Entrevista

Quando Alberto João “voltar na sua glória”

O presidente do Governo Regional da Madeira deixa, na despedida, contas pesadas e mais ameaças.

Há dias, feitas as contas aos gastos públicos da Madeira durante todo o mandato de Alberto João Jardim, concluiu-se que tinham sido 47 mil milhões em 36 anos, ou seja, 3,6 milhões por dia. Dito isto, a herança para o próximo governo madeirense, seja ele qual for, é robusta: uma dívida de 9,1 mil milhões de euros, acrescida de encargos com contratos plurianuais superiores a 13,3 mil milhões de euros. A isto, o presidente do governo regional, Alberto João Jardim, tem a dizer duas coisas: a primeira é que assume tudo o que fez ao longo dos seus mandatos, e nesse “tudo” inclui a dívida; a segunda é que, se a Madeira se encontra numa situação difícil, é porque foi roubada. E o ladrão é, sem sombra de dúvida, o Estado português, um “Estado colonial”, que só tem “roubado e explorado” a Madeira: “Depois de cinco séculos de roubo com a colonização portuguesa, não seria possível desenvolver a região sem recorrer à dívida.” Não há novidades neste discurso de vitimização, em que Alberto João insiste quando as contas apertam. Mas é bom lembrar que a Madeira foi colonizada, sim, mas a partir de 1425, porque não existia vivalma na ilha antes de Gonçalves Zarco lá aportar, em 1419. A “colonização” moderna a que Alberto João se refere é o fantasma a que recorre, sem cessar, desde há anos, para ofuscar o seu destemido endividamento. Com alguns governos esse recurso dá resultado, com outros nem tanto. A verdade é que, na hora da “despedida” (que poderá ser provisória ou nem sequer existir), ele quis deixar mais do que contas pesadas e ameaças. E citou o bíblico Juízo Final do Evangelho segundo São Mateus: “Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso.” Sonhará ele, no seu “trono”, tratar do “juízo final” madeirense, chamando a si os “justos” e enviando os “malditos” para o inferno? Se é assim, compreende-se. Na verdade, ele só finge sair para poder “voltar na sua glória”.

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