Oscar de la Renta, um dos últimos românticos da moda

Com a morte do costureiro, aos 82 anos, desaparece um dos nomes de maior glamour da moda. Um homem que sabia olhar as mulheres e torná-las sedutoras e elegantes.

De La Renta em 2013 na Semana de Moda de Nova Iorque
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De La Renta em 2013 na Semana de Moda de Nova Iorque REUTERS/Lucas Jackson
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A actriz Amy Adams com um vestido do criador nos Óscares REUTERS/Lucy Nicholson
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Com a editora de moda Anna Wintour REUTERS/Carlo Allegri
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Amal Clooney com o criador DR
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Oscar de la Renta era um dos criadores de moda que Jackie Kennedy preferia Exposição "Oscar de la Renta: Five Decades of Style"
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Uma das suas criações na semana da moda de Nova Iorque AFP/Stan Honda
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Com Penelope Cruz na inuaguração de uma exposiçao dedicada ao criador Alexander McQueen REUTERS/Mike Segar
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Laura Bush com um Oscar de la Renta no relvado da Casa Branca. A ex-primeira dama dedicou-lhe recentemente uma retrospectiva no George W. Bush Presidential Center Exposição "Oscar de la Renta: Five Decades of Style"
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Nancy Reagan num jantar presidencial com um dos seus muitos Oscar de la Renta DR
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Sarah Jessica Parker com um vestido do criador na gala do Metropolitan Museum
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A modelo Cindy Crawford na capa da Vogue em Fevereiro de 1990 usando uma criação de Oacar de la Renta
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Hillary Clinton no baile inaugural de 1997 Reuters

A homenagem vem em jeito de agradecimento e, na sua simplicidade, parece resumir o essencial: “Obrigada por toda a beleza”, escreveu Nina García, directora criativa da revista Marie Claire, numa breve mensagem na rede social Twitter, pouco depois de saber da morte do criador de moda Oscar de la Renta.

Com o desaparecimento de De La Renta, que morreu com um cancro na segunda-feira à noite na sua casa no Connecticut, é o fim de uma época na moda norte-americana, escreveram jornalistas e editores em obituários e artigos de opinião. O fim, pelo menos, de uma forma de olhar a mulher. O costureiro nascido na República Dominicana costumava enaltecer, lembram, o seu lado mais feminino e alegre, assumindo que não sabia fazer roupa descontraída. “Há sempre uma dose de emoção em tudo o que fazemos”, dizia este homem que começou a trabalhar em moda na Espanha de Franco, passou por duas das grandes maisons francesas e acabou por encontrar o seu lugar – e que lugar – em Nova Iorque.

Considerado um sedutor por muitos dos que o conheciam, misturando um “charme latino natural” com uma “grande astúcia” para os negócios, lembra o diário The Washington Post, De La Renta manteve ao longo de uma carreira de cinco décadas uma carteira de clientes impresionante – primeiras-damas, actrizes e multimilionárias – e mereceu o respeito de colegas de profissão como Valentino ou Yves Saint Laurent. Os seus vestidos elegantes, sobretudo os de noite, tornaram-se para muitas objectos de desejo desde que a antiga primeira-dama Jacqueline Kennedy e a actriz Audrey Hepburn, indiscutíveis ícones da moda, começaram a usá-los em meados dos anos 1960.

“O vestuário que fazia era muito clásico, mas sempre com um toque de actualidade”, diz ao PÚBLICO a directora da Associação ModaLisboa, Eduarda Abbondanza, referindo-se a um criador que ficará na história da moda associado ao glamour e a um certo “chique institucional”.

“Homem sensato”, com uma vida e uma carreira longas, De La Renta soube construir um império duradouro e sem sobressaltos, defende a também professora do curso de Design de Moda da Faculdade de Arquitectura de Lisboa. “A sua carreira não teve grandes picos, mas evolui sempre muito bem, sempre tranquila e elegante, como os vestidos que fazia.”

Mestre Balenciaga
Uma carreira que começa quando, já em Madrid, troca as artes plásticas pelo atelier de Cristóbal Balenciaga, um dos maiores mestres da moda e o homem que viria a ser o seu mentor. O pai queria que lhe seguisse as pisadas no negócio dos seguros, mas a mãe, as seis irmãs e o conselheiro espiritual da família – um padre espanhol que lhe ofereceu o seu primeiro estojo de tintas – alimentaram sempre a sua inclinação para o desenho.

“Quem como Oscar de la Renta vem da escola extraordinária de Balenciaga, dificilmente poderia fugir a um lado elegante e romântico”, diz Abbondanza. Um lado que se perpetuou. O costureiro de 82 anos trabalhou praticamente até ao fim, tendo anunciado há apenas uma semana o nome do seu sucessor na direcção criativa da casa que fundou.

“De todos os designers do mundo, Oscar de la Renta era o mais confiável a desenhar roupa capaz de nos fazer sentir bonitas”, disse a editora da Vogue Alexandra Shulman. “Ele manteve-se sempre fiel à sua convicção de que as mulheres deviam parecer elegantes, alegres e femininas, independentemente das mudanças na moda. Os seus desenhos nunca pareceram velhos nem vulgares. Quando usávamos um dos vestidos do Oscar sentíamos que estávamos no nosso melhor.”

Era simplesmente assim – Oscar – que lhe chamavam clientes e editores de moda. E, nas passerelles de estreias, noites de Óscares e bailes presidenciais, o seu nome tornou-se sinónimo de glamour, seduzindo mulheres de todas as idades, de Hillary Clinton a Emma Watson, de Laura Bush a Cameron Diaz, passando por Sarah Jessica Parker, Taylor Swift, Amy Adams e Amal Alamuddin, a advogada de origem libanesa que escolheu um dos seus famosos vestidos de noiva quando, em Setembro, se casou com o actor e realizador George Clooney: "O George e eu queríamos um casamento romântico e elegante e eu não consigo imaginar alguém mais capaz do que o Oscar para captar esse estado de espírito num vestido", disse na altura Alamuddin Clooney à revista Vogue.

Paris é sempre Paris
Consagrado hoje como um grande criador de moda, De La Renta conduziu sempre de forma muito coerente a sua carreira, escrevem Cathy Horyn e Enid Nemy no diário The New York Times, lembrando alguns dos marcos do seu percurso.

Saído do atelier de Balenciaga para onde entrara no início da década de 1950, instalou-se em Paris onde começou por trabalhar na maison Christian Dior, que viria a trocar, pouco tempo depois, pela Lanvin, colaborando com o designer da casa, Antonio del Castillo, com quem partilhava a língua. “Ele ofereceu-se para me pagar um pouco melhor do que na Dior”, contaria De la Renta mais tarde em entrevista ao Times, evidenciando o seu lado pragmático, o mesmo que o fez com que se quisesse mudar para Nova Iorque, onde já estava em 1963, ano em que se associou à empresária de moda Elizabeth Arden.

A temporada francesa seria decisiva, levando-o a admitir, muitos anos mais tarde, que vencer nos EUA era importante para um costureiro, mas que o reconhecimento internacional só se dava com o aval de Paris (foi o primeiro latino a ser aceite no exclusivo mundo de moda parisiense e, mais tarde, já como cidadão dos EUA, tornou-se o primeiro americano a desenhar para uma casa de alta-costura francesa, lembra ainda o Washington Post).

Trabalhar com Arden abriu um novo mundo, e um novo mercado, para a sua criatividade. E o momento chave da carreira chegou pouco tempo depois, quando, pela primeira vez, foi convidado a vestir a antiga primeira-dama Jaqueline Kennedy. Em 1965 De la Renta lançava a sua própria linha de moda.

Desde essa altura, o desfile de primeiras-damas a solicitar os seus serviços não parou. Betty Ford, Nancy Reagan, Laura Bush e Hillary Clinton tinham muitos dos seus vestidos no armário.

Em 1997, já no segundo mandato de Bill Clinton, o costureiro ajudou Hillary a mudar o seu look, o que a levou a comentar, com uma pontinha de auto-ironia: “Há 20 anos que ele está a trabalhar para me transformar num ícone da moda.” Laura Bush, por seu lado, admite ter-se apaixonado imediatamente por De La Renta, “aliás, como todas as mulheres”. “Do que vou sentir mais falta com a norte do Oscar é da confiança que ele me dava”, disse agora, citada pelo Washington Post. Só Michelle Obama parece não o favorecer. O New York Times refere, a esse propósito, que De La Renta chegou mesmo a censurar a actual primeira-dama por usar roupa de criadores estrangeiros em actos oficiais.

Procurando quase sempre afastar-se de polémicas – o “caso Michelle Obama” foi uma excepção -, De La Renta revelou coragem na adaptação às mudanças culturais, escreve ainda a dupla Horyn/Nemy no New York Times, num artigo em que recordam os seus dois casamentos (com a editora de moda Françoise de Langlade, que como ele viria a morrer com um cancro em 1983, e com Annette Engelhard Reed) e falam dos amigos que recebia em Nova Iorque ou na República Dominicana, de Norman Mailer a Truman Capote, passando por Henry Kissinger e o casal Clinton.

Dizendo que o que sempre quis fazer foi “roupa bonita”, De La Renta admitia que, apesar do sucesso, sentia ainda o peso da sua origem latina, de que aliás se orgulhava: “Tenho este complexo de que, se tentar entrar nalgum lugar vestindo uma camisa colorida, alguém me impeça dizendo: ‘Desculpe, mas a banda latina tem de entrar pela outra porta’.” Na sua morte, é de um costureiro que se fala e o glamour de “Oscar” não é latino nem americano - é universal. Com Sérgio C. Andrade