A crítica da política do presente está na ficção científica

Para Jake Bowers, professor de Ciência Política, uma das melhores formas de perceber os problemas políticos e sociais dos nossos dias é estudar o que nos revela a imaginação de alguns autores de ficção futurista.

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“Qualquer tentativa de imaginar o futuro tem de se construir no presente e reflecti-lo” GUS RUELAS/REUTERS

Objectivo: encontrar na imagem do futuro uma crítica social e política do presente. E “construir capacidade mental para enfrentar a expectativa e a realidade”. No próximo dia 12, Bowers vai estar na Casa da Música, no Porto, a debater com Bruce Sterling – autor consagrado de ficção científica – na conferência "Admirável Mundo Novo", da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

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Objectivo: encontrar na imagem do futuro uma crítica social e política do presente. E “construir capacidade mental para enfrentar a expectativa e a realidade”. No próximo dia 12, Bowers vai estar na Casa da Música, no Porto, a debater com Bruce Sterling – autor consagrado de ficção científica – na conferência "Admirável Mundo Novo", da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

PÚBLICO: Um dos cursos que lecciona chama-se “Política do futuro” e tem como ponto de partida a ideia de que imaginar o futuro ajuda-nos a perceber o presente. Como?
Jake Bowers: Qualquer tentativa de imaginar o futuro tem de se construir no presente e reflecti-lo. Isto é, pensar o futuro não pode dispensar  a crítica e o comentário sobre o presente. De facto, aposto que se uma pessoa normal se dedicasse a escrever o que imagina ser o futuro aprenderia algo sobre o que ela própria pensa acerca do presente.

E é nessa medida que a ficção científica e a ciência política se podem cruzar?
O que me atrai nas ciências sociais é poder integrar esse grande grupo de pessoas que trabalham para melhorar o mundo. Suspeito que as minhas leituras juvenis de livros de ficção científica me fizeram acreditar na ideia de que grupos alargados de pessoas criativas e enérgicas, trabalhando juntas, podem mudar o mundo para melhor. O meu trabalho científico, no dia-a-dia, não tem nenhuma relação directa com a ficção científica – como a maioria dos cientistas políticos, tento responder a questões difíceis sobre a política e a sociedade, como por exemplo: Por que tanta gente na Nigéria defende a violência como parte do conflito político? Pode um esforço internacional, por exemplo através da televisão, mudar as práticas sociais violentas? Ou questões mais complexas sobre as próprias ciências sociais: Como podemos estudar a política e a sociedade se não podemos recorrer a testes laboratoriais?

É aí que entra a ficção científica? Costuma descrevê-la como uma ferramenta para avaliar a crítica social no presente. Pode dar-nos alguns exemplos de como livros populares do género retratam um futuro político ideal? Ou o contrário: um futuro nebuloso?
A melhor ficção científica é a mais complexa. Por exemplo, Holy Fire, de Bruce Sterling, mostra um mundo em paz, um mundo em que as pessoas vivem vidas produtivas mais longas e saudáveis (a parte boa) mas também um mundo em que os jovens têm muito pouco poder e onde organizações para-estatais desenvolvem uma vigilância intrusiva (a parte má). Os livros de Charles Stross, Neal Stephenson, Iain Banks, David Brin, Kim Stanley Robinson, todos imaginam futuros mistos, com nuances. Até Ernest Callenbach, em Ecotopia, mostra a parte boa e a parte má da sua visão ambientalista de uma sociedade ideal.

Um dos politicos mais influentes na Europa, actualmente, Pablo Iglesias, do Podemos espanhol, diz que gosta da Guerra dos Tronos. Embora não seja, tecnicamente, ficção científica, acredita que é pela mesma razão que aponta?
Não. Acho que a Guerra dos Tronos nos ensina algo sobre a política como competição pelo poder, no mesmo sentido em que O Principe, de Maquiavel, mas não creio que se baseie na imaginação de um futuro enquanto crítica social e política. Talvez possamos ver a morte e a traição na Guerra dos Tronos como uma lição sobre como não fazer política. Mas isso tem mais a ver com a forma como a literatura pode ser política e socialmente crítica e não tanto como exemplo de uma escrita orientada para o futuro.

E focando-nos no Podemos, ou outros movimentos políticos europeus, como os Piratas, ou mesmo partidos mais “tradicionalmente” populistas, como o italiano 5 Estrelas, acha que são exemplos de política do futuro?
Esses partidos representam mais a política do presente do que a do futuro. Apenas se diferenciam porque deixaram de fazer política do passado, como os outros partidos, e talvez estejam a recorrer mais à tecnologia para se organizar e mobilizar. Por exemplo: se uma empresa deixa de precisar de muitos empregados e se organiza em redes de produção e de serviços promovidas por trabalhadores independentes, e se essas próprias redes mudam rapidamente de forma, então a dicotomia trabalho-capital começa a parecer antiquada. Ou, outro exemplo, se usamos as redes sociais para deixar de fazer campanha porta-a-porta. Eu próprio não tento imaginar uma “política do futuro” particularmente sectária, mesmo estando certo de que os seres humanos se organizarão sempre em facções, antagónicas, mesmo se as bases desse debate entre facções mudam, com o tempo.

Como professor, acredita que imaginar o futuro é, de alguma maneira, mais apelativo para os estudantes de ciência política?
Acredito que os jovens devem passar algum tempo a imaginar o futuro. Penso até, seguindo o futurismo de Jamais Cascio, que os jovens deviam imaginar dois futuros, um bom e um mau (ou estranho). O objectivo é construir capacidade mental para enfrentar a expectativa e a realidade. Na Universidade do Illinois o meu curso é popular, mas é pequeno – cerca de 25 alunos. Por isso, não lhe sei responder se é mais apelativo discutir em simultâneo livros de ficção científica com livros de filosofia política, do que qualquer outra forma forma cool de debate que as universidades como a minha proporcionam. Eu, por mim, adoro.  

E como vê o desinteresse da juventude americana e europeia pela política e, em simultâneo, o seu papel precário na economia, com níveis de desemprego que chegam a 50% em alguns países?
O assunto do desinteresse dos jovens pela política é um longo e velho debate, desde que os cientistas sociais o começaram a estudar no anos 50. Isto é, os jovens sempre se interessaram menos por política do que a geração da meia-idade. Isto é verdade mesmo para os anos 60. Nessa altura, os estudantes universitários eram particularmente activos, mas eram uma minoria entre os jovens. O problema do desemprego entre os que têm relativas baixas qualificações (e que afecta os jovens que nem sequer conseguem dispor de uma primeira experiência laboral na sua área) ainda vai ser maior no futuro. Por isso insisto na importância da imaginação política. Precisamos de muitas ideias para gerir este período de transição de 20-50 anos. Por isso, os jovens deviam estar a escrever e a debater e sobretudo a imaginar o futuro agora. Tenho a certeza que muitos países tentarão abordagens diferentes – que serão mais ou menos populares dependendo do que se passa e passou na política interna desses países. E espero que se possa aprender com os resultados desses vários êxitos e fracassos.