta que o filho “vai ser um grande jogador de futebol” não passa de um exercício, mais ou menos realista, de adivinhação. Hoje, a família vive de novo em Salvador, longe de Cassiano que se mudou para São Paulo onde está a fazer um “tratamento para crescer”, explica Francisco numa mensagem trocada no Facebook. Sem clube mas tranquilo porque, como garante, “é um grande projecto que Héber [o agente de Cassiano] idealizou”:

“Voltámos para o Brasil e, desde Fevereiro, Cassiano está a morar e a treinar em Santos. Lá, faz um tratamento hormonal de crescimento com somatropina, o mesmo medicamento utilizado por Lionel Messi no Barcelona. O objectivo é que no próximo ano esteja a disputar o campeonato de sub-15 pelo Santos. Actualmente é patrocinado pela Nike, explicou o agente por e-mail.

A minha casa é um estádio

Valentine Akpey, Nigéria, 19 anos

Valentine passou a infância a brincar com uma bola de plástico na praceta do bairro onde vivia em Abuja, capital da Nigéria, e ainda guarda com carinho as primeiras chuteiras que o pai lhe ofereceu. O futebol era a sua “paixão impossível”. Os pais queriam que estudasse e ele, um miúdo, nunca teve coragem de dizer em voz alta o que lhe passava na cabeça. Nada fazia adivinhar que, aos 19 anos, seria jogador do Associação Desportiva (AD) Nogueirense e viveria em Nogueira do Cravo, uma aldeia do distrito de Coimbra com pouco mais de 2300 habitantes. O dia em que o agente Tersoo John lhe disse que “tinha coração para jogar à bola”, que “não é normal tanta coragem” num rapaz da sua idade, mudou-lhe a vida.

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Encontrámo-lo dentro do estádio do AD Nogueirense, numa casa a menos de 20 metros do relvado e do balneário que partilha com mais dois nigerianos, um brasileiro, um costa-marfinense, um maliano, um bissau-guineense e quatro portugueses. “Sei que estiveram lá dentro, a casa não estava muito limpa, era o dia de folga da empregada”, justifica-se Rui Fernandes, director desportivo do clube. “É mais fácil captarmos um jogador de fora do que um português. Um estrangeiro que vem para cá quer-se promover, alcançar o maior sucesso possível. Somos um clube de interior, passamos dificuldades, não podemos sustentar uma equipa acima do que já fazemos. São estas as condições”.

As condições a que o director desportivo se refere são alojamento e alimentação. “Há um jogador que está aqui há dois anos sem receber nada. Tive sorte, sou um dos dois que têm contrato profissional”, conta Valentine. O clube até faz mais do que aquilo a que é obrigado: “No primeiro mês, deram-me um envelope com 100 euros, não sei quanto é que os outros receberam porque nos chamaram um a um, à parte”, recorda.

No Campeonato Nacional de Seniores, onde o AD Nogueirense joga, o regulamento da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) exige a inscrição de todos os jogadores, mas não obriga à realização de um contrato de trabalho: “É uma competição amadora, por norma os contratos realizam-se apenas para os profissionais”, confirma João Diogo Manteigas. Valentine é uma excepção porque, garante o director desportivo do AD Nogueirense, “não tem nacionalidade portuguesa, nem título de residência português”, fazer-lhe um contrato foi “a única alternativa”. Além disso, é um dos jogadores a quem a equipa técnica identificou mais potencial. Em caso de venda, com um contrato de trabalho, o clube garante a sua parte na transferência.

Dos jogadores do AD Nogueirense que partilham casa com Valentine, apenas o maliano Sydou Ouilly não está, nem nunca esteve, registado na FPF — de acordo com o motor de busca disponível no site da instituição —, apesar de já contar quatro anos em Portugal e ter passado por clubes como o Leixões Sport Club, o Futebol Clube de Oliveira do Hospital e o Sport Clube Mineiro Aljustrelense. Como explica João Diogo Manteigas, as fichas de inscrição exigidas pela FPF, sejam jogadores amadores ou profissionais, permitem estas lacunas: “Para registar jogadores, a única coisa que a federação exige é o seguro de medicina do trabalho e a ficha de inscrição. Vêem aqui alguma anormalidade? Não há. O miúdo entra legalmente em Portugal e quando é registado a federação não pede os documentos necessários que permitam saber se o jogador se encontra legal”, esclarece o advogado.

Valentine é disso exemplo. Três meses depois de ter chegado a Portugal com visto de turista — em 2013 — ficou em situação ilegal, mas só em Dezembro de 2015 recebeu a sua primeira autorização de residência. Apesar disso, o seu nome aparece registado na FPF como tendo jogado pelo Paços de Ferreira e agora pelo AD Nogueirense.

A FPF nega ter conhecimento destes casos e diz “não ser possível haver em Portugal inscrições que violem as regras da FIFA”. A instituição garante ainda que “monitoriza as transferências de jogadores e coopera com as autoridades portuguesas no sentido de identificar eventuais irregularidades”.

Valentine Akpey fez parte de um grupo de oito jovens que em 2013 saiu da Nigéria com destino a Portugal. Queria fazer da sua “paixão impossível” uma realidade. A esperança foi-lhe vendida em forma de promessa pelo treinador português Sérgio Daniel e pelo seu agente nigeriano, Tersoo John: tinha de mostrar o que valia, dar o seu melhor. Se o fizesse, ingressaria num bom clube, garantiam-lhe. Tinha 17 anos.

European Dream Came True era o nome do projecto promovido por Sérgio Daniel e pela academia De’ Elite Sports Group, uma empresa de caça-talentos onde, quando ainda tinha um site online, o empresário nigeriano Garba Tijani era apresentado como presidente, Tersoo John como vice-presidente e Sérgio Daniel como director técnico. “Este projecto consiste em escolher os melhores jogadores nigerianos dos 12 aos 23 anos para o AC Milan em Itália, o AS Mónaco em França e o SC Olhanense em Portugal, lê-se no fórum online Nairaland, onde a convocatória foi publicada há dois anos.

Valentine, apresentado na conta de YouTube de Sérgio Daniel como “Spider Man” e um dos “melhores diamantes” da academia, foi um dos seleccionados. Já em 2012 tinha sido escolhido, o então presidente do SC Olhanense esperava-o no Algarve, mas, nessa altura, o visto foi-lhe negado. Um ano depois, o destino quase lhe voltava a trocar as voltas: a caminho da embaixada de Portugal na Nigéria para a reunião de pedido de visto, o autocarro onde viajava com os outros jogadores foi parado por um grupo de assaltantes armados. Ficaram sem telemóveis, computadores, todas as suas malas foram revistadas. Valentine pensou que não chegaria a tempo: “Primeiro achei que não ia sobreviver, depois só pensava como é que ia aparecer na reunião com aquela roupa, sem tomar banho, sem lavar os dentes. Estava nervoso.”

Quando finalmente chegou, recorda que havia diferentes gabinetes, calhou-lhe um homem. Descreve a conversa como se fosse hoje: perguntaram-lhe para onde queria ir, por que motivo, quem o levava, quem pagaria o seu voo e para que clube iria jogar. Valentine respondeu a todas as perguntas. No final, “ele confirmou na Internet se o Sport Clube Estrela era um clube real e disse que a entrevista tinha terminado”, conta. A resposta só chegou duas semanas depois.

Valentine chegou a Portugal no dia 13 de Novembro de 2013, faltavam-lhe três meses para os 18 anos, não podia ainda assinar um contrato profissional. “Antes de virmos, a minha academia comprou um clube das distritais, o Sport Clube Estrela. Sabíamos que ficaríamos aí até nos habituarmos ao clima.” Treinaram durante um mês, fizeram alguns jogos amigáveis, chegaram a jogar com o Benfica e o Sporting. Foi durante uma dessas partidas, no Algarve contra o Olhanense, que um agente reparou nele: “Disse-me que eu era um bom jogador e que me queria levar para outros clubes.” Passada uma semana, Valentine estava a treinar nos Juniores do FC Porto. Foi assim que começou aquilo a que chama a sua “carreira profissional como jogador de futebol”. Depois do FC Porto, passou pelos Juniores do Paços de Ferreira, onde jogou durante uma época, mas acabou por ser dispensado antes de assinar o prometido contrato profissional.

Ficou sem clube e sem plano B. No Verão de 2014, enquanto passava férias em Portalegre, foi “apanhado” pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que lhe deu 20 dias para regularizar a situação ou abandonar o país.

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“Disse-me [agente] que eu era um bom jogador e que me queria levar para outros clubes.

No final de 2014, o SEF investigou 104 clubes e associações desportivas em todo o país e identificou 508 atletas estrangeiros, dos quais 203 estavam em situação ilegal. Em pelo menos 25 clubes, foram encontrados atletas sem visto ou cartão de residente, avançou o semanário Expresso em Fevereiro de 2015. No mesmo mês, o jornal Record publicou uma notícia intitulada “SEF retém jogadores no treino do Estrela de Portalegre [nome pelo qual é conhecido o Sport Clube Estrela]” e a direcção do clube informou na sua página do Facebook que não continuaria a participar do Campeonato Distrital de Seniores Masculinos.

Na tentativa de controlar o aumento de futebolistas estrangeiros sem documentos a jogar em Portugal, a Federação Portuguesa de Futebol, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, a Liga Portuguesa de Futebol e o Sindicato de Jogadores de Futebol Profissionais assinaram em Junho de 2015 um protocolo para “alargar o âmbito de cooperação quanto à obtenção de autorizações de residência de jogadores estrangeiros”, criar um grupo de trabalho que acompanhe casos de especial relevância e analise medidas “preventivas e sancionadoras adequadas” e promover acções de esclarecimento junto de agentes e organizações desportivas sobre a legislação de “entrada, permanência, saída e afastamento de cidadãos estrangeiros do território nacional”. “Tudo o que devia ter acontecido há anos só acontece agora, mas com uma coisa muito interessante: as regras para o registo do jogador na FPF não mudaram”, comenta João Diogo Manteigas.

Em Agosto deste ano, Valentine aceitou jogar pelo AD Nogueirense: “O meu agente teve de me trazer para aqui.” A pé, não alcança mais do que o único café de Nogueira do Cravo. Só sai da aldeia quando o treinador Rui Vale se disponibiliza a levá-lo à cidade mais próxima, Oliveira do Hospital. O seu dia-a-dia resume-se a dormir, ver filmes, treinar e “ficar focado”. “Tenho de me manter focado” é a frase que mais repete.

Desde que chegou a Portugal, sempre teve casa e comida mas nunca ganhou mais de 250 euros por mês, pagos pelo Paços de Ferreira, depois de cinco meses a queixar-se. Ainda assim diz não ter vindo iludido, repete que o seu agente, Tersoo John, “um grande amigo”, é diferente dos “outros agentes”: “Compra-me tudo o que preciso e também me dá dinheiro para enviar à minha família.”

Valentine deixou a Nigéria à revelia da família e dos amigos. Pouco depois de o seu irmão mais novo, que também se preparava para vir para a Europa, ter morrido: “Estava a jogar futebol, chovia muito e veio um raio. Quando o relâmpago chegou ao chão, todos os jogadores caíram. Foram-se levantando, um por um. Todos menos o meu irmão.” Não se arrepende da decisão, mas tem saudades, muitas. Da comida, da namorada, da mãe. Se quisesse voltar para a Nigéria, tem a certeza de que Tersoo John lhe pagaria o bilhete. Mas não quer, ou não pode, ou não consegue sequer imaginar a hipótese. Não assim, sem nada, com o sonho por cumprir.

A versão multimédia deste artigo está originalmente publicada em futebol.divergente.pt. Divergente.pt é um projecto jornalístico dos Bagabaga Studios. Este trabalho foi realizado com o apoio do Journalism Fund