Quando há seca na Califórnia, pinta-se o relvado de verde

O mais importante estado agrícola americano está a começar a enfrentar a sério as consequências de quatro anos com falta de chuva – que podem ser o novo normal

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“Vou ter de pôr um cartaz a dizer que o meu jardim está pintado, senão os meus vizinhos pensam que eu continuo a regar todos os dias e vão denunciar-me”, disse a moradora de Escondido, nos arredores de San Diego, com um sorriso de orelha a orelha ao ver o verde brilhante regressar ao seu relvado, depois de pintado com a tinta da Lawnlift.

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“Vou ter de pôr um cartaz a dizer que o meu jardim está pintado, senão os meus vizinhos pensam que eu continuo a regar todos os dias e vão denunciar-me”, disse a moradora de Escondido, nos arredores de San Diego, com um sorriso de orelha a orelha ao ver o verde brilhante regressar ao seu relvado, depois de pintado com a tinta da Lawnlift.

Jim Power, o fundador desta empresa especializada na pintura de relvados não tem tido mãos a medir este ano, reconheceu à AFP. “As vendas duplicaram em Março, em relação ao ano passado”, contou. Os clientes desta tinta não tóxica, com pigmentos naturais, que dura 12 semanas e resiste à chuva são pessoas que “não aguentam ver o tapete de relva morta sempre que chegam a casa”, explica. “Quando se deixa de ter o direito de regar, não há muitas opções”, até porque uma vivenda rodeada de um relvado morto perde valor.

Uma das opções possíveis é arrancar a relva – há compensações financeiras para quem o fizer, um tanto pago por cada metro quadrado arrancado. Há empresas especializadas em fazê-lo, como a Turf Terminators, que depois oferece também o serviço de substituir o relvado verdinho e devorador de água por plantas nativas da Califórnia, cactos e flores selvagens, que pouco bebem, e jardins de pedra. Há mesmo uma explosão das empresas que se especializam neste tipo de paisagens. Ou então há quem se renda aos relvados artificiais – muitos californianos puseram de lado os preconceitos e fizeram-no, em nome do ambiente ou da sua carteira.

Cortar, cortar
Este é já o quarto ano de seca severa na Califórnia, o maior estado norte-americano, onde vivem perto de 39 milhões de pessoas e cuja economia no valor de 2,2 biliões de dólares tem uma dimensão semelhante à de Itália. A agricultura é que consome a parte de leão da água – 80% - embora não seja sujeita à redução obrigatória de 25%, em média, no uso de água imposta a nível estadual pelo governador.

Numa decisão não isenta de críticas, a agricultura ficou de fora por causa da importância da Califórnia na produção alimentar: um quarto de tudo o que se come nos EUA é ali produzido, e cerca de metade das frutas e frutos secos. Assim, apenas o consumo urbano será sujeito a esta redução obrigatória – a primeira declarada na Califórnia.

Os cortes variam consoante os níveis de consumo de cada zona: quem já é mais poupado, terá de cortar menos, os mais esbanjadores podem ter de reduzir até 36% no seu consumo de água.

A região de Sacramento, onde há residências com grandes jardins, e muitas casas nem sequer têm contadores de água, será das que terá de controlar mais os gastos, segundo o jornal Sacramento Bee. Enquanto cada habitante de Sacramento gasta 632 litros de água por dia, quem mora em São Francisco consome 174 litros. Já em Los Angeles e San Diego, as duas maiores cidades do estado, gastam-se 352 e 310 litros por pessoa diariamente. A média do estado da Califórnia é de 469 litros por habitante diariamente – muito acima da média portuguesa, 220 litros por pessoa.

A entrada em vigor destes cortes – que implicam também multas e mudanças no tarifário – parece ter chamado realmente a atenção dos californianos para o problema da seca, que os cientistas dizem ser a pior dos últimos 120 anos, pelo menos desde que se fazem registos regularmente. Só este ano, os prejuízos da seca podem chegar a 2700 milhões de dólares.

Esta semana foi a primeira vez que a seca foi citada como o assunto que mais os preocupa, segundo uma sondagem do Public Policy Institute da Califórnia. Para 39% dos inquiridos, ultrapassa em urgência os problemas do desemprego e da economia. Outro sinal de que a mensagem estará a chegar é que os californianos reduziram em 13,5% o seu consumo de água em Abril, depois da ordem executiva assinada pelo governador Brown. Foi um grande passo: nos últimos 11 meses, disse o Los Angeles Times, apenas tinham reduzido 9%, cumulativamente.

A grande novidade introduzida pela obrigatoriedade da poupança de água é levar os californianos a olhar para a forma como consomem – ou desperdiçam – algo que dão por garantido.

Em todo o estado, diz o Washington Post, 25 milhões de habitações não têm contadores de água, e muitas dessas casas ficam no Vale Central – uma zona que é o centro agrícola da Califórnia. Esses consumidores ou pagam um montante fixo ou então não pagam nada pela água, porque é impossível saber quanta gastam. “Isto é produto do tempo em que havia muita água, da forma como o estado se desenvolveu. Toda a gente tinha a água que queria”, comentou Peter Gleick, do think tank dedicado à política da água Pacific Institute.

O pacto e as amêndoas
Embora o decreto do governador tenha isentado os agricultores dos cortes, os produtores do Delta do Rio San-Joaquim-Sacramento, que têm cerca de 10% das terras agrícolas californianas, ofereceram-se para abdicar de um quarto da sua água nesta estação, quer reduzindo o seu consumo, quer deixando parte das suas terras por cultivar. Em troca, pediram garantias de que o estado não lhes exigisse mais reduções durante esta época de cultivo.

O pacto foi aceite pelo governo estadual, na esperança que sirva de exemplo para outros grupos de agricultores – incentivando a moderação do uso da água na agricultura, que fica com a parte de leão deste recurso natural (80%). “Este é um avanço no que tem sido uma batalha de retórica. É um ponto de viagem”, afirmou Felicia Marcus, secretária do Conselho Estadual de Controlo da Água.

A Califórnia tem 77.900 quintas, que geraram 46.400 milhões dólares em vendas em 2013, segundo o Washington Post. É o estado com maior produção agrícola, à frente do Iowa. Mas desde que foram declarados os cortes de água, os agricultores tornaram-se um dos bodes expiatórios da crise da seca.

Correram rios de tinta sobre quanta água é necessária para fazer crescer uma única amêndoa (cerca de 3,7 litros), por exemplo. A área dedicada à plantação de amêndoas duplicou nos últimos 20 anos e hoje é o segundo produto agrícola mais lucrativo da Califórnia, a seguir ao leite: valeu 5800 milhões de dólares em 2013. Mas as amendoeiras não podem ser arrancadas, ou deixadas morrer: as árvores duram muitos anos, e têm de continuar a ser regadas, mesmo em situações de seca.

As árvores vermelhas
Quanto às famosas florestas da Califórnia, têm pago um elevado preço pela seca. Pelo menos 12,5 milhões de árvores morreram e milhões vão morrer ainda neste Verão, afirmou o biólogo Jeffrey Moore, dos Serviços Florestais dos EUA, após um estudo aéreo feito em Abril. O verde está cheio de manchas vermelhas, roxas e castanhas – as árvores mortas.

Os guardas da Floresta Nacional de San Bernardino chamam “árvores vermelhas” às vastas extensões de pinheiros ressequidos, conta o Los Angeles Times. “Não é como no Leste, em que as árvores ficam com cores outonais. Aqui é porque as árvores estão a morrer”, explicou John Miller, porta-voz da floresta.

Com o Verão a chegar, a situação é de alto risco. “Estamos a ver os incêndios florestais nos EUA a crescer para dimensões que eram inimagináveis há 20 ou 30 anos. Em 2015, a tendência deve continuar”, afirmou o chefe dos Serviços Florestais Tom Tidwell, citado pela revista Time.

 Ao contrário do que se poderia pensar, neste caso o suspeito número um pelos quatro anos de seca não são as alterações climáticas, mas antes a natural variabilidade climática. No passado, o Oeste americano já viveu períodos ainda mais longos de seca – durante décadas ou centenas de anos. No século IX, começou uma seca que durou 200 anos e no XIII iniciou-se outra que se prolongou pelo menos por 150 anos, descobriram os cientistas através de métodos como a análise dos anéis de crescimento das árvores, por exemplo.

Na verdade, todo o desenvolvimento acelerado do Oeste dos Estados Unidos, desde o século XIX, pode ter-se passado durante um período extraordinariamente húmido da história geológica do Oeste americano, comentou ao New York Times Richard Seager, um climatólogo do Observatório da Terra Lamont-Doherty Earth, em Nova Iorque.

Os grandes projectos de barragens, transvases e aquedutos, que grosso modo transportam a água do Norte do estado verdejante para o Sul desértico, podem deixar de ser viáveis, num futuro próximo de secas prolongadas como esta – que os modelos climáticas dizem que serão mais prováveis por causa das alterações climáticas.

Embora não sejam as alterações climáticas que estejam por trás da seca na Califórnia, introduzem uma perturbação no sistema. A maior parte dos modelos mostra o Norte da Califórnia a tornar-se mais húmido nas próximas décadas, e as temperaturas a aumentar em todo o estado. Isso faz aumentar a evaporação, e favorece a chuva em vez da neve. Por isso, haverá menos neve a acumular-se no topo das montanhas mais altas, e a funcionar como um reservatório de água.

É o que o se está a passar já este ano: as temperaturas estiveram altas no Inverno, havia pouca neve e já derreteu toda. Não há reservas para reforçar as linhas de água nos meses mais quentes. Muitas torneiras vão ter que ficar fechadas.