Opinião

Passos Coelho e a canzoada

O desdém hoje comum pelo primeiro-ministro, que nem chega a ódio, vem do facto prosaico de que as pessoas não o levam a sério.

O sr. primeiro-ministro acha os jornalistas e os comentadores pura e simplesmente patéticos: têm dificuldade em dizer que erraram, que são preguiçosos, que não leram, que não compararam e que só se interessam por “causar uma boa impressão” e que se guiam todos pela grande regra da “Maria vai com as outras”.

Como se vê, o sr. primeiro-ministro está irritado com a televisão e os jornais que diariamente o criticam – o que se compreende. O que se compreende com mais dificuldade é que não lhe ocorra num intervalo de lucidez que ele próprio deu pretexto ou razão às críticas que lhe fazem. Não vale a pena repetir a longa e triste história deste Governo desde a herança de Sócrates ao último escândalo do banco ou do Grupo Espírito Santo. Até porque um político que arreganha o dente desta maneira à canzoada só mostra uma coisa: que está muito contente com ele e com a sua obra.

Se ele fosse um bocadinho mais modesto e desde o princípio tivesse explicado a necessidade de cumprir o programa da troika e de o cumprir como ele o “cumpriu”, o desacordo da opinião pública e publicada não seria com certeza tão grande. Infelizmente, para Passos Coelho, a situação era tão clara que ele não precisava de se justificar. Pior ainda: com o tempo, passou a acreditar na sua própria infalibilidade (uma doença que o poder traz muitas vezes consigo) e assistiu ao colapso do seu Governo e, parcialmente, do regime, com equanimidade e deleite. Agora, perto do fim, anda exasperado com a rejeição que o país lhe manifesta e atribui as culpas à gente que por aí perora contra ele em cada canto de cada jornal e em cada programa de cada televisão.

Surgiu recentemente a teoria de que, se os portugueses não gostam do sr. Passos Coelho, é porque ele não os tentou convencer com persistência e zelo. Mas, primeiro, ele pensava que a sua política falava por si e, depois, supunha que a menor explicação diminuía a sua autoridade. Acabou, como se calcula, a meter os pés pelas mãos, quando a oposição o encostou à parede no Parlamento e na barafunda geral da política estabelecida, ou seja, no terreno mais desfavorável para ele. O desdém hoje comum pelo primeiro-ministro, que nem chega a ódio, vem do facto prosaico de que as pessoas não o levam a sério. A diatribe pueril e errada sobre os jornalistas e os comentadores não excitou ninguém. É o que se espera da criatura.

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