Fidel Castro apoia, desconfiado, aproximação entre Cuba e EUA

Antigo líder cubano quebrou silêncio mais de um mês depois de anunciada "nova era" no relacionamento entre os dois países.

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Castro não aparece em público há um ano, mas o seu aval à acção do irmão continua a ter relevância política Yamil Lage/AFP

“Não confio na política dos Estados Unidos nem troquei uma palavra com eles, mas isso não significa, muito menos, a recusa de uma solução pacífica para os conflitos ou os perigos da guerra”, afirma Fidel, de 88 anos, na carta que lhe é atribuída, lida segunda-feira na televisão estatal e publicada depois no site do jornal oficial Granma.

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“Não confio na política dos Estados Unidos nem troquei uma palavra com eles, mas isso não significa, muito menos, a recusa de uma solução pacífica para os conflitos ou os perigos da guerra”, afirma Fidel, de 88 anos, na carta que lhe é atribuída, lida segunda-feira na televisão estatal e publicada depois no site do jornal oficial Granma.

Desde que, a 17 de Dezembro, o Presidente norte-americano, Barack Obama, e o seu homólogo cubano, Raúl Castro, anunciaram, em simultâneo, que pretendiam reatar as relações diplomáticas interrompidas em 1961 que se especulava sobre qual a posição do histórico dirigente cubano sobre o acordo negociado em segredo.

O seu silêncio ajudou a alimentar os rumores de que estaria muito doente – alguma imprensa cubana no exílio chegou a admitir que teria morrido. Não é também claro se foi mantido a par das negociações ou se as apoiou, mas o seu aval à acção do irmão mais novo continua a ter uma importância mais do que simbólica. “O Presidente de Cuba deu passos pertinentes em concordância com os poderes que lhe são atribuídos pela Assembleia Nacional e o Partido Comunista de Cuba”, lê-se agora na missiva.

A carta, com data de 26 de Janeiro, é dirigida à federação de estudantes universitários de Cuba e só nos parágrafos finais é feita a referência ao processo de aproximação a Washington. Nela, Fidel diz sempre ter defendido “a cooperação e a amizade com todos os povos do mundo, incluindo com os adversários políticos” de Cuba. Mas, assinalando a desconfiança que mantém em relação a Washington, sublinha que “qualquer solução pacífica e negociada dos problemas entre os EUA e qualquer povo da América Latina” deve basear-se “nos princípios e normais internacionais”.

Na semana passada, um mês depois do anúncio conjunto, a vice-secretária de Estado norte-americana, Roberta Jacobson, esteve em Havana para a primeira ronda de negociações com o Governo de Raul Castro. No final da reunião, que pôs na prática fim ao isolamento diplomático a que os EUA votaram a ilha desde 1961, os dois lados disseram ter sido conseguidos resultados “produtivos” e construtivos”, embora tenha ficado também claro que as mudanças que a reaproximação promete serão lentas e negociadas arduamente.

E se tanto a população cubana como a maioria dos norte-americanos apoia o fim da política de hostilidade (aguardando os benefícios económicos que daí podem resultar) o acordo foi repudiado por muitos exilados cubanos e boa parte da oposição republicana, para quem a normalização – e o desejado fim do embargo imposto em 1962 – só é admissível no caso de uma mudança de regime em Havana.  

A carta de Fidel, que não é visto em público há mais de um ano, é a primeira reflexão assinada pelo antigo líder cubano desde Fevereiro de 2014, quando por ocasião da visita do Presidente chinês Xi Jiping abordou os benefícios que o investimento de Pequim pode trazer à América Latina, recorda o jornal espanhol El País. No passado dia 12, quando regressavam os rumores sobre a sua morte, Havana revelou que Fidel Castro escrevera uma carta ao antigo futebolista argentino Diego Maradona, seu amigo, que se encontrava então de visita à ilha.