Abertura de Veneza sem oxigénio: Everest

Mesmo sem ser catastrófico, Everest não é filme-catástrofe que se sinta. A turbulência estava noutro sítio: Un Monstruo de Mil Cabezas, do urugaio Rodrigo Plá.

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Abertura da 72ª edição do Festival de Cinema de Veneza, dirigido pelo islandês Baltasar Kormákur, Everest reconstitui os acontecimentos de uma trágica expedição à montanha, em 1996 – a subir tudo bem, triunfo, bandeiras espetadas na neve e tudo, a descer é que se complicou com as tempestades e falta de oxigénio.

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Abertura da 72ª edição do Festival de Cinema de Veneza, dirigido pelo islandês Baltasar Kormákur, Everest reconstitui os acontecimentos de uma trágica expedição à montanha, em 1996 – a subir tudo bem, triunfo, bandeiras espetadas na neve e tudo, a descer é que se complicou com as tempestades e falta de oxigénio.



Talvez por ser baseado em factos verídicos – os corpos dos mortos continuam sepultados lá em cima - o projecto ficou preso na funcionalidade do docudrama. Mas é verdade: passámos o filme a pensar nas alturas a que James Cameron subiu quando mergulhou no Abismo, em 1989 – a pensar nesse e noutros daqueles seus filmes em que os casais se formavam e reinventavam, mesmo morrendo, com a energia da catástrofe que estava em fundo – ou nos mais domésticos fulgores de um Wolfgang Petersen (o de Tempestade Perfeita, 2000).

Haveria material para isso, há casais que se despedem ao telefone, por exemplo, se... se Everest não despachasse as sequências em modo funcional, como um registo de factos e figuras, sem haver sinais de perturbação emotiva no espectador a não ser, aqui e ali, a vertigem causada pelos óculos 3D – o que é fácil.

O que quer que se pense sobre Birdman, de Alejandro González Iñárritu (em Veneza 2014) ou sobre Gravity, de Alfonso Cuarón (em 2013), havia neles uma convicção de espectáculo que fazia com que, por exemplo, “escrevessem” alguma coisa de si sobre o perfil de “filme de abertura de festival”. Mas isso o filme de Kormákur (que em tempos integrou uma lista da Variety dos “10 realizadores a ter em conta”, ao lado de Iñárritu, Lukas Moodysson, Christopher Nolan) não é capaz de o fazer.

A turbulência estava, afinal, noutro sítio, na secção Horizontes, a parte do programa oficial dedicada aos novos caminhos de expressão do cinema, com Un Monstruo de Mil Cabezas, do urugaio Rodrigo Plá. Dura “apenas” 75 minutos, o que é duração pouco convencional, mas isso pode começar a antecipar o que o filme é. Melhor: como Rodrigo Plá investe um argumento, que tem tudo para ser – e no fundo é – de denúncia social e tem tudo para estar ao serviço de um “tema”, com uma concentração de ferocidade que é libertadora.

A história é a de uma mulher desesperada com o facto de o marido, doente canceroso, não poder ter acesso a um medicamento que aliviará o seu sofrimento e impedirá o alastramento da doença – não poder por causa dos acordos, um pacto negro, entre a Medicina e as Seguradoras que enriquecem os interesses dos seus agentes. Perante isso, perante o esquecimento a que é votada, a mulher investe, com o filho atrás que quer impedir o pior, contra a clínica e contra o escritório da seguradora. Entra mesmo na casa dos seus alvos de pistola em punho... precisa apenas que um documento seja assinado.

Exactamente no momento em que a denúncia do complot social podia tornar-se óbvia, redundante, Rodrigo Plá insinua no filme um sentido de pesadelo (e de humor), esmera-se na construção plástica da realidade como laboratório de experiências sobre o humano, e coloca o filme num outro território, nunca o fechando na máquina de jogos de cinema apenas deslumbrada com os seus efeitos nem no pesado maquinismo da denúncia – estilhaça, como uma série B, que é aliás todo o "clima" do título do filme : Un Monstruo de Mil Cabezas. Este, sim, foi o verdadeiro filme-catástrofe.