Obama no Quénia — uma visita necessariamente diferente

Cooperação na área de segurança e economia dominam deslocação do Presidente dos EUA à terra do pai. Preocupação com a Shabab criou um ambiente "sufocante" em Nairobi.

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Leva uma agenda dominada por questões de segurança e economia, que começa a discutir no sábado. Mas a componente pessoal da sua biografia não deixará de estar presente. Para muitos, o Presidente dos EUA, filho de um estudante queniano que foi para fora e se enamorou por uma antropóloga do Kansas, é um deles, apesar de ter nascido, crescido e se ter formado na América.

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Leva uma agenda dominada por questões de segurança e economia, que começa a discutir no sábado. Mas a componente pessoal da sua biografia não deixará de estar presente. Para muitos, o Presidente dos EUA, filho de um estudante queniano que foi para fora e se enamorou por uma antropóloga do Kansas, é um deles, apesar de ter nascido, crescido e se ter formado na América.

Depois daquela primeira viagem, agora recordada pelo New York Times, quando o jovem Barack procurava preencher o “grande vazio” que sentia dentro de si, e encontrar o seu lugar no mundo, voltou uma segunda e uma terceira vez, esta última em 2006, era já senador. Desta vez, prestes a completar 54 anos, chega como Presidente dos EUA e é o primeiro a fazê-lo no exercício de funções.

Obama não terá agora a liberdade de movimentos de que gozou em 1987, quanto conheceu parentes africanos, nem deverá poder satisfazer o desejo de o receber manifestado por Mama Sarah, a terceira mulher do avô paterno, 94, com quem não tem ligação de sangue, mas que considera avó e que visitou em deslocações anteriores. A Casa Branca informou que terá contacto com familiares mas não irá a Kogelo, aldeia de origem do pai, na região ocidental. “Como qualquer pessoa, [Obama] é curioso sobre a sua ascendência. Visitar o Quénia dá-lhe a oportunidade de fazer essa ligação pessoal”, disse, numa entrevista citada pela Reuters, Valerie Jarret, assessora principal e amiga do Presidente dos EUA.

É possível que as teorias de conspiração que fazem as delícias de opositores, caso de Donald Trump, de que Obama nasceu no Quénia e não no Hawai – e portanto não poderia ser Presidente – tenham, nos seus primeiros anos na Casa Branca, condicionado o seu relacionamento com África.

No primeiro mandato, recorda o New York Times, passou apenas de 24 horas na África subsariana. Chegou a ser acusado de fazer menos pelo relacionamento com o continente do que o antecessor, George W. Bush. No segundo corrigiu o tiro: acolheu uma cimeira de líderes africanos em Washington, impulsionou a renovação de um programa de comércio preferencial com África.

O Power Africa, um projecto para duplicar o acesso a energia eléctrica, lançado em 2013 mas que tem andado mais devagar do que o previsto, foi por ele impulsionado. Tal como o Feed the Future, um programa de assistência alimentar. E a visita que agora inicia é a quarta oficial à África subsariana – mais do que qualquer dos seus antecessores.

 “A África é um lugar de um dinamismo incrível, onde se encontram alguns dos mercados com maior crescimento do mundo, pessoas extraordinárias, com uma resiliência extraordinária”, disse, citado pela AFP, antes de deixar Washington, numa recepção a diplomatas, políticos, empresários e responsáveis de organizações não-governamentais.

As acusações de crimes contra a humanidade que até há poucos meses visavam o Presidente do Quénia, Uhuru Kenyatta, entretanto retiradas pelo Tribunal Penal Internacional, podem ter impedido que a deslocação acontecesse mais cedo.

Lembrar 1998
Os detalhes da visita, que em termos protocolares começa apenas no sábado, não foram divulgados por motivos de segurança. Sabe-se que presidirá à Global Enterpreneuship Summit, uma iniciativa que lançou numa histórica visita ao Cairo, em 2009, com o objectivo de estimular o empreendedorismo. Está igualmente prevista uma homenagem a vítimas e sobreviventes do atentado da Al-Qaeda contra a embaixada dos Estados Unidos, que em 1998 provocou 224 mortos e cerca de cinco mil feridos. Da agenda consta ainda um discurso em que se admite que possa mencionar a ligação familiar ao país.Tudo sob forte medidas de segurança.

Josh Earnest, um dos porta-vozes do Casa Branca, disse que viajar para o Quénia não é o mesmo do que deslocar-se a zonas de guerra como o Iraque, ou o Afeganistão. Mas a ameaça da milícia somali Al-Shabab – autora de atentados como o que em Abril matou 148 pessoas na universidade de Garissa, junto à fronteira com a Somália – levou a um acentuado reforço da segurança em Nairobi.

Nas últimas semanas chegaram à capital centenas de agentes secretos norte-americanos e o comandante da polícia da capital, Benson Kibue, disse, na quarta-feira, que 10.000 polícias, quase um quarto dos efectivos do país, iam ser deslocados para a cidade. “O nível de segurança é sufocante”, disse Abdullahi Halakhe, analista de questões de segurança na região, citado pela AFP.

Nas deslocações em solo queniano Obama viajará numa limousine anti-bomba. “O Presidente americano é um alvo muito importante, um atentado ou mesmo uma tentativa, daria visibilidade à Shabab”, disse à agência Richard Tutah, especialista em segurança.

Nos contactos de Obama com Kenyatta a luta contra o terrorismo islamista será um ponto “central das discussões”, segundo a presidência queniana. Convém ter presente que o Quénia é um importante aliado dos países ocidentais na luta contra a Al-Shabab.

Do Quénia, Obama segue para a Etiópia, onde tem chegada prevista para segunda-feira, numa visita também para fazer História: será o primeiro Presidente dos EUA a visitar o país e o primeiro a falar na União Africana, que tem sede em Addis Abeba.

Activistas dos direitos humanos escreveram a Obama a manifestar-lhe preocupação pela forma como os dois países respondem com medidas de segurança abusivas aos problemas de insegurança. A conselheira nacional de Segurança, Susan Rice, disse que o Presidente não hesitará em manifestar as suas preocupações sobre essa matéria. Mas além de tudo o resto que possa dizer, desta vez, os olhares vão também estar centrados no modo como lidar com as suas ligações familiares.