Primeiras projecções eleitorais apontam para vitória de Modi e mudança histórica na Índia

Urnas da maior eleição do mundo encerraram esta segunda-feira, com mais de 551 milhões de votos depositados. O líder nacionalista hindu Narendra Modi deverá ser confirmado como o novo primeiro-ministro da Índia na sexta-feira, quando os resultados forem anunciados.

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As maiores eleições do mundo registaram um novo recorde de participação de 66,4% Ahmad Masood/reuters

 O resultado final, que será proclamado no dia 16 de Maio, promete ser histórico: é uma ruptura com décadas. “Foi a Índia que ganhou, pela força do voto”, reagiu o candidato a primeiro-ministro, Narendra Modi, assim que as primeiras sondagens confirmaram a (inultrapassável) vantagem eleitoral da sua coligação, e o correspondente desvio do eixo político do país do centro-esquerda para o centro-direita.

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 O resultado final, que será proclamado no dia 16 de Maio, promete ser histórico: é uma ruptura com décadas. “Foi a Índia que ganhou, pela força do voto”, reagiu o candidato a primeiro-ministro, Narendra Modi, assim que as primeiras sondagens confirmaram a (inultrapassável) vantagem eleitoral da sua coligação, e o correspondente desvio do eixo político do país do centro-esquerda para o centro-direita.

Com um impressionante total de 815 milhões de eleitores inscritos (dos quais 100 milhões podiam exercer o direito ao voto pela primeira vez este ano), as maiores eleições do mundo registaram um novo recorde de participação de 66,4%, anunciou a Comissão Eleitoral da Índia. “Ao sol e à chuva, os indianos saíram para votar, e essa foi a maior vitória das eleições de 2014”, escreveu Modi na sua conta de Twitter. “Trata-se da maior taxa de votação de sempre na Índia, e estes números ainda poderão aumentar ligeiramente com os votos pelo correio”, observou o director-geral da comissão eleitoral, Akshay Rout.

As projecções eleitorais para o grupo de media India Today colocam a coligação Aliança Democrática Nacional de Modi em posição de alcançar uma maioria absoluta no parlamento indiano, com uma bancada que pode variar entre os 261 e os 283 lugares (a empresa de sondagens C-Voter atribui 289 lugares aos nacionalistas hindus, acima da fasquia dos 272 necessários para a maioria absoluta). O parlamento indiano é composto por 543 deputados.

Mas em votações anteriores, as sondagens à boca da urna sobrestimaram a votação no BJP, pelo que só a contagem efectiva dos boletins permitiria perceber a verdadeira dimensão da ruptura política na Índia – e da derrota do Partido do Congresso, que governou nos últimos dez anos. Como ressalvava à Reuters Praveen Rai, analista político do Centro para o Estudo das Sociedades em Desenvolvimento em Nova Deli, só com os resultados definitivos se vai ver se a “vaga Modi” foi um maremoto ou uma maré baixa.

A votação no Congresso – que tinha em Rahul, o herdeiro da dinastia Gandhi, o seu candidato oficioso a primeiro-ministro – entrará para a história como um novo mínimo para o partido que, nos 67 anos desde a independência da Índia, esteve mais de cinco décadas no poder. Mas a desaceleração económica da Índia, e a sucessão de escândalos de corrupção, alimentaram o descontentamento do país com o partido de Mahatma Gandhi e Nehru.

Depois de nove etapas, ao longo de cinco semanas de votação, o palco do chamado “grand finale” foi na cidade sagrada de Varanasi, a capital espiritual da Índia, no leito do Ganges, e na qual foram estacionados mais de 45 mil agentes de segurança para garantir que a eleição encerrava sem incidentes.

A cidade multicultural e grande bastião do hinduísmo é, naturalmente, território favorável a Narendra Modi, e o seu favoritismo parecia confirmar-se com uma grande participação no acto eleitoral. “Não arrumei a casa, não bebi o chá nem cumpri as orações da manhã para vir votar. Quero que ganhe Modi para poder ter uma vida melhor”, dizia à revista Time Narola Devi, que se apresentou na mesa de voto com o seu melhor sari, reservado para festas e ocasiões especiais.

Com o Congresso fora de combate em Varanasi, o “interesse” particular do último dia da votação era o duelo entre o líder nacionalista, cuja campanha assentou na promessa da modernização da economia, e Arvind Kejriwal, o candidato populista do Partido do Homem Comum (Aam Aadmi Party ou AAP), que colocou na agenda política a questão da corrupção.

Os dois corriam pelo lugar de Varanasi no parlamento, num duelo que a imprensa indiana descrevia como uma luta de David contra Golias. O concorrente que os analistas políticos classificam como um dos políticos mais “fracturantes” da Índia nem sequer precisa que a sua coligação obtenha a maioria absoluta para ser eleito primeiro-ministro – a maioria do BJP e a sua política regional de alianças é suficiente para que Narendra Modi garanta o cargo.

O futuro primeiro-ministro indiano é um homem metódico e disciplinado que desde jovem militou em organizações nacionalistas radicais que defendiam a preservação das tradições e da religião – os seus adversários do Partido do Congresso acusam-no de pôr em causa a laicidade do Estado da Índia – até se integrar no BJP, uma coligação de diversas facções que Modi soube congregar num movimento organizado que reclama encarnar o “espírito da nação”.

Com 63 anos, Modi define-se pelo seu activismo político, vegetarianismo e celibato (apesar de ser casado). Mas é uma figura polarizadora, principalmente por causa da sua atitude perante o que chama de “religiões estrangeiras”, como o islão e o cristianismo – quando dirigia o estado do Gujarat, em 2002, mais de mil muçulmanos foram mortos na sequência de motins religiosos, alegadamente perante a sua passividade.