Marcelo Desce Outra Vez à Terra

Uma estrelinha em Belém

Um Novo Mandamento (bastante apócrifo) surgiu no mundo. Os Manuscritos do Mar do Guincho, encontrados sob cascas de moluscos nas arribas fósseis da marisqueira Porto de Santa Maria. A revelação: o restaurante inaugurou em 1947, um ano antes do nascimento do salvador da Direita para as presidenciais

“Só serei candidato a líder do PSD quando Jesus Cristo descer à Terra”, disse uma vez, em modo místico, o profeta-professor Marcelo. E o milagre repete-se e parece que um messias omnisciente e omnipresente vai descer, ou subir, a Belém, como anunciam as escrituras da PàF (“PàF”, vírgula, essa criatura era obra ilegítima do diabo e a terra já a comeu).

Está tudo descrito no livro dos actos dos profetas relutantes S. Paulo Rangel, S. Pedro Coelho, S. Paulo Irrevogável e na epístola da Santa Televisão Independente (TVI):

Genealogia de Marcelo:
Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacob, Jacob gerou Judá e seus irmãos, Judá gerou Farés e Zara de Tamar, Farés gerou Esrom, Esrom gerou Aram, Aram gerou Aminadab, Aminadab gerou Naasson, bom, e — passando por cima de umas centenas de gerações, que não temos o dia todo para isto — o Estado Novo e o catolicismo e o 25 de Abril e o capitalismo e a Faculdade de Direito e o Estoril Open e as Insónias geraram Marcelo. Só não sabemos o que Marcelo vai gerar.

Conceição virginal de Marcelo:
Estando a sua mãe Social-Democracia já noiva do PSD, antes de os dois habitarem juntos, notou-se que ela tinha concebido do Espírito do Santo Poder. E o PSD, sendo justo e não querendo denunciar a Social-Democracia publicamente, apesar de se sentir enganado por ela, resolveu repudiá-la em segredo. E, pensando o PSD nisto, um Anjo do Pragmatismo apareceu-lhe em sonhos, dizendo: “PSD, filho do PPD, não temas receber a Social-Democracia por tua esposa, pois o que nela se gerou tem mesmo hipóteses de um dia governar o país. Um dia dará à luz uma criatura, de nome Cavaco, e este andará por aí por trinta anos a mandar em vosso nome, até que já ninguém poderá aguentar, e a multidão o quererá ver pelas costas e apedrejá-lo, por causa da sua voz irritante. E mais tarde virá um professor magrinho para apaziguar o povo com umas gargalhadas e bifanas na Festa do Avante! Depois disto, o pai PSD recebeu a mensagem e recebeu a esposa, que deu à luz um filho irrequieto que não os deixava dormir e chamou-lhe Marcelo-a-Presidente.”

Adoração dos Magos:
Tendo Marcelo nascido no eixo Lisboa-Cascais, no tempo de Herodes Salazar, bem cedo quis mudar-se para Belém, para onde uma estrelinha o apontava. Uns Magos do Oriente viram-no a falar na televisão e começaram a adorá-lo, porque as audiências batiam até as do sábio Salomão e convenceram-se de que só Marcelo poderia apascentar o seu povo, porque ele sabia de tudo, desde política a pintura de barcos. E mandaram-lhe ouro, incenso e um leitão da Bairrada, que ele exibiu em directo, alegrando-os enormemente.

Os parentes de Marcelo procuravam-no:
A multidão junta-se de novo, de modo que nem mesmo podiam comer. E os de Marcelo, tendo ouvido, saíram para o deter porque dizia-se: “Está fora de si, já nada o pára na sua loucura, agora até faz o lançamento da candidatura na Voz do Operário.”

Marcelo motivo de divisões:
“Não julgueis que vim trazer paz à terra. Eu não vim trazer a paz mas a guerra. Porque vim separar o homem do seu pai, a filha da sua mãe, a nora da sogra, e os inimigos do homem serão os da sua casa, e os ultraliberais do PSD e do CDS terão de engolir um sapo e votar em mim porque eu acho legítimo o Governo PS junto com sua esquerda e com os sindicatos, e até há militantes do PCP e apoiantes do Bloco de Esquerda que querem votar em mim. Aliás, segundo as últimas sondagens ou já ganhei isto ou estou lelé da cuca.”

Contra o divórcio:
“Eu digo: todo aquele que repudia a sua mulher, a não ser em caso de concubinato, faz que ela seja adúltera; e aquele que casa com a repudiada adultera. Aliás, não fui eu que disse isto, mas concordo, o que é que se há-de fazer? Queriam modernices ou quê?”

Renunciar a si para votar Marcelo:
“Quem ama o partido ou a coligação mais do que a Marcelo não é digno de Marcelo. E quem ama o ministro ou a deputada mais do que a Marcelo não é digno de Marcelo. Quem encontrou razão de votar noutro candidato perdê-la-á e quem não encontrou razão noutro candidato tipo Maria de Belém, Sampaio da Nóvoa ou Marisa Matias, encontra o seu voto em Marcelo logo à primeira volta, que é para isto ficar despachado e podermos ver os torneios de Wimbledon e Roland Garros em paz.”

Marcelo manso e humilde:
“Vinde a mim, todos os que vos afadigais e vos dobrais sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai o meu jogo e a minha graçola sobre vós, como o catavento sobre o telhado, e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis repouso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. Apesar de só dormir três horas por noite, trago sempre aspirinas e livros nas algibeiras, e também gotas para o nariz. O país não quer um presidente cinzento, mas um presidente que saiba vestir um pullover amarelo e usar panamá na cabeça, no passeio do Tamariz.”

Via Sacra e Crucifixão:
Por enquanto, nada no Gólgota, Marcelo continua com bom share televisivo e eleitoral. A hipótese de ser derrotado em Belém não lembra ao careca.