Debaixo deste sol

A verdade é que aqui ainda é verão. Então o melhor é segurarmo-nos à bruma azul que atinge o mar ao fim do dia. E apanhar corais com as mãos.

Acho que já disse isto, que há um texto mais ou menos sagrado sobre o qual nós não falamos mas que sempre nos aparece. Um texto às vezes manso e outras vezes nem tanto, um texto que nos atropela como um carro vermelho ao fim da tarde na cidade. Um texto mágico. Que nos une, que nos separa, que de cada vez é diferente. Como nós somos diferentes em cada manhã. A regeneração é o único negócio certo. Talvez eu não tenha dito isto, não. Talvez a esta mesa tenhamos só falado de certas canções permanentes  (Dylan, Cash & etc), de política, de como em determinada altura entendemos que a política está em todas as coisas mas que nem sempre queremos participar de todas as coisas. Talvez tenhamos falado do sal que nos ataca as veias e que ao mesmo tempo nos sustenta o rosto, ou do medo, falamos muitas vezes do medo que temos de certos temporais e do estado do mundo agora. Falamos de quase tudo à nossa mesa, mas nunca daquele texto.

Falamos de outros textos, claro. Falamos até do que não chegou a ser escrito mas que foi avistado ao longe, como a grande gaivota que esta manhã pousou no lampião da nossa rua e se fartou de assobiar. Parecia um canto árabe. Ainda nem eram oito horas e aquele acontecimento já se relacionava em tudo com uma grande promessa - quando um bicho se aproxima assim dos homens e dos metais, é caso para dizer ámen. Sim, falamos destas coisas bastante cedo, desde o princípio. E falamos de tudo à mesa porque alguém me disse uma vez que à mesa não se envelhece. Falamos da defesa de um país e da defesa de uma casa, dos deuses que mantemos à cabeceira, da desconstrução, falamos da importância de um campo de colheita devastado. Falamos das palavras que foram postas na boca do Rei Salomão e que nunca nos abandonaram, das viagens rumo ao sul e dos regressos rumo ao norte. E do vento que nos revolve o estômago.

Aqui também conversamos sobre as coisas que vamos recortando dos jornais. Um texto sobre o estado da região, outro sobre os resultados desportivos num país meio distante, outro ainda sobre o clima. Recortamos muito aquela coluna inglesa que fala de jardinagem porque ela é da maior importância. Parece-me sempre que o homem que assina a crónica “On Gardens” no Financial Times, Robin Lane Fox, usa os jardins para poder falar de poesia. Acho muitas vezes que quem fala da natureza está conspirando a favor da graça e da caverna da magia. Ainda há poucos dias tropecei numa frase dele que dizia “os jardins nunca estão realmente acabados”. Certos amores também não. Talvez só os jardineiros e os exploradores das rochas estejam conscientes disso. Temos tudo a aprender com os homens do relento.

Falando em vida lá fora e falando em exploradores, preciso dizer que aqui no hemisfério norte ainda é verão. Nos últimos verões tenho quase sempre voltado ao mesmo livro, um que é feito de notas e mais notas escrevinhadas entre dezenas de países. Tem postais também. De vez em quando parece-me que os postais é que são a tabela fundamental da viagem e talvez até da literatura, mas posso estar errada. Tenho errado muitas vezes e ainda bem. O livro, o tal livro dos verões, mostra as cartas do Bruce Chatwin para casa e para alguns amigos. Começa em Beirute e termina Deus sabe onde. Suspeito que Chatwin nunca chegou a desaparecer, dizem que morreu em 1989 mas sempre que leio a sua caligrafia acho que ele ainda está connosco, mesmo à nossa porta - olho para o lado e ele ainda é o rapaz de cabelo desalinhado que escreve tudo em cima da pedra húmida que nos governa os dias. Quem envia cartas aos pais que dizem coisas como Ontem passei o dia inteiro a apanhar corais com um grupo de napolitanos. Esta manhã fui visitar uma metrópole escavada na rocha, de bicicleta. Boa comida, mas esta não é a época do javali, ele nunca desaparece. É, não falamos exatamente daquele texto sagrado, mas quase falamos. O Debaixo do Sol reúne as cartas de Bruce Chatwin quase como o Livro do Eclesiastes nos reúne as cabeças. Somos só um bando de cabeças despidas caminhando aflitas sob os astros e sob os postes elétricos. Aproveito a tradução do Eclesiastes feita por Haroldo de Campos para repetir agora: névoa-nada. Aqui debaixo deste sol é tudo névoa-nada.

Mas a verdade é que aqui ainda é verão. Então o melhor é segurarmo-nos à bruma azul que atinge o mar ao fim do dia. E apanhar corais com as mãos.

Crónica mensal da escritora Matilde Campilho